terça-feira, junho 17, 2008

O primeiro automóvel


A magnífica foto que hoje aqui apresentamos não está datada, supondo nós que seja de cerca de 1945, mais ano, menos ano. Ao centro de uma autêntica moldura humana, e quase engolido por ela, está o Ford V8, de matrícula AC-82-56, que foi o primeiro automóvel de Salvador e cuja chegada foi, como se vê, alvo da enorme curiosidade que a bela imagem tão bem regista.
O dono da formosa máquina era o senhor António Manteigas Raposo («Toninho» Raposo), que vemos atrás do ombro direito do tocador, aliás seu irmão «Zeca» Raposo.
O local da pose é o Adro da Igreja e o prédio de fundo é o da referida família Raposo, a mesma que, alguns anos antes, doara o relógio da torre da igreja da nossa terra.
Esta viatura, e o seu generoso proprietário, serviriam inúmeras vezes para situações de emergência, respondendo, graciosamente, a aflições de pessoas da terra, por mais humildes que fossem.
E o autor destas linhas nunca esquecerá que foi neste carro que, pela primeira vez, andou «a cavalo» num automóvel, e a «cavalada» foi bem comprida...
Teria eu oito ou dez anos, o Sr. António Raposo, que era muito amigo de meu pai, precisando de companhia para ir a Oliveira de Azeméis, onde tinha uma irmã, pediu ao amigo «Violas» que deixasse o rapaz ir com ele. E assim foi. Algo maravilhoso e inesquecível. Recordo que apanhámos neve na estrada, para lá da Guarda. Fizémos paragem, para comer, em Fornos de Algodres. Fixei este nome, que achei estranho para ser nome de terra, mas, mais ainda, fixei o que comi: bifana! Não sabia o que aquilo era, mas achei um desgoverno: um pedaço de carne, que daria para todos comermos em casa, com batatas ou com arroz, estava todinho dentro do meu papo-seco! Visto com os olhos de agora, parecerá tudo normal e nada extraordinário, mas, naquele tempo, não se comia carne com a abundância de hoje. A carne do porco estava na salgadeira e era para durar todo o ano; as galinhas deviam pôr ovos e a sua carne era para os doentes; cabrito e borrego comiam-se nas festas, quem os tinha ou possuía dinheiro para comprar; finalmente, as vacas serviam para lavrar e para puxar o carro... Como os tempos mudam!
Deixando a viagem e voltando à fotografia, os salvadorenses que nos seguem, sobretudo os mais velhos, encontrarão aqui muita gente conhecida, do tempo em que «chapéus ainda havia muitos»!
Juntamos um diagrama com as personagens numeradas, para ajudar às identificações. Obviamente que solicitamos que no-las comuniquem, para que vamos actualizando o quadro. Podem fazê-lo através de comentário a este post ou para a.calamote@gmail.com.

Foto gentilmente cedida pela Exma Senhora D. Deolinda Raposo.

quinta-feira, junho 12, 2008

Os «Pregões do Meio»


Era uma tradição bem comemorada. Quando um par de noivos resolviam celebrar o sacramento do Matrimónio, iam ter com o senhor prior para darem andamento aos «proclamos».
Eram os papéis necessários para organizar o processo de casamento.
A primeira fase era dar a conhecer à comunidade, em três domingos seguidos, que fulano e fulana queriam casar, e se alguém tivesse conhecimento de algum impedimento, o mais comum era a consanguinidade, desse conhecimento dele.
O segundo domingo da proclamação chamava-se: «pregões do meio». Nesse domingo o ritual era o seguinte: a família da noiva adoçava tremoços que chegassem para os familiares e amigos, e o noivo arranjava boa pinga, para darem a todos os que quisessem juntar-se a eles, no baile que organizavam. A noiva aparecia com um lindo vestido preparado para esse dia, além de todos os adereços que possuía. Igualmente o noivo. «Toilete» que só ia servir para o segundo dia após o casamento.
As famílias de ambos preparavam a fogaça para o senhor prior: tremoços, uma garrafa de bom vinho, a melhor pita da capoeira e um bom «pão-leve», também conhecido por pão-de-ló.
Assim eram festejados os pregões do meio. Era, nem mais nem menos, o dia dos esponsais no hábito judaico, compromisso solene do noivado, que atraiçoado já era adultério.
Nessa semana, os noivos levavam os tremoços às casas dos amigos, que retribuíam com uma oferta, ao novo casal a formar-se já com dia marcado.
Pe. Henrique

