quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Casamentos por procuração


Dantes, os namoros eram bastante prolongados, durando, por vezes, vários anos, não apenas para que os noivos se conhecessem o suficiente, mas, o que não era menos de considerar, para reunirem as condições económicas mínimas para darem esse importante passo. O compromisso aumentava também com a passagem do tempo, não apenas nos dois namorados, mas entre os familiares ou, até, no círculo social exterior.
Os anos sessenta trouxeram, aos Portugueses, as mobilizações militares em massa, para acudir à sublevação que se registara nas possessões ultramarinas, pelo que muitos casamentos aprazados para breve, foram brutalmente adiados, em virtude de os rapazes serem mandados para África, por um período de tempo nunca inferior a dois anos.
O casamento por procuração foi uma modalidade comum em épocas de conflito, que implicavam o afastamento prolongado dos nubentes e os impediam de contrair matrimónio nas datas que mais lhes aprouvessem. A solução seria arranjar um familiar ou um amigo, a quem dotar de capacidade jurídica para representar, na cerimónia, o nubente ausente, e por ele pronunciar o necessário «sim». Embora continuando um para cada lado, cumpria-se, assim, o compromisso de anos, e resolviam-se alguns dos problemas ocasionados pelo adiamento forçado.
A foto refere-se ao casamento, em 31 de Dezembro de 1961, da Maria Augusta e do Albertino, este representado, por procuração, pelo seu irmão Henrique.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Clube Recreativo e Beneficente de Salvador (CRBS)

Fundado em Junho de 1979, deu início às suas actividades a 20 de Junho desse mesmo ano, em edifício alugado para o efeito. Começando no âmbito recreativo e cultural, continuou, posteriormente, no desporto, nomeadamente, com o futebol e com o atletismo.
Embora os seus atletas não chegassem a estar federados, eles obtiveram bastantes sucessos, quer no futebol, quer no atletismo, tanto em torneios concelhios como inter-concelhos, tornando-se uma das equipas mais respeitadas.
Dos seus órgãos directivos destacam-se dois nomes: José Joaquim Landeiro, Presidente da Direcção e Manuel Justino Martins Caiado, sócio-fundador n.º 1 e Presidente da Mesa da Assembleia-Geral, que tudo fizeram no sentido de engrandecer este clube, para orgulho dos cerca de 500 sócios e dos salvadorenses em geral.
Infelizmente, o sucesso do CRBS foi efémero, porque os órgãos directivos que se seguiram pouco ou nada fizeram para o manter e desenvolver.
O Clube foi criado através de escritura pública na Conservatória de Penamacor, e o respectivo Estatuto foi publicado no Diário da República, III Série, n.º 180, de 6-8-1979.
Segundo os últimos dirigentes em funções, o CRBS já não existe. O que não querem, certamente, é honrar as suas responsabilidades, visto que o Clube, como associação legalmente criada, continua a existir, apesar da sua inactividade e do seu estado comatoso.
Atente-se, por exemplo, no teor do art.º 37.º do Estatuto, que diz: «O Clube poderá dissolver-se quando, em assembleia geral, convocada expressamente para esse fim, com a comparência de pelo menos três quartos dos seus sócios efectivos e votada favorável por quatro quintos dos presentes, se reconheça que, por falta de fundos, é impossível manter-se».
Por sua vez, o art.º 38.º preceitua: «Se for deliberada a dissolução, a assembleia geral nomeará uma comissão liquidatária, composta por três sócios e com a fiscalização directa de autoridade designada pelo Governo se encarregará da venda de móveis e imóveis, procedendo à liquidação do activo e passivo. O saldo entre activo e passivo será doado à Junta de Freguesia local, a fim de ser doado e distribuído pelas pessoas mais necessitadas desta localidade, podendo também ser doado a instituições de beneficência, se a assembleia geral optar por esse fim».
Da última acta registada - a Acta n.º 58, de 16-1-1986 -, nada consta sobre a matéria, pelo que é evidente o não cumprimento dos dois artigos do Estatuto, atrás transcritos.
Sendo assim, parece legítimo admitir que os últimos dirigentes em funções, que reuniram, pela última vez, naquela data, lavrando a acta correspondente, serão os responsáveis por todo o património que o Clube possuía, por ele respondendo perante todos os sócios, ou, eventualmente, também perante as entidades oficiais.


