quarta-feira, abril 23, 2008

Há vinte anos partiste!


NOTA: A imagem de fundo «roubei-a» algures na Internet. Peço desculpa – e agradeço – ao autor do feliz instantêneo.

sexta-feira, abril 04, 2008

O Chafariz da Sacristia

Cada fotografia reproduz um momento único da vida das pessoas visadas.
Pode ter passado muito tempo; pode o papel ter amarelecido com os anos; pode a própria imagem ir desvanecendo, mas o momento ali continua: ali permanece a pujança e a juventude; a expressão e o gesto; o semblante e a figura, o sorriso e a simpatia...
No caso presente, o enquadramento parece ser o Chafariz da Sacristia, no seu lugar primitivo (foi recentemente afastado uns metros devido à construção da Casa Mortuária). Ali foi tirado o retrato que, à força de o mirarmos, se torna familiar e convida a nossa memória a mergulhar no tempo, tentando identificar as personagens.
Só senhoras e meninas, ao que parece. Mesmo as senhoras, algumas delas – se me não engano – foram sempre tratadas por «meninas».
De facto, creio reconhecer as senhoras: Menina Maria «do Sr. João da Cruz», Menina Rita Berenguilho, Lurdes Leitão e Alda «Frederico». Não consigo identificar mais nenhuma, apesar de julgar que a mais pequerrucha parece ser a «Alicinha» França. Deixo o resto para os leitores do Salvador Barquinha d’Oiro.
O chafariz ostenta a data de 1951 e a fotografia deve ser de alguns (poucos) anos depois.
Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro.

segunda-feira, março 24, 2008

Missa nova no Salvador

Por que motivo tanta gente frente à casa de Maria Antónia Tavares e João da Cruz Monteiro?
Era catorze de Abril de 1953 e houve Missa Nova na terra, celebrada pelo filho do referido casal, facto ímpar na história do Salvador.

De facto, o padre Henrique da Cruz Monteiro foi o primeiro – e até agora único – sacerdote ordenado na nossa terra (à época, a tradição religiosa era muito marcante e outros jovens salvadorenses frequentaram os Seminários, mas mais nenhum teve sucesso).
O notável acontecimento foi festejado com toda a solenidade pela instituição religiosa, e os pais do novo clérigo fizeram também jus à sua felicidade, proporcionando uma lauta refeição a muitos convidados, incluindo pessoas das mais humildes do povo de Salvador.

À porta da igreja – na outra imagem – vêem-se, além do jovem padre, outros sacerdotes concelebrantes, nomeadamente o padre António Robalo Ramos (à frente), pároco de Salvador. Identificamos, ainda, o pai e o irmão (Chico) do padre Henrique. Ao lado deste, o professor José Vicente Lopes, mestre saudoso de muitas gerações de conterrâneos.

Fotos cedidas pelo padre Henrique da Cruz Monteiro.

sexta-feira, março 14, 2008

Na Rua da Cinza

Olá, eu sou o Albertino, tenho onze anos e estou aqui penteadinho, de risco ao lado, nesta foto tirada em 1949, na Rua da Cinza, à frente das casas dos dois irmãos – meu tio e meu pai – António Calamote, pedreiro, e José Calamote (Zé Violas), sapateiro. É uma daquelas fotos que o meu irmão Henrique tirava quando vinha de férias, no Verão. Já vou dizer quem são os outros:
À minha direita está o meu pai; a minha mãe, Maria Lucinda, está lá atrás, de blusa escura às pintas, ao lado do meu tio António. Ao colo do meu pai está o meu sobrinho Zé Henrique, com comichão no nariz.