quinta-feira, junho 05, 2008

«Dancing» dos anos 1930


Os grandes dancings do Salvador eram os terreiros, bem conhecidos dos jovens e dos adultos.
Nos domingos da parte das manhã, alguém com um regador borrifava o terreiro, para abater o terreno e não levantar o pó, na hora da dança.
Era ver as raparigas com os belos vestidos domingueiros alegrarem o ambiente e como era lógico os rapazes de camisa branca, colete escuro, calças no mesmo tom, cravo na orelha ou no bolsinho do colete, o bom perfume da época, encherem o terreiro. Ali aguentavam na cavaqueira e chalaça até chegar o homem da gaita de beiços, «o realejo», e começar a executar o seu variado e belo repertório musical, para os rapazes se dirigirem à moça predilecta, a pedir a mão para iniciar o baile.
Se alguma moça ficava sem par, pegava noutra e fazia com ela perna de dança, até aparecerem dois moços a interrompê-las, para mais dois pares engrossarem a roda.
Eram escassas as horas, para o convívio alegre.
Os casados de fresco não dispensavam a sua exibição.
Só em dias de grande gala aparecia um tocador de concertina, contratado pelos moços mais briosos do Salvador. Além do passeio domingueiro até ao Alto da Serra, era o único divertimento da mocidade, só interrompido na Quaresma e no Advento, por respeito às épocas litúrgicas penitenciais.
Este dancing tinha óptimo ar, não precisando de aparelhos e de boa iluminação.
Os mais idosos transportavam uma cadeirinha ou um tropeço, para ali passarem a tarde e garantirem o ambiente de respeito. O horário ia até ao toque das Trindades, hora sagrada para o regresso ao lar.
Assim se passavam, com grande animação e sã alegria,. as tardes domingueiras.

Pe. Henrique

sexta-feira, maio 30, 2008

Colaboração dos leitores


Alguns leitores têm manifestado apreço por este nosso trabalho, oferecendo, inclusive, colaborarem com textos e fotografias.
Muito agradecemos o interesse. Quanto à colaboração, ela é desejada e foi pedida desde o início.
Os textos, identificados, e as fotos, com legendas e se possível datadas, poderão ser-nos enviados por mail para:

quarta-feira, maio 14, 2008

Fartura de crianças em Salvador!

Esta fotografia regista um extenso grupo de meninas e meninos salvadorenses, posando frente à porta principal da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, matriz da nossa terra. Acabaram, alegremente, de fazer a «comunhão solene» e estava-se no ano de 1971, mais precisamente no dia de Santo António.
Tinham entre sete e dez anos de idade, pelo que «eram as mulheres e os homens de amanhã»! Apresentam-se diversamente vestidos, uns melhor e outros mais modestamente, mas nada de roupas de marca ou de ténis caros; não se lhes vêem os relógios no pulso, os telemóveis ou os head phones nos ouvidos! Estão aconchegadinhos uns aos outros, saudavelmente sorridentes e felizes; nada de PSP’s, de Nintendos, ou de outros jogos electrónicos que lhes roubem a concentração e os subtraiam à vida que os rodeia!
Estas crianças da fotografia têm hoje os seus próprios filhos. A grande maioria teve, porém, de emigrar para outras terras, e agora já não há fartura de crianças em Salvador.
Os tempos eram outros, dir-se-á.
De facto eram, mas serão os de agora melhores?

quarta-feira, abril 23, 2008

Há vinte anos partiste!


NOTA: A imagem de fundo «roubei-a» algures na Internet. Peço desculpa – e agradeço – ao autor do feliz instantêneo.