Texto e imagem cedidos pelo sócio n.º 1 do CRBS, Manuel Justino Martins Caiado

sábado, fevereiro 07, 2009

A escola nos anos setenta


Eram bem diferentes de agora as coisas na escola, nos idos anos setenta! Começava por os professores serem, para nós, como uns segundos pais. Tínhamos para com eles um respeito e uma obediência idênticos, se não superiores aos que devíamos aos nossos progenitores. Não era nada imposto: era assim mesmo, natural e assumido sem qualquer esforço, tanto por nós próprios como pelos nossos ascendentes.
O ensino, também ele era melhor: preparava para a vida. E era preciso estudar bastante: a tabuada e as contas, os rios e os reis, a fauna e a flora, as estradas de ferro e as outras, os descobridores e as descobertas... E por aí fora.
Não havia a panóplia enorme de livros e outros auxiliares, audiovisuais e electrónicos, que hoje enchem a mochila dos pobres alunos. A nossa sacola, de pano de riscado ou de ganga, era levíssima, e não impedia que corrêssemos e saltássemos, alegremente, com ela a tiracolo, no caminho da escola – caminho esse que percorríamos a pé, à chuva e ao sol, na brincadeira e sem que fosse preciso os nossos papás irem buscar-nos ou levar-nos.
Bons tempos aqueles. Cada dia que passa, mais sinto isso.

A foto, de 1971, foi cedida pelo Libério Candeias Lopes.

terça-feira, janeiro 27, 2009

A «Mestra» e as «Aprendizas»


Os nossos avós pouca mais roupa possuíam do que a que andava no corpo e a de ir à missa. Até nas pessoas consideradas remediadas o vestuário era praticamente reduzido a duas mudas: a das festas, dos casamentos e dos enterros – incluindo o do próprio, porque para a mortalha era sempre guardada a roupa melhor que se tinha; e «a de trazer», ou «de cote», frequentemente consertada e remendada, acontecendo muitas vezes uma peça ter tantos remendos, e de tecidos tão diferentes, que se tornava difícil distinguir o pano primitivo.
Os consertos eram feitos em casa, pelas mães; o novo era confeccionado pelo alfaiate e pela costureira: esta só fazia roupa de mulher, aquele, apenas a de homem. Ainda não havia pronto-a-vestir!
Numa altura em que o estudo só estava ao alcance de muito poucos e, ainda por cima, se considerava mal empregado em mulheres, para as quais se tinha por suficiente saberem das lides do lar, da criação dos filhos e do bem-estar da família. Certas competências, exclusivamente femininas, complementavam a formação da mulher, tornando-a mais capaz e «mais prendada».
O ofício de costureira gozava de certo estatuto em terras como a nossa, visto ser um trabalho digno, limpo e debaixo de telha, bastante melhor do que o do campo, e que estava na via correcta dos padrões vigentes para uma boa educação feminina.
A foto que incluímos é de 1961. Reúne uma mestra com as suas aprendizas. Creio que nenhuma delas veio a fazer uso da costura como ofício ou profissão, mas garanto que o tempo que passaram juntas foi muitas vezes ternamente recordado ao longo destas quase cinco décadas.

domingo, janeiro 18, 2009

O Amadeu e a Fatinha


Não chega a duas léguas de serra e pinhal a separar as povoações de Salvador e de Penha Garcia. Aliás, nos anos sessenta – data presumível desta foto –, o caminho era feito pelo sopé da Serra do Ramiro ou Ramilo (vulgarmente chamada de Serra do Salvador ou Serra de Penha Garcia). Entrava-se ali pelo caminho da Seixeira, seguia-se pelo Ribeiro do Souto, a passar junto do Pomar, Fonte de Carvalho, e era sempre em frente. Creio que nesse tempo ainda lá existia o barbeiro/dentista que iniciou a «limpeza» da minha dentição, extraindo-me os primeiros molares... a sangue frio!
O Amadeu e a Fatinha, que aqui acabaram de unir duas das famílias mais honradas destas localidades, já não pertencem ao número dos vivos. Foram retirados, inesperadamente, ainda bastante jovens, ao convívio dos seus familiares e amigos.
Ficou o desgosto e a saudade... mais o fugaz lenitivo que imagens maravilhosas, como esta, nos podem proporcionar.

Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro

domingo, dezembro 28, 2008

Tropas expedicionárias a Cabo Verde


Este militar, todo vaidoso na sua farda de 1.º cabo radiotelegrafista, é o Henrique Calamote da Silva, filho mais velho do Ti Zé Violas, de que já falámos algumas vezes. A foto foi tirada na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, no dia 15 de Março de 1942. Decorria, então, a segunda guerra mundial e, apesar de estar de fora do conflito, Portugal entendeu guarnecer, preventivamente, aqueles territórios ultramarinos com algumas forças militares.
Dos nossos cinco anos, recordamos bem as Mensagens de Natal que estes militares mandavam através da rádio, «nova tecnologia» que então despontava nos pequenos centros. Em Salvador havia (creio não errar) apenas uma telefonia em 1942. Tratava-se de um belo exemplar de aparelho, a válvulas, que pertencia ao Sr. João da Cruz Monteiro, que, nas alturas próprias, facultava a sua sala para que se ouvissem as mensagens dos soldados, que os familiares recebiam de olhos simultaneamente arregalados e chorosos:
Beijos e abraços até ao meu regresso...

Ao meu querido mano Henrique, o meu abraço e os meus votos de mais um bom ano novo. Albertino Calamote.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

O Madeiro de Natal


Os adros das aldeias e vilas da Beira-Baixa preparam-se, nesta altura do ano, para acolher o tradicional Madeiro de Natal.
O Salvador de outros tempos fez sempre questão de cumprir este ancestral costume, e, quando os rapazes entrados à tropa se atrasavam, logo os homens casados se punham em campo, arregaçavam as mangas, e o madeiro aparecia.
Lembramos aqui um Natal passado em África, no serviço militar, em que jovens salvadorenses, beirões, e não só, procuraram recriar a tradição das suas terras, pondo-se a caminho da mata africana, à cata de troncos secos, que carregaram num camião e depositaram na parada do quartel, num monte enorme, que deu fogueira acesa durante a quadra festiva.
A imagem mostra os pormenores, descritos e publicados, primeiro no Sentinela das Beiras, o jornaleco da Unidade, carinhosamente dactilografado e reproduzido a stencil, e, trinta e tal anos mais tarde, no Jornal do Exército (n.º 432, de Dez95, pp. 34-35).
Poderemos avaliar o «sabor» daquela fogueira, se pensarmos na comunicação que era possível nos anos sessenta: sem telemóvel, sem internet, o veloz correio aéreo levava-nos as notícias da família reportadas à semana (ou à quinzena) anterior.
Tínhamos, enfim, dois anos (pelo menos), para aprender a viver com as saudades em diferido!
– Aos que, apesar de apoiarem as actuais missões de militares portugueses no estrangeiro, olham os antigos combatentes de soslaio – que muitos há ainda – desejamos um quente Madeiro de Natal, o mesmo que a todos os nossos amigos!