O casal que tem os bebés ao colo são os meus primos António Calamote e Maria Pereira, recentemente prendados com as bonitas gémeas Maria de Fátima e Maria do Carmo.
As senhoras da frente são a minha cunhada Palmira, a minha prima Carolina e uma vizinha, creio que chamada Otília Pereira.
Atrás da Otília vê-se a porta da oficina de sapateiro de meu pai, que era também o encarregado do correio. O local era, assim, bem conhecido dos salvadorenses.
A oficina era um cubículo, pelo que a leitura dos destinatários das cartas que chegavam era geralmente feita a partir daquela porta, para uma «plateia» que esperava ansiosa.
Por essa altura já eu conhecia (vinha no meu livro da 4.ª classe) o célebre episódio de Mestre Bento Pertunhas, na Morgadinha dos Canaviais, e tive oportunidade de verificar, com os meus próprios olhos, a diversidade de semblantes em presença, durante cada um dos rituais diários da leitura do correio.

segunda-feira, março 10, 2008

«Instantâneo feliz»

Coincidência ou «instantâneo feliz» é o que se chamará ao facto de estarem praticamente sobrepostas a imagem e a cruz, nesta foto da procissão em honra de Nossa Senhora de Fátima, que vai em direcção à capelinha, em 13 de Maio de 1956 – um lindo dia primaveril.
É apenas um pormenor, de entre outros, tais como a «rica» ornamentação do andor; a alva vestimenta dos mordomos; o luto carregado das idosas; os lenços de cabeça ou a compostura das crianças pela mão das mães...
Mas há mais, muito mais! Há a maravilha da fotografia!
Com efeito, este «instantâneo» parou o tempo naquela ensolarada manhã e naquele exacto ponto da estrada de Salvador. A procissão está parada, mas tem vida.
Dir-se-ia tratar-se de pausa para reflectir...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Passeio de Domingo


Grupo de jovens salvadorenses aproveita uma amena tarde de domingo, gozando um agradável passeio pela estrada fora.

(Foto de cerca de 1960, cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes)

Santa Sofia há cinquenta anos


Estamos no dia 7 de Setembro de 1958, dia da festa de Santa Sofia. Findo o sermão, na capelinha da Santa, a procissão dirige-se agora à igreja matriz.

(Foto cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Guarda Fiscal e Salvador


Na época em que o contrabando entre Portugal e Espanha estava na ordem do dia, todos os lugares raianos, como a nossa terra, foram importantes na vigilância de fronteiras, na protecção fiscal e económica do Estado.
Esse trabalho pertencia à Guarda Fiscal que, durante a maior parte da sua existência secular, manteve um posto em Salvador, com uma guarnição variável, mas raramente excedendo a dezena de efectivos. Tratava-se de pessoas de outras naturalidades, dada a proibição de poderem exercer a profissão na sua própria terra, certamente por motivos de independência de acção.
Não cabe aqui abordar a sua actividade, nem a dos seus naturais «adversários» – os contrabandistas. O nosso objectivo é salientar o facto de que alguns desses homens, ao aqui residirem com as suas famílias durante vários anos e até décadas, tomaram o Salvador como a sua terra, e salvadorenses nasceram os seus descendentes.
Em 1956 era esta a composição do Posto de Salvador:
António Vaz Leitão
Domingos Lopes
José Afonso
José Dias Ramos
José Gomes
José Gonçalves Milheiro Duarte
José Toscano da Costa
Júlio Arrojado
Manuel Augusto Pires dos Santos
Sebastião Oliveira Cunha
Zeferino Miguel (Comandante do Posto)

Na foto, de cerca de 1950, o guarda-fiscal José Afonso faz o seu retrato de família. Natural de Proença-a-Velha, tal como a mulher, Adélia dos Santos, passaram no Salvador meio século de vida, e aqui jazem no cemitério local.