sexta-feira, abril 04, 2008

O Chafariz da Sacristia

Cada fotografia reproduz um momento único da vida das pessoas visadas.
Pode ter passado muito tempo; pode o papel ter amarelecido com os anos; pode a própria imagem ir desvanecendo, mas o momento ali continua: ali permanece a pujança e a juventude; a expressão e o gesto; o semblante e a figura, o sorriso e a simpatia...
No caso presente, o enquadramento parece ser o Chafariz da Sacristia, no seu lugar primitivo (foi recentemente afastado uns metros devido à construção da Casa Mortuária). Ali foi tirado o retrato que, à força de o mirarmos, se torna familiar e convida a nossa memória a mergulhar no tempo, tentando identificar as personagens.
Só senhoras e meninas, ao que parece. Mesmo as senhoras, algumas delas – se me não engano – foram sempre tratadas por «meninas».
De facto, creio reconhecer as senhoras: Menina Maria «do Sr. João da Cruz», Menina Rita Berenguilho, Lurdes Leitão e Alda «Frederico». Não consigo identificar mais nenhuma, apesar de julgar que a mais pequerrucha parece ser a «Alicinha» França. Deixo o resto para os leitores do Salvador Barquinha d’Oiro.
O chafariz ostenta a data de 1951 e a fotografia deve ser de alguns (poucos) anos depois.
Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro.

segunda-feira, março 24, 2008

Missa nova no Salvador

Por que motivo tanta gente frente à casa de Maria Antónia Tavares e João da Cruz Monteiro?
Era catorze de Abril de 1953 e houve Missa Nova na terra, celebrada pelo filho do referido casal, facto ímpar na história do Salvador.

De facto, o padre Henrique da Cruz Monteiro foi o primeiro – e até agora único – sacerdote ordenado na nossa terra (à época, a tradição religiosa era muito marcante e outros jovens salvadorenses frequentaram os Seminários, mas mais nenhum teve sucesso).
O notável acontecimento foi festejado com toda a solenidade pela instituição religiosa, e os pais do novo clérigo fizeram também jus à sua felicidade, proporcionando uma lauta refeição a muitos convidados, incluindo pessoas das mais humildes do povo de Salvador.

À porta da igreja – na outra imagem – vêem-se, além do jovem padre, outros sacerdotes concelebrantes, nomeadamente o padre António Robalo Ramos (à frente), pároco de Salvador. Identificamos, ainda, o pai e o irmão (Chico) do padre Henrique. Ao lado deste, o professor José Vicente Lopes, mestre saudoso de muitas gerações de conterrâneos.

Fotos cedidas pelo padre Henrique da Cruz Monteiro.

sexta-feira, março 14, 2008

Na Rua da Cinza

Olá, eu sou o Albertino, tenho onze anos e estou aqui penteadinho, de risco ao lado, nesta foto tirada em 1949, na Rua da Cinza, à frente das casas dos dois irmãos – meu tio e meu pai – António Calamote, pedreiro, e José Calamote (Zé Violas), sapateiro. É uma daquelas fotos que o meu irmão Henrique tirava quando vinha de férias, no Verão. Já vou dizer quem são os outros:
À minha direita está o meu pai; a minha mãe, Maria Lucinda, está lá atrás, de blusa escura às pintas, ao lado do meu tio António. Ao colo do meu pai está o meu sobrinho Zé Henrique, com comichão no nariz.

O casal que tem os bebés ao colo são os meus primos António Calamote e Maria Pereira, recentemente prendados com as bonitas gémeas Maria de Fátima e Maria do Carmo.
As senhoras da frente são a minha cunhada Palmira, a minha prima Carolina e uma vizinha, creio que chamada Otília Pereira.
Atrás da Otília vê-se a porta da oficina de sapateiro de meu pai, que era também o encarregado do correio. O local era, assim, bem conhecido dos salvadorenses.
A oficina era um cubículo, pelo que a leitura dos destinatários das cartas que chegavam era geralmente feita a partir daquela porta, para uma «plateia» que esperava ansiosa.
Por essa altura já eu conhecia (vinha no meu livro da 4.ª classe) o célebre episódio de Mestre Bento Pertunhas, na Morgadinha dos Canaviais, e tive oportunidade de verificar, com os meus próprios olhos, a diversidade de semblantes em presença, durante cada um dos rituais diários da leitura do correio.

segunda-feira, março 10, 2008

«Instantâneo feliz»

Coincidência ou «instantâneo feliz» é o que se chamará ao facto de estarem praticamente sobrepostas a imagem e a cruz, nesta foto da procissão em honra de Nossa Senhora de Fátima, que vai em direcção à capelinha, em 13 de Maio de 1956 – um lindo dia primaveril.
É apenas um pormenor, de entre outros, tais como a «rica» ornamentação do andor; a alva vestimenta dos mordomos; o luto carregado das idosas; os lenços de cabeça ou a compostura das crianças pela mão das mães...
Mas há mais, muito mais! Há a maravilha da fotografia!
Com efeito, este «instantâneo» parou o tempo naquela ensolarada manhã e naquele exacto ponto da estrada de Salvador. A procissão está parada, mas tem vida.
Dir-se-ia tratar-se de pausa para reflectir...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Passeio de Domingo


Grupo de jovens salvadorenses aproveita uma amena tarde de domingo, gozando um agradável passeio pela estrada fora.