sábado, dezembro 06, 2008

8 de Dezembro – Dia da Mãe


Este blogue é do Salvador de outros tempos. Do tempo, por exemplo, em que o dia 8 de Dezembro era dia santo de guarda, consagrado à mãe de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, e, simultaneamente, a todas as nossas. Era o Dia da Mãe.
Há uns anos a esta parte muitas coisas mudaram, e a moderna mentalidade consumista transferiu o Dia da Mãe para o primeiro domingo de Maio, a fim de alinhar com a globalização… ou para melhor funcionar o comércio das bugigangas, que caracteriza estes dias festivos!
O Dia da Mãe não é o mesmo, mas as mães também mudaram. Continuam a dar à luz, é certo, mas tudo o resto está mais facilitado, dir-se-ia mais standardizado, nos dia de hoje.
Há o planeamento familiar e a assistência na gravidez; há as maternidades e as cesarianas; há as fraldas descartáveis e os carrinhos de bebé; há as roupinhas para 3 meses, para seis, para 1 ano, para 2…; há os infantários e as pré-primárias; há os leites em pó e as papinhas em frascos; há as aulas de piano e de violino; há a natação e o karaté; há a televisão, os computadores e a play station; há a internet, o telemóvel, o MP3, o Ipod, o Messenger, o Hi5, o cinema, os centros comerciais, as trotinetas, as motos e os carros, as discotecas, os shots, etc, etc.
Ah, mas as mães de hoje trabalham; as de outros tempos estavam em casa!
Parecerá um lugar-comum, mas dantes a coisa era outra, bem mais natural, bem mais pura, bem mais humana. Elas, as mães doutro tempo, aturavam-nos dia e noite, todos os dias e todas as noites; faziam a nossa comida com os alimentos da horta ou da mercearia davam-nos o leite do seu peito, ou, se este secava, o de cabra ou o de vaca; faziam as nossas fraldas de pano, sempre lavadas e sempre reutilizadas; faziam a nossa roupinha toda, a nossa bata da escola ou a nossa saca dos livros; faziam as nossas meias de algodão com as cinco agulhas que giravam nas suas mãos de fada, ou tricotavam as nossas camisolas de lã, grossa e quentinha; faziam as nossas mantas a partir de tiras de trapos ou de ourelos; baixavam ou subiam as bainhas das nossas roupas; remendavam-nas ou aplicavam-lhes umas joelheiras ou umas cuadas novas; viravam do avesso um casaquinho do filho mais velho, e ajeitavam-no, para ser usado e rompido pelos irmãos mais novos...
Pois é, as mães de antigamente não trabalhavam!
Salvé dia 8 de Dezembro, dia da mãe de Jesus, dia da minha mãe, Dia da Mãe!

Imagem de título: 8 de Dezembro - Dia da Mãe [Visual gráfico. - [S.l. : s.n., D.L. 1955]. - 1 imagem : color. ; 12x10 cm http://purl.pt/12503. Lisboa, Biblioteca Nacional Digital.
Imagem da senhora a fazer meia: com a devida vénia, reproduzida de http://tricotadeira.wordpress.com/2008/01/12/

terça-feira, dezembro 02, 2008

Quem são os dois meninos?


Quem são os dois meninos tão atiladinhos, de camisolinha branca, de jaquetinha e calções, de sapatinho e meia alta, que vão chegando ao «fundo da estrada», bem pelo centro da mesma, e todos compenetrados?
A avaliar pela suas sombras, diríamos que se estava no princípio de uma manhã radiosa de sol, e que, à sua esquerda, ainda não havia quaisquer edificações. A vestimenta sugere-nos que são meninos de cidade, possivelmente em férias. Transportam qualquer coisa na mão direita. Terão recebido uma prenda? Vão à missa ou à catequese?
Também não sabemos a data da cena: terá cerca de meio século. Quer a galinha, quer os petizes, não parecem preocupados com os automóveis na estrada... A paisagem de fundo alterou-se entretanto: o aterro e o muro fronteiros à casa deram lugar, há já bastantes anos, a uma fiada de novas moradias, à frente das quais haveria de passar a «estrada nova», para Monsanto.
Em conclusão: não sabemos a idade exacta da foto, nem conhecemos os jovens – agora, sem dúvida, respeitáveis anciãos – que lhe conferem humanidade. Porém, temos a certeza, isso sim, de estarmos perante mais um momento singular da vida de Salvador, e de um documento onde pode ser «lido» mais um importante capítulo da história da nossa terra.
Esclarecimento posterior:
O «menino» mais pequeno, então com 6 e agora com 74 anos, é o José Geraldes Pereira de Carvalho. Tinha vindo de Vale de Prazeres, com a família, para se fixarem em Salvador por alguns anos. Os pais tinham um comércio ao Fundo da Estrada (Era o Sr. Aires e a Sr.ª Laura, esta natural da nossa terra, irmã do também comerciante, na Rua da Cinza, José Robalo da Cunha Pereira). Tinham mais 2 filhos: o Aires e a Margarida (?).
O Zeca – assim o conhecemos – esteve pelo Salvador até aos 17 ou 18 anos, estudou, formou-se em Direito e foi para Moçambique, donde voltou só em 1981.
O outro «menino» é o Manuel da Cruz Monteiro, e a foto será de 1940/41.
Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro.
P.S. Agradecemos os comentários do Geraldes de Carvalho. Já visitámos o seu blogue, mas não descortinámos o contacto. Pedimos-lhe que, em novo comentário, nos indique o seu e-mail, ou, se preferir, nos contacte para a.calamote@gmail.com.