domingo, fevereiro 17, 2008

Conceito de Defesa da Pátria


Está ainda muito presente, entre os portugueses, a lembrança do conflito hoje chamado de Guerra Colonial, que durante treze longos anos, mobilizou a quase totalidade dos mancebos daquele tempo.
A mobilização era, aliás, genericamente encarada como fatalidade devida à obediência a valores que vinham sendo assimilados e se instalaram pacificamente na grande maioria da população.
Veio a revolução de 25 de Abril de 1974 e trouxe consigo, além do fim da guerra, o germe de uma consciencialização totalmente diferente, no que se refere à eventual justeza da nossa participação no conflito. O dever, antes configurado pelo conceito de defesa da Pátria, é, pelos novos ventos, distorcido, condenado, e coberto com o manto da ilegitimidade.
O sacrifício dos que intervieram na guerra ultramarina adquiriu, assim, nas consciências ideologizadas pela «revolução dos cravos», um significado pejorativo, destinado a ostracizar toda aquela geração de portugueses.
Porque o «novo» conceito de dever assume extensão diferente e os destinos dos nossos jovens são outros – ex-Jugoslávia, Bósnia, Kosovo, Afeganistão, etc., etc. – esperemos que o futuro os não condene também, nem minimize o seu sacrifício.
A foto acima é de 4 de Julho de 1961. O cenário é o caminho marítimo sulcado pelo navio «Niassa», com mais um contingente de tropas, que inclui alguns salvadorenses.

sábado, fevereiro 02, 2008

No tempo do Vieiro


Na primeira metade do século XX assistiu-se a um incremento da actividade mineira, como riqueza a aproveitar para atenuar as graves carências da economia nacional. Passado o efeito dos grandes conflitos mundiais, a procura baixou, os preços cairam e as minas paralisaram.
Salvador, com as suas minas, teve também a sua época. Ainda nos lembramos do grande movimento de camionetas que, pelos anos quarenta, vinham recolher o minério extraído pelos muitos trabalhadores das minas da Lameira, que o povo baptizou de vieiro, que significa «veio de metal ou de outra qualquer substância numa mina».
Das várias galerias retiravam toneladas de terra, donde era separado o minério de ferro e manganês, que eram a base da produção. O entulho restante e alguns desperdícios minerais não comercializáveis formavam, depois, montes enormes por todo o recinto das minas.
A foto é de 1955 e nesta altura a exploração já tinha parado. Do bulício doutros tempos ficou apenas, durante alguns anos, um antigo encarregado, que tomava conta das estruturas, aliás transformadas em polo de atracção e visita quase obrigatória dos salvadorenses que vinham a férias.
É o caso do Ti Violas (José Calamote), que as foi mostrar aos filhos e neto, tendo honras de visita guiada pelo dito encarregado e seu particular amigo, Sr. Severino Rodrigues Reboredo e sua mulher, D. Teresa, que ladeiam na fotografia.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Salvadorenses: encontro em Angola


A emigração em geral e as permanentes mobilizações militares, ocasionaram sempre saudáveis e alegres encontros, entre salvadorenses, por todo o mundo, em locais dos mais frequentados e cosmopolitas até aos mais ignotos e longínquos.
Esta foto é de 1970 e foi tirada em Angola, na paradisíaca ilha do Mussulo.
Como salvadorense residente em Angola, está o Sr. Américo Raposo (em pé, de óculos), com a esposa e as duas filhas. O grupo dos restantes inclui salvadorenses por nascimento, salvadorenses por afinidade e salvadorenses por amizade.
Nos primeiros está este vosso amigo com a mulher e os dois filhos, e a Maria Adelaide Lopes; nos segundos vemos o Adérito, marido da Maria Adelaide, e seu cunhado Narciso Afonso com a esposa e o filho; finalmente, os terceiros são os nossos amigos Zé Catana com a esposa e filha, e o Cleto Lopes, também com sua esposa e filha.
Escusado será dizer que foi um dia soberbo. Escusado será, também, salientar como a distância avolumava as saudades da nossa terra.
Do mesmo modo como o tempo avoluma, agora, as saudades daqueles que já só estão na memória desta fotografia.