(Foto de cerca de 1960, cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes)

Santa Sofia há cinquenta anos


Estamos no dia 7 de Setembro de 1958, dia da festa de Santa Sofia. Findo o sermão, na capelinha da Santa, a procissão dirige-se agora à igreja matriz.

(Foto cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Guarda Fiscal e Salvador


Na época em que o contrabando entre Portugal e Espanha estava na ordem do dia, todos os lugares raianos, como a nossa terra, foram importantes na vigilância de fronteiras, na protecção fiscal e económica do Estado.
Esse trabalho pertencia à Guarda Fiscal que, durante a maior parte da sua existência secular, manteve um posto em Salvador, com uma guarnição variável, mas raramente excedendo a dezena de efectivos. Tratava-se de pessoas de outras naturalidades, dada a proibição de poderem exercer a profissão na sua própria terra, certamente por motivos de independência de acção.
Não cabe aqui abordar a sua actividade, nem a dos seus naturais «adversários» – os contrabandistas. O nosso objectivo é salientar o facto de que alguns desses homens, ao aqui residirem com as suas famílias durante vários anos e até décadas, tomaram o Salvador como a sua terra, e salvadorenses nasceram os seus descendentes.
Em 1956 era esta a composição do Posto de Salvador:
António Vaz Leitão
Domingos Lopes
José Afonso
José Dias Ramos
José Gomes
José Gonçalves Milheiro Duarte
José Toscano da Costa
Júlio Arrojado
Manuel Augusto Pires dos Santos
Sebastião Oliveira Cunha
Zeferino Miguel (Comandante do Posto)

Na foto, de cerca de 1950, o guarda-fiscal José Afonso faz o seu retrato de família. Natural de Proença-a-Velha, tal como a mulher, Adélia dos Santos, passaram no Salvador meio século de vida, e aqui jazem no cemitério local.

domingo, fevereiro 17, 2008

Conceito de Defesa da Pátria


Está ainda muito presente, entre os portugueses, a lembrança do conflito hoje chamado de Guerra Colonial, que durante treze longos anos, mobilizou a quase totalidade dos mancebos daquele tempo.
A mobilização era, aliás, genericamente encarada como fatalidade devida à obediência a valores que vinham sendo assimilados e se instalaram pacificamente na grande maioria da população.
Veio a revolução de 25 de Abril de 1974 e trouxe consigo, além do fim da guerra, o germe de uma consciencialização totalmente diferente, no que se refere à eventual justeza da nossa participação no conflito. O dever, antes configurado pelo conceito de defesa da Pátria, é, pelos novos ventos, distorcido, condenado, e coberto com o manto da ilegitimidade.
O sacrifício dos que intervieram na guerra ultramarina adquiriu, assim, nas consciências ideologizadas pela «revolução dos cravos», um significado pejorativo, destinado a ostracizar toda aquela geração de portugueses.
Porque o «novo» conceito de dever assume extensão diferente e os destinos dos nossos jovens são outros – ex-Jugoslávia, Bósnia, Kosovo, Afeganistão, etc., etc. – esperemos que o futuro os não condene também, nem minimize o seu sacrifício.
A foto acima é de 4 de Julho de 1961. O cenário é o caminho marítimo sulcado pelo navio «Niassa», com mais um contingente de tropas, que inclui alguns salvadorenses.