terça-feira, novembro 11, 2008

Cena de fim de vindima


Esta é uma bela cena de fim de vindima, em que um friso de lindas mulheres posam para o retrato, exibindo alguns dos cachos de uvas acabados de recolher da vinha.
O quadro não ficaria completo sem a presença masculina. Temos ao centro José Raposo, o «Zezito Raposo», comerciante em Lisboa, mas particular amigo da sua terra, onde se deslocava ao mais pequeno pretexto, como é o caso presente das animadas festas das vindimas. A ladear o grupo, temos dois guardas-fiscais, José Afonso e Alfredo Rodrigues Lopes (de boné), que passaram grande parte das suas vidas em Salvador, com as respectivas famílias, e nesta terra se integraram completamente.
Malfadadamente não sabemos a data deste feliz instantâneo, embora julguemos que possa ser dos anos trinta, ou perto disso.

Foto cedida por Amadeu Afonso

quarta-feira, novembro 05, 2008

Piquenique na Sr.ª de Mércules


Era 1959. Estávamos em Castelo Branco, cumprindo o serviço militar no Batalhão de Caçadores n.º 6. As distâncias não eram como são hoje. Sessenta quilómetros era muito longe.
Nos raros fins-de-semana que íamos casa, à chegada da camioneta da carreira éramos recebidos com lágrimas de alegria, e da mesma forma deixávamos molhados os olhos da nossa mãe, quando, passados dois dias, tínhamos de regressar ao quartel.
Nos outros dias de folga, valiam-nos alguns amigos e conterrâneos que residiam na cidade. Com eles passávamos o tempo e era como se estivéssemos em casa.
Um soldado era alguém que estava a cumprir um dever de honra, pronto para o sacrifício maior, facto que, naquele tempo, merecia a atenção e o carinho das pessoas.
A imagem é de um piquenique no arraial da Senhora de Mércules, em Castelo Branco, que se festeja todos os anos, quinze dias depois da Páscoa.
O «palhinhas» não tem rótulo, o que indica que era da adega. O Manuel Sebastião e a sua Lurdes Leitão (que descascam fruta) levaram o farnel e convidaram os amigos, como era seu timbre. Amigos eram eles, e de eleição, dizemos nós: daqueles que mantemos no nosso coração, quer a Lurdes – que ainda está connosco –, quer o seu «Manel», que bem cedo nos deixou!

quinta-feira, outubro 30, 2008

Blogue no semanário «Reconquinta»


Intervindo num comentário a um dos posts deste blogue, convidara-nos recentemente o sr. José Furtado, jornalista do Reconquista, a trocar umas impressões sobre o salvadorbarquinhad’oiro. Anuímos de bom grado, e eis que, duma breve conversa telefónica que depois tivemos, resultou o excelente trabalho jornalístico que aqui se vê em imagem.
Pondo de parte falsas modéstias ou humildades fingidas, sabemos perfeitamente que o impacte procurado pela iniciativa mediática há-de encontrar-se na promoção regional desta nossa zona, e não em eventual mérito nosso. É este, aliás, o caminho correcto para um órgão de imprensa idóneo e actuante, bem como para um jornalista atento e consciente da sua missão.
Muito obrigado Reconquista.
Muito obrigado jornalista José Furtado.