sábado, janeiro 26, 2008

Largo Maria Clara da Silva Robalo


No post anterior demos uma mirada para lá da esquina da nossa igreja, e, como quem espreita o passado, vislumbrámos um pouco do que existia no espaço agora com a referência toponímica de Largo Maria Clara da Silva Robalo. Pois as duas fotos que hoje publicamos, de uma procissão de velas, permitem uma apreensão mais completa de como era o local.
Nas duas imagens, que se completam, vemos que o cortejo acaba de contornar a igreja, passa rente à sacristia e vira à direita, dirigindo-se ao «fundo da estrada».
Não sabemos datas das fotos, mas supomos serem dos anos 40, a julgar pela vestimenta de algumas senhoras. E a igreja ainda não fora caiada.
As casas de alvenaria que se vêem já não existem. O acesso ao adro da igreja (e aos comércios ali existentes) ficou impraticável desde o advento das camionetas de mercadorias, e houve que alargar as ruas adjacentes. Mais recentemente, a construção da Casa Mortuária alteraria o resto, nomeadamente os arruamentos à volta da igreja.
Com a demolição da casa do beirado, desapareceu o célebre balcão florido da «Menina Rita», uma simpática e não menos célebre personagem do Salvador de antigamente
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Fotos cedidas por José Manuel Borrego Ribeiro.

sábado, janeiro 19, 2008

Anos sessenta


Esta bela imagem, tirada à porta da Igreja Matriz de Salvador, no início da década de sessenta é um manancial de informação sobre a nossa terra. Como é evidente, o que de imediato nos salta à vista é o simpático grupo de jovens, rodeando uma encantadora noiva. Todas elas estão vestidas a preceito para o casamento, mas a igreja está fechada. Como a noiva morava ali mesmo ao lado, afigura-se-nos que ela quis posterizar-se ali, com o seu grupo de amigas, antes da cerimónia, provavelmente no que seria o seu último acto de solteira. Dispenso-me de as identificar, porque não quero tirar esse prazer aos salvadorenses que nos seguem.
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Naquele tempo a igreja ainda era caiada, e os degraus da porta principal eram outros.
Encostado à parede, nota-se um monte de areia. Obras? Remendos no piso de pedra solta do adro?
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A mulher idosa que espreita o ranchinho traja saia de lã preta, com pregas na cintura, comprida, um pouco acima do artelho; blusa de chita estampada; lenço preto traçado na face por baixo dos maxilares e apertado atrás; meia preta e sapato preto. Pelo trajo dir-se-ia ser domingo ou dia santo de guarda ou, então, a mulher iria «acompanhar a noiva ao altar», como era uso quando as famílias eram mais próximas.
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Finalmente, e não menos importante, a fotografia mostra-nos ainda, para lá da esquina da igreja, um pouco do que era o actual Largo Maria Clara da Silva Robalo. A casa que se vislumbra era, se bem nos lembramos, da família de José Ferreira, pessoa que conhecemos já com bastante idade e um pouco afectada da mente: vivia com a mãe, mas adorava jogar as damas na oficina do sapateiro José Calamote (Zé Violas), onde passava muito do seu tempo. Esta casa (no lugar dela está hoje a casa dos herdeiros de António Amaral) tinha um balcão muito alto. Nesse balcão e no da casa de José Cigano «Barrigudo» (que ficava defronte, onde é hoje a casa de Rui Candeias) – miradouros privilegiados – tomavam lugar as pessoas da terra para verem passar os entrudos, ou assistirem a outros quaisquer acontecimentos ou divertimentos que por ali passassem.

terça-feira, janeiro 08, 2008

A primeira comunhão


Era bastante elevada a religiosidade dos salvadorenses no dealbar dos anos setenta do século que passou. A escola primária era ainda frequentada por grande quantidade de crianças de ambos os sexos. A Escola e a Igreja tinham ainda uma ligação muito forte nas aldeias. O Padre e o Professor eram as personalidades de mais alto relevo e mais respeitadas entre a população, que via nelas a essência da cultura e da educação que pretendia para os seus filhos.
Quando chegava a idade para fazer a primeira comunhão, as mães, mesmo as mais humildes, tentavam arranjar uma roupinha nova e uns sapatinhos em bom estado para o grande acontecimento – que o era, de facto, e não só para os pequenos, mas para os pais, para os professores, para as catequistas e para o próprio pároco.
Era um dia de grande felicidade: um marco na vida duma criança, só comparável a outros tantos marcos que a vida lhe haveria de trazer futuramente: o exame da quarta, o primeiro namorico, a tropa, o curso, o casamento...
A fotografia (frente e verso) representa o dia da comunhão dos meninos e meninas das escolas de Salvador, no dia de Santo António do ano de 1971. Tem dedicatória pelo punho da professora D. Maria Adelaide (a meio da última fila), senhora de grande religiosidade e, então, a mais antiga entre os docentes da terra, desde o falecimento de seu marido, o saudoso professor José Vicente Lopes, em 22 de Agosto de 1969.