sábado, fevereiro 02, 2008

No tempo do Vieiro


Na primeira metade do século XX assistiu-se a um incremento da actividade mineira, como riqueza a aproveitar para atenuar as graves carências da economia nacional. Passado o efeito dos grandes conflitos mundiais, a procura baixou, os preços cairam e as minas paralisaram.
Salvador, com as suas minas, teve também a sua época. Ainda nos lembramos do grande movimento de camionetas que, pelos anos quarenta, vinham recolher o minério extraído pelos muitos trabalhadores das minas da Lameira, que o povo baptizou de vieiro, que significa «veio de metal ou de outra qualquer substância numa mina».
Das várias galerias retiravam toneladas de terra, donde era separado o minério de ferro e manganês, que eram a base da produção. O entulho restante e alguns desperdícios minerais não comercializáveis formavam, depois, montes enormes por todo o recinto das minas.
A foto é de 1955 e nesta altura a exploração já tinha parado. Do bulício doutros tempos ficou apenas, durante alguns anos, um antigo encarregado, que tomava conta das estruturas, aliás transformadas em polo de atracção e visita quase obrigatória dos salvadorenses que vinham a férias.
É o caso do Ti Violas (José Calamote), que as foi mostrar aos filhos e neto, tendo honras de visita guiada pelo dito encarregado e seu particular amigo, Sr. Severino Rodrigues Reboredo e sua mulher, D. Teresa, que ladeiam na fotografia.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Salvadorenses: encontro em Angola


A emigração em geral e as permanentes mobilizações militares, ocasionaram sempre saudáveis e alegres encontros, entre salvadorenses, por todo o mundo, em locais dos mais frequentados e cosmopolitas até aos mais ignotos e longínquos.
Esta foto é de 1970 e foi tirada em Angola, na paradisíaca ilha do Mussulo.
Como salvadorense residente em Angola, está o Sr. Américo Raposo (em pé, de óculos), com a esposa e as duas filhas. O grupo dos restantes inclui salvadorenses por nascimento, salvadorenses por afinidade e salvadorenses por amizade.
Nos primeiros está este vosso amigo com a mulher e os dois filhos, e a Maria Adelaide Lopes; nos segundos vemos o Adérito, marido da Maria Adelaide, e seu cunhado Narciso Afonso com a esposa e o filho; finalmente, os terceiros são os nossos amigos Zé Catana com a esposa e filha, e o Cleto Lopes, também com sua esposa e filha.
Escusado será dizer que foi um dia soberbo. Escusado será, também, salientar como a distância avolumava as saudades da nossa terra.
Do mesmo modo como o tempo avoluma, agora, as saudades daqueles que já só estão na memória desta fotografia.

sábado, janeiro 26, 2008

Largo Maria Clara da Silva Robalo


No post anterior demos uma mirada para lá da esquina da nossa igreja, e, como quem espreita o passado, vislumbrámos um pouco do que existia no espaço agora com a referência toponímica de Largo Maria Clara da Silva Robalo. Pois as duas fotos que hoje publicamos, de uma procissão de velas, permitem uma apreensão mais completa de como era o local.
Nas duas imagens, que se completam, vemos que o cortejo acaba de contornar a igreja, passa rente à sacristia e vira à direita, dirigindo-se ao «fundo da estrada».
Não sabemos datas das fotos, mas supomos serem dos anos 40, a julgar pela vestimenta de algumas senhoras. E a igreja ainda não fora caiada.
As casas de alvenaria que se vêem já não existem. O acesso ao adro da igreja (e aos comércios ali existentes) ficou impraticável desde o advento das camionetas de mercadorias, e houve que alargar as ruas adjacentes. Mais recentemente, a construção da Casa Mortuária alteraria o resto, nomeadamente os arruamentos à volta da igreja.
Com a demolição da casa do beirado, desapareceu o célebre balcão florido da «Menina Rita», uma simpática e não menos célebre personagem do Salvador de antigamente
.

Fotos cedidas por José Manuel Borrego Ribeiro.