domingo, outubro 26, 2008

Emigrantes e Imigrantes


Os anos sessenta e setenta caracterizaram-se por uma grande sangria de braços na agricultura, já de si bastante depauperada e incapaz de propiciar sustento suficiente que mantivesse as pessoas agarradas à terra. A procura de melhores condições de vida, foi o motivo para que muitos salvadorenses procurassem trabalho em países estrangeiros, enfrentando a dificuldade das novas línguas e de culturas diferentes, numa aventura no escuro, mas de expectativas elevadas.
Separação dos seus entes queridos, solidão entre uma população desconhecida e saudades da sua terra natal, são marcas na vida de todo o imigrante, que o acompanham a todo o momento. Até que regresse, para sentir o aconchego do lar, procura amenizar a sua angústia, passando os dias de festa, ou de maiores recordações, entre conterrâneos ou companheiros de trabalho mais chegados.
Um pouco à maneira do célebre «fogo sagrado», que unia os Gregos nas cidades-estado e nas colónias que a Antiga Grécia fundou ao longo das costas mediterrânicas, também os nossos emigrantes se organizavam, nos países de acolhimento, quer em associações, quer em meras confraternizações familiares ou de amigos, assim preservando a cultura e os usos e costumes da sua aldeia.
Esta foto fixou um momento das ditas separação, solidão e saudades. Ocorreu em Singen, na Alemanha, no dia 31 de Dezembro de 1983. Brinda-se à passagem do ano, mas o brilho dos olhos é diferente: pode camuflar a solidão, mas denota a separação e não encobre as saudades!

quarta-feira, outubro 22, 2008

O «Antes» e o «Depois»


Esta fotografia é do Antes e do Depois. Acontece no Salvador, no princípio de 1969, e o fotógrafo foi o Durante.
Nesta peregrinação terrena são-nos facultadas algumas graças que nos acarinham e fazem crescer; que nos alegram o coração e humedecem os olhos; que nos suavizam o caminho e nos impedem de desistir. São graças que – vê-lo-emos mais tarde – são para deixar à porta, no fim da caminhada.
Durante, recebemos a vida, o amor e as bênçãos dos nossos pais – o Antes –, e transmitimos a vida, o amor e as bênçãos aos nossos filhos – o Depois.
– Creio que já cumprimos, ... ou quase (falto eu!).

(Na imagem: os avós Maria e José, com os netos Fátima e Zé)

segunda-feira, outubro 13, 2008

A «Casa da D. Lusitana»


Ainda lá está, altaneira e bela, à beira da estrada, do lado esquerdo, assim que da portela se começa a descer para o centro da povoação. Mudou de dono há tempos, mas, para as gerações mais maduras, continua a ser a «Casa da D. Lusitana».
Trata-se de um soberbo edifício, em estilo colonial, dos anos trinta, implantado na encosta da serra, donde domina uma paisagem deslumbrante. Foi mandada construir pelo Sr. José Manuel Lopes de Almeida, que exerceu a sua actividade no Ultramar e era casado com D. Lusitana Pereira, de Salvador, filha do antigo e conhecido comerciante José Robalo da Cunha Pereira.
Estes proprietários deram sempre muito pouco uso à mansão; julgamo-lo, mesmo, apenas restrito a curtos períodos de descanso ou de férias. Deste modo, para ali esteve anos e anos, até que os actuais donos a salvaram duma degradação já iminente.
Autêntico ex-libris de Salvador, a «Casa da D. Lusitana» era vista e admirada por todos os forasteiros que nos visitavam. Até a juventude local se servia da sua imponente escadaria de granito, para ali se sentar, cavaqueando, nos domingos à tarde, ou, como é o caso presente, para sorrir ao fotógrafo com aquela beleza por fundo.
A foto de cima é de 1959; a de baixo, de 1965.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Os noivos, os convidados e os mirones


Nesta altura, ainda o casamento religioso era o grande acontecimento da vida, não apenas dos noivos como das respectivas famílias. A própria terra e as suas gentes viviam estes dias com um entusiasmo e uma ansiedade tais, que era como se o espírito de família se estendesse a toda a população durante os cerimoniais.
A imagem, com os convidados muito acotovelados e juntinhos aos noivos e ao pároco, e todos eles prestes a serem engolidos pela multidão dos mirones, é bem o reflexo desse sentimento generalizado. A foto não o mostra, mas o repicar dos sinos, nesta hora, potenciava sobremaneira o bater de todos os corações.
Foi há cinquenta anos o casamento da Patrocínia e do Artur. Uniu duas famílias das mais conceituadas das nossa terra: a do lavrador José Lopes «Carapito» e a do comerciante João da Cruz Monteiro.
(Foto cedida pelo José Manuel Borrego Ribeiro).