sábado, dezembro 29, 2007

Pé descalço

Olhando com alguma atenção para esta curiosa fotografia, tirada na nossa terra em 1945, que vemos nós?
Sete crianças, cujas idades parecem andar entre os quatro e os dez anos, «olham o passarinho», felizes e encantadas da vida. O enquadramento é do mais pobre e primitivo: o fundo é um vulgar carrasqueiro encostado a um tosco muro de alvenaria; o piso, esbarrocado, é de terra solta e pedra de vários tamanhos à mistura. Não obstante, apenas uma das crianças está calçada.
Pé descalço nas crianças era coisa normal, em Salvador, quando esta fotografia foi feita. Mesmo os adultos era muito raro possuírem mais do que um par de calçado. Sobretudo nas mulheres, acontecia, mesmo, andarem descalças em casa ou no campo, e trazerem consigo os sapatos, para os calçarem quando entravam no povo ou quando iam à missa.
O calçado era algo que se não colhia na horta e era necessário dinheiro para o adquirir. Muitos lavradores tinham casas abastadas de produtos da terra, mas não possuíam dinheiro, que era mais fácil existir em quem tivesse um ordenado, por baixo que fosse.
Retrato paradoxal da vida daqueles tempos, em que até a subsistência era uma ambição, mas o bem-estar e a felicidade eram bem mais fáceis de atingir; em que as desigualdades existiam, mas em que as diferenças andavam bem mais próximas do que agora.
Retrato paradoxal dos tempos em que se cantava e bailava por tudo e por nada, no início, durante e no fim dos trabalhos.

(A foto foi-nos cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes – o único calçado na imagem, sem dúvida pela simples razão de ser «filho de guarda»: o guarda-fiscal Domingos Lopes).

terça-feira, dezembro 18, 2007

Quem se lembra?


Lembram-se de lhes ter aqui falado num chafariz que existiu à beira da estrada, encostado ao Chão do Seabra, em frente do, agora, edifício da Junta de Freguesia de Salvador (Ver post de 26 Nov2006 – «QUEM SE LEMBRA?»)?
Ainda não obtive resposta concreta. Consta que foi demolido quando do abastecimento de água ao domicílio, uma demolição de certo modo anárquica, do que resultou as cantarias terem sido roubadas anonimamente e sem rei nem roque.
Referem-se rivalidades políticas entre a Junta que construíra o chafariz e a que lhe sucedeu, cuja estratégia não o incluia na rede geral que entretanto se delineava, pelo que para ali foi ficando, sem água, até ser derrubado, vandalizado e apagado do mapa...
Foi pena. Com água ou sem ela, ali ou noutro local, tratava-se de uma bela obra de cantaria, que hoje poderia aumentar, um pouco, o património de Salvador, que não é tão famoso assim.
Na foto que hoje lhes deixo, lá se vêem, jazendo abandonadas no chão, as pedras que restam do formoso chafariz de cantaria aparelhada que ali esteve edificado alguns anos – aliás poucos, porque, então como agora, a primeira coisa que a maioria dos políticos faz é encobrir, ou apagar, a obra dos seus antecessores.
É inegável que a nossa terra mudou muito desde então. Todavia, há coisas que não deveriam mudar, pela simples razão de que não são propriedade de um ou outro grupo, de uma ou outra instituição: são coisas que pertencem à memória colectiva do povo; são coisas que temos por dever preservar e transmitir às novas gerações.

(A imagem documenta a procissão da festa de N.ª S.ª de Fátima, no seu regresso à capela, no dia 13 de Maio de 1956).

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Curso de Bordados


A fotografia que aqui apresentamos data de 1958 e registou para a posteridade o final de um Curso de Corte e Bordados, dos muitos promovidos pela OLIVA, a conceituada marca portuguesa de máquinas de costura, com sede em S. João da Madeira, que, desde o princípio da década e durante vários anos, inteligentemente usou como publicidade e promoção de vendas, a realização, pelas aldeias, destes cursos, praticamente gratuitos.
Naquele tempo ainda eram raros os estudos secundários ou superiores por parte das meninas, das quais, conforme a mentalidade da época, se esperava que fossem as fadas do lar, isto é, que fossem prendadas em matéria de costura e lavores e na vida doméstica em geral.
O curso da foto decorreu em Aranhas (haveria, depois, em Salvador) e foi frequentado por moças das duas freguesias (de diplomas na mão!). Da nossa terra, identificamos a Maria Augusta Afonso (na fila da frente, segunda a contar da esquerda); a Lurdes Cunha Leitão (na segunda fila, terceira a contar da esquerda); a Dulce Costa Silva (segunda fila, terceira a contar da direita); a Isabel Tavares (quarta fila, à direita e meio encoberta) e a Lurdes Moreira Leitão (atrás da Dulce).
O dois elementos masculinos presentes são, à frente, o Sr. Araújo, agente da marca em Penamacor, e, na quarta fila, o Sr. Clemente, responsável de área. A professora do curso, de nome Lucinda – se a memória não nos engana – encontra-se na fila da frente, entre a Maria Augusta e o Sr. Araújo.
Tivemos o privilégio de ter como esposa uma destas «fadas do lar»: por isso, assistimos e deliciámo-nos com os panos bordados a crivo, a richelier, a cordonet, com os pontos a cheio, com os matizados, com as bolotas, as rosas, os cravos, os monogramas e outras maravilhas que saíam daquela máquina e daquelas mãos directamente para as toalhas, para os lençóis, para a primeira envolta do bébé, ou, mesmo, para o bibe do primeiro dia de escola dos nossos filhos.
Provavelmente já não haverá cursos de bordados, nem se venderão máquinas de costura como antigamente. A mulher moderna já não precisa de aprender a costurar, a bordar e a fazer roupas para si e para os seus familiares. Dona de casa ou não, já compra tudo feito, despersonalizado e o gosto já não é o seu: tem que seguir os que mandam nos gostos de toda a gente.

domingo, novembro 25, 2007

Cantigas ao desafio – O Ti Triste

No post de 14 de Setembro de 2007, sobre os cantares ao desafio de outros tempos, já tivemos oportunidade falar do Ti Triste. Voltamos de novo ao assunto porque chegou às nossas mãos uma entrevista, de Jolon, encimada por uma expressiva imagem, publicada no Jornal do Fundão de 5 de Novembro de 1999. Não resistimos a aludir – com a devida vénia – algumas passagens que documentam excelentemente esta conhecida personagem salvadorense e típica figura da poesia e do descante populares – à data com 83 anos.
O título é esclarecedor: «“Triste” de alcunha mas sempre alegre no cantar»; e em subtítulo: «António Silva, ex-ganhão, guardador de cabras e agricultor, confessa que “a meio vinho” é quando se “quadra” melhor».
Depois de referir os tempos em que se deslocava à aldeia vizinha de Aranhas, aos mercados de Monsanto ou às festas e romarias onde houvesse um acordeonista ou uma viola, expressamente para se defrontar com outros cantantes bem conhecidos e de nomeada na zona, António Silva confessa que «no Salvador ainda persistem uns quantos fadistas», que se reuniam na taberna da «velha do Ti Carrondo».
A entrevista incluiu uma sessão ao vivo, onde, ao som do acordeonista António Morais, o Ti Triste cantou ao desafio com o Zé António França, o António Maria da Serra e o João Augusto – este último um jovem deficiente e invisual que, numa recente festa de Santa Sofia, cantara à desgarrada com a fadista Cidália Moreira.
O espectáculo decorreu entre sardinha assada, entrecosto na brasa e vinho da região, e ramatou com um improviso dedicado pelo entrevistado ao entrevistador:

Viva toda a sociedade;
Vivam todos quantos estão;
Viva o nosso Salvador;
Viva o Jornal do Fundão.

segunda-feira, novembro 19, 2007

José Candeias da Silva (1887-1959)

Professor Candeias, padre Candeias, doutor Candeias ou, simplesmente, senhor Candeias, eis uma figura ímpar de Salvador, enternecedora, cativante e respeitada de todos os que tiveram o privilégio de a conhecer. Homem de inteligência superior e de trato humano fora do comum, poderia ele ter sido alguém de nomeada e a referência que falta à nossa terra, se uma doença mental o não tivesse atingido na flor da idade – por volta dos trinta anos.
José Candeias da Silva nasceu em Salvador, de uma família de agricultores. Após a instrução primária foi estudar para o Seminário da Guarda, chegando a receber ordens menores e de subdiácono. Por questões de vocação mudou-se para a Escola Normal de Viseu, para tirar o curso de professor, que veio a completar na Escola Normal de Coimbra, visto que, simultaneamente, se matriculou na Universidade, onde foi condiscípulo de Cerejeira, Salazar e muitos outros alunos do tempo que viriam a ocupar posições de relevo na vida nacional. Inesperada e misteriosamente, abandonaria os estudos, regressando ao Salvador, já no final do 4.º ano do curso de Direito, quando já por todos lhe era dado tratamento de doutor.
Durante o resto da sua vida, marcada por uma demência serena, com períodos de recolhimento e solidão, alternando com outros de alguma errância que se caracterizava por uma atenção fixada na vida do campo e na Natureza, materializada em constantes deambulações entre os vários prédios rústicos da família, onde, dizia, mantinha hipotéticas explorações agrícolas e agro-pecuárias.
O Sr. Candeias, apesar da sua doença, era amado e respeitado por toda a gente da terra, e era recebido em casa das pessoas mais representativas da região. Lembramo-lo nos seus últimos dez a quinze anos de vida e fomos das muitas crianças que ele acarinhava naturalmente, sempre com uma palavra suave e gentil, como era seu timbre. Ao passar por nós parava, punha-nos a mão direita sobre a cabeça, e lá vinha um dos seus encantadores piropos: – Olá, príncipe das Astúrias!; – Então, duquesa de Bragança! Ele ensinou as primeiras letras a alguns de nós, mesmo antes de entrarmos na escola: adquiria cartilhas e mandava imprimir pequenas tiras de papel com o abecedário e a tabuada, que depois nos distribuía.
Escrevia imenso, em prosa e em verso, com qualidade variável como é natural, mas com a sua cultura e inteligência superiores sempre presentes. Contamos poder incluir, em breve, alguns dos seus escritos neste blogue.

Na foto: José Candeias da Silva, de capa e batina. Coimbra, 9-6-1915 (gentileza do neto Libério das Neves Martins).

quarta-feira, novembro 07, 2007

Férias na terra


As pessoas que, há cinquenta anos, vinham passar as férias de verão ao Salvador, constituíam os seus verdadeiros turistas. Eram geralmente salvadorenses que tinham emigrado para a capital e que, organizada ali uma vida melhor, se podiam dar ao luxo de gozar uns dias entre os familiares que cá tinham.
Ainda a televisão não tinha globalizado os costumes, e esta gente destacava-se, no falar, no vestir e na própria postura física, do comum dos aldeões. Era um tempo em que o sotaque indicava, sem grandes margens de erro, a origem dos falantes, não só por regiões, mas, muitas vezes, pela própria terra de naturalidade. Num grupo de pessoas conversando, não era difícil separar as de Salvador das de Aranhas, das de Penamacor ou, mesmo, das de Monsanto ou de Penha Garcia.
A vestimenta, de uma forma menos precisa, também era um bom indicador.
Não era raro estes «veraneantes» trazerem convidados à sua terra, orgulhando-se de lhes mostrar os pontos de maior interesse para visita, onde não faltavam os chafarizes e as fontes da excelente – e famosa – água de Salvador (e que saudade, Deus meu!).
Nesta foto, de 1956, vemos José Calamote (o Ti Violas), mostrando a velha «Fonte do Povo» a filhos, netos, noras e familiares destas, que visitavam a nossa terra pela primeira vez.