sábado, janeiro 19, 2008

Anos sessenta


Esta bela imagem, tirada à porta da Igreja Matriz de Salvador, no início da década de sessenta é um manancial de informação sobre a nossa terra. Como é evidente, o que de imediato nos salta à vista é o simpático grupo de jovens, rodeando uma encantadora noiva. Todas elas estão vestidas a preceito para o casamento, mas a igreja está fechada. Como a noiva morava ali mesmo ao lado, afigura-se-nos que ela quis posterizar-se ali, com o seu grupo de amigas, antes da cerimónia, provavelmente no que seria o seu último acto de solteira. Dispenso-me de as identificar, porque não quero tirar esse prazer aos salvadorenses que nos seguem.
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Naquele tempo a igreja ainda era caiada, e os degraus da porta principal eram outros.
Encostado à parede, nota-se um monte de areia. Obras? Remendos no piso de pedra solta do adro?
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A mulher idosa que espreita o ranchinho traja saia de lã preta, com pregas na cintura, comprida, um pouco acima do artelho; blusa de chita estampada; lenço preto traçado na face por baixo dos maxilares e apertado atrás; meia preta e sapato preto. Pelo trajo dir-se-ia ser domingo ou dia santo de guarda ou, então, a mulher iria «acompanhar a noiva ao altar», como era uso quando as famílias eram mais próximas.
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Finalmente, e não menos importante, a fotografia mostra-nos ainda, para lá da esquina da igreja, um pouco do que era o actual Largo Maria Clara da Silva Robalo. A casa que se vislumbra era, se bem nos lembramos, da família de José Ferreira, pessoa que conhecemos já com bastante idade e um pouco afectada da mente: vivia com a mãe, mas adorava jogar as damas na oficina do sapateiro José Calamote (Zé Violas), onde passava muito do seu tempo. Esta casa (no lugar dela está hoje a casa dos herdeiros de António Amaral) tinha um balcão muito alto. Nesse balcão e no da casa de José Cigano «Barrigudo» (que ficava defronte, onde é hoje a casa de Rui Candeias) – miradouros privilegiados – tomavam lugar as pessoas da terra para verem passar os entrudos, ou assistirem a outros quaisquer acontecimentos ou divertimentos que por ali passassem.

terça-feira, janeiro 08, 2008

A primeira comunhão


Era bastante elevada a religiosidade dos salvadorenses no dealbar dos anos setenta do século que passou. A escola primária era ainda frequentada por grande quantidade de crianças de ambos os sexos. A Escola e a Igreja tinham ainda uma ligação muito forte nas aldeias. O Padre e o Professor eram as personalidades de mais alto relevo e mais respeitadas entre a população, que via nelas a essência da cultura e da educação que pretendia para os seus filhos.
Quando chegava a idade para fazer a primeira comunhão, as mães, mesmo as mais humildes, tentavam arranjar uma roupinha nova e uns sapatinhos em bom estado para o grande acontecimento – que o era, de facto, e não só para os pequenos, mas para os pais, para os professores, para as catequistas e para o próprio pároco.
Era um dia de grande felicidade: um marco na vida duma criança, só comparável a outros tantos marcos que a vida lhe haveria de trazer futuramente: o exame da quarta, o primeiro namorico, a tropa, o curso, o casamento...
A fotografia (frente e verso) representa o dia da comunhão dos meninos e meninas das escolas de Salvador, no dia de Santo António do ano de 1971. Tem dedicatória pelo punho da professora D. Maria Adelaide (a meio da última fila), senhora de grande religiosidade e, então, a mais antiga entre os docentes da terra, desde o falecimento de seu marido, o saudoso professor José Vicente Lopes, em 22 de Agosto de 1969.

sábado, dezembro 29, 2007

Pé descalço

Olhando com alguma atenção para esta curiosa fotografia, tirada na nossa terra em 1945, que vemos nós?
Sete crianças, cujas idades parecem andar entre os quatro e os dez anos, «olham o passarinho», felizes e encantadas da vida. O enquadramento é do mais pobre e primitivo: o fundo é um vulgar carrasqueiro encostado a um tosco muro de alvenaria; o piso, esbarrocado, é de terra solta e pedra de vários tamanhos à mistura. Não obstante, apenas uma das crianças está calçada.
Pé descalço nas crianças era coisa normal, em Salvador, quando esta fotografia foi feita. Mesmo os adultos era muito raro possuírem mais do que um par de calçado. Sobretudo nas mulheres, acontecia, mesmo, andarem descalças em casa ou no campo, e trazerem consigo os sapatos, para os calçarem quando entravam no povo ou quando iam à missa.
O calçado era algo que se não colhia na horta e era necessário dinheiro para o adquirir. Muitos lavradores tinham casas abastadas de produtos da terra, mas não possuíam dinheiro, que era mais fácil existir em quem tivesse um ordenado, por baixo que fosse.
Retrato paradoxal da vida daqueles tempos, em que até a subsistência era uma ambição, mas o bem-estar e a felicidade eram bem mais fáceis de atingir; em que as desigualdades existiam, mas em que as diferenças andavam bem mais próximas do que agora.
Retrato paradoxal dos tempos em que se cantava e bailava por tudo e por nada, no início, durante e no fim dos trabalhos.

(A foto foi-nos cedida pelo Prof. Libério Candeias Lopes – o único calçado na imagem, sem dúvida pela simples razão de ser «filho de guarda»: o guarda-fiscal Domingos Lopes).