quinta-feira, outubro 02, 2008

«Branca e radiante vai a noiva»


Branca e radiante vai a noiva, assim começa o belo poema da inspirada canção «La Novia», que o chileno Antonio Prieto havia de compor, escassos três anos depois desta fotografia.
A noiva é a Maria Alice Afonso e é ela que ali vai, branca e radiante, na Rua da Igreja (hoje Rua Professor Manuel Vicente Moreira), em direcção à casa dos pais, na Rua da Salgadeira.
Passaram cinquenta anos após esse 1 de Outubro de 1958.
Felizmente, este casamento ainda dura.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Tempo de Vindimas


O Salvador de outros tempos foi terra de muito vinho. E de bom vinho!
Quem se não lembra da alegria esfuziante com que o rancho de vindimadores, homens e mulheres, percorriam as vinhas para a colheita dos dourados e maduros cachos, que, cheias as cestas de verga, despejavam na enorme dorna que aguardava em cima do carro de bois?
Quem se não lembra dos alegres homens e rapazes que, calças arregaçadas para cima do joelho, pisavam, compassada e ritmadamente, até noite dentro e por entre cantares e dichotes brejeiros, os túmidos bagos que enchiam o pio de rude granito beirão?
Quem se não lembra do extraordinário e divertido São Martinho salvadorense, de saudosos foliões como o Ti Zé Violas, o Vidal Félix e tantos outros?
Quem se não lembra, enfim, do tempo em que quase toda a aldeia fazia vinho, de pipa ou de barrico, sendo grande ofensa não aceitar «um copito do meu» a essa gente, de tal modo que, ao fim da ronda dominical, já se trocavam os pés e já fluíam as cantigas à desgarrada?
O quadro supra, apesar da sua faceta humorística, deixa bem vincada a importância do vinho nos tempos passados.

terça-feira, setembro 09, 2008

Maria Pires, ou Maria Sabina


Senhora de uma voz espectacular e de uma boa disposição irradiante, presente em tudo quanto fosse rancho floclórico, grupo de cantares ou festa tradicional em que se apresentasse o Salvador, Maria Pires de seu nome de baptismo, mas de todos conhecida por Maria Sabina, foi bem uma das figuras mais representativas da nossa terra, nas últimas seis ou sete décadas de Novecentos.
Nascida em 1907 e falecida já no novo milénio, Maria Sabina veio de uma humilde família salvadorense - a grande maioria! -, daquelas que têm como principal abundância a honra, o trabalho e uma alegria muito grande de viver e de interagir no meio e na comunidade onde se integram.
Maria Sabina nunca chegou a rica, nem sequer a remediada, nem mesmo à literacia, mas o seu saudável sentido de humor, a sua voz límpida e potente, bem como os característicos adufes, que confeccionava com as suas próprias mãos, foram ingredientes vitais de tantos e tantos momentos de cantigas, religiosas ou populares, quaresmais ou carnavalescas, que marcaram tão profundamente o tempo dos nossos avós.

(Foto cedida por seu filho Miguel Pires Costa - o Miguel Sabino, nosso companheiro de infância).

sábado, agosto 23, 2008

Os balcões de pedra e o «passarinho»


O Salvador da passada década de trinta - muito provavelmente quando esta foto foi feita - tinha imensos balcões de pedra, alguns dos quais já passaram por este blogue.
Para além de serem emblemáticos das pessoas mais abastadas da terra, pela sua altura e pela sua imponência eram palco de momentos importantes: a partir deles se cantavam as alvíssaras, ou se encomendavam as almas, pela calada das noites quaresmais; neles fazia paragem a «música» da festa para o mata-bicho dos músicos; era ainda deles que provinha o brado jocoso e galhofeiro das choradelas de entrudo... e também serviam de palanquim privilegiado para uma bela fotografia, coisa ainda bastante rara naquele tempo e, daí, a atenção e o ar grave com que os retratados espreitavam o «passarinho».
Neste caso, o cenário é o balcão do Ti António Cigano, na Rua da Ferradura, e, pelo que vemos, atraiu a garotada da vizinhança.

Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro.