terça-feira, junho 23, 2009

As meninas «bem»


Este ranchinho que aqui está, encostado à varanda do balcão do Sr. Frederico Costa e da Sr.ª Maria Clara, composto de deliciosas meninas casadoiras e de alguns eventuais pretendentes que espreitam atrás delas, representa a «fina-flor» da juventude da nossa terra, à data da fotografia, que deve ser de 1950, aproximadamente.
As meninas da foto não precisavam de trabalhar no campo. Eram as meninas «bem» do seu tempo e este estatuto advinha-lhes de serem filhas de guardas ou de proprietários. Dizêmo-lo com franqueza e sinceridade. Era assim mesmo.
Naquele tempo raro era o jovem que seguia estudos. O liceu era em Castelo Branco e as posses das pessoas – mesmo das «remediadas» – não comportavam a despesa. O caso feminino era ainda mais excepcional: ainda se acreditava ser suficiente a preparação, mais ou menos cuidada, para o casamento e para a família.
Já são cada vez menos as meninas deste grupo, cuja singela beleza enchia de luz e de jovialidade os luminosos e alegres passeios de domingo do nosso Salvador, naqueles felizes anos cinquenta.
Foto cedida pela Lena Prata Afonso.

segunda-feira, junho 08, 2009

O compadre Catarro


Quando eu nasci, o meu pai já tinha 44 anos feitos. Não tenho ideia de ele ter grandes miminhos ou brincadeiras comigo, o que acho natural, dado que já era um bocado «entradote» quando eu deixei de gatinhar e comecei a correr pela casa.
Lembro-me mais das suas histórias, bem como das de meu tio António, que morava na casa ao lado. E, também, dos agradáveis serões à luz do candeeiro a petróleo, quer em nossa casa, quer quando íamos de visita aos primos Maria de Andrade e José Calamote, que moravam na Rua da Salgadeira.
Aqui, jogava-se ao «burro», e eles deixavam-me jogar desde que comecei a conhecer as cartas, mas aborrecia-me muito a conversa deles, pois nunca mais jogavam: a falar, a falar, a falar! Só gostava de os ouvir quando falavam dos carnavais do Salvador, e dos entrudos e das partidas que o meu pai pregava mais os seus compadres e colegas da folia. Esses compadres eram o João Pereira, o Zé Robalo e o Filipe Catarro. Pelos vistos, eram danados para a brincadeira...
Ora, este homem que está na imagem, todo pipi da tabela, é o compadre Catarro, e a fotografia é de quando esteve na Argentina, nos longínquos anos vinte, se a memória não me atraiçoa.
Esta foto, com outras da época, integrou uma moldura pendurada na sala de meus pais, desde que me conheço até que a casa foi remodelada, depois de falecerem. A sua publicação no Salvador barquinha d’oiro é um tributo à lembrança do compadre Catarro e, também, dos compadres dele!

domingo, maio 31, 2009

1949 – Onde pára esta gente?


Sessenta anos não é pouca coisa!
Onde pára esta gente que, há sessenta anos, estava a sair da igreja do Salvador e ficou neste retrato?
Os anjinhos, conduzidos pelos seminaristas, para onde «voaram» com as suas asas brancas?
E os mortais pecadores que os cercam, tão enlevados mas tão fechados debaixo da escuridão dos habituais lenços e chapéus, onde se encontrarão?
Sessenta anos, tanta vida!
Sessenta anos, um momento!
Um clique de um fotógrafo, antigamente, na minha terra.
Foto, de 25-9-1949, cedida pelo padre Henrique da Cruz Monteiro, na imagem.

quinta-feira, maio 21, 2009

Foi há vinte, há trinta?



Foi há vinte, há trinta? Nem eu sei já quando...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!

Apetece invocar estes belos versos de Guerra Junqueiro quando vemos fotos deliciosas, como esta do casamento da Celeste e do Rui, aqui rodeados do padre António Robalo Ramos, do Henrique Bicho, do Ti José Mendonça (pai do noivo), do Ti Canilho, e de tantos outros amigos, de ar grave e circunspecto como é próprio da importância do momento.
A felicidade não é alegre nem é triste: a felicidade é, simplesmente. E nós somos felizes, por conseguirmos aqui trazer tempos que o foram, realmente, nas nossas vidas.

(Foto cedida por Zeferino Afonso)

quarta-feira, maio 06, 2009

Quem sabe a razão?


A maior festa de Salvador, e também umas das mais afamadas da região, é a que se realiza no primeiro domingo de Setembro de cada ano, em honra de Santa Sofia.
Até aqui tudo bem, mas existe um pormenor que intriga muita gente, incluindo nós próprios, que não temos uma resposta para lhe dar. Trata-se da existência de duas imagens da Santa, uma de estilo reconhecidamente mais antigo – diríamos que de traça medieval – e a outra bastante mais moderna.
O curioso é que ambas tomam parte nos actos religiosos, nomeadamente nos percursos processionais das festas, cada uma com o seu andor engalanado e, pelo menos até há alguns anos, coberto de notas e de outras oferendas.
Talvez que algum dos nossos leitores conheça as razões desta coexistência das duas imagens da nossa veneranda Santa Sofia, e não se importe de as compartilhar.

sexta-feira, abril 24, 2009

Nuveus que cruzam o céu


24-04-2003 – 24-04-2009

quinta-feira, abril 23, 2009

Num dia como o de hoje


23-04-1988 – 23-04-2009

quarta-feira, abril 22, 2009

Que saudades...



A foto e as palavras que se seguem foram enviadas pelo nosso conterrâneo Lino Pinto, de 40 anos, que se considerou transportado aos anos oitenta quando leu o nosso «post» de 16 de Fevereiro, sobre o Clube Recreativo e Beneficiente de Salvador:

«Que saudades dos tempos do nosso clube, dos jogos de futebol; jogávamos por um sumol e uma sandes (quando havia), éramos transportados em carrinhas de caixa aberta, mas sempre todos felizes, porque estávamos a representar a nossa terra. Lembro-me, também, dos saudosos bailes, das noites passadas em convívio, onde se juntava toda a juventude de Salvador e dos arredores. Nessa altura toda a gente visitava o Salvador. Que saudades...

Remeto-lhe uma foto da equipa da época de 1985/86. Na fila de trás, em pé, da esquerda para a direita: O treinador Albano, Tó Churro, Morais, Zé Bicho, Fredy, Tó Leandro, Calita Banana, Quim do Álvaro e Zé Landeiro. Em baixo, da esquerda para a direita: Lino, Zé Moleiro, Jorge Fareira, Jaime (guarda-redes), Vítor Leandro, Paulo Alemão (guarda-redes), Zé Pássaro e Zé Carapito (infelizmente já falecido)».

Salvador Barquinha d’Oiro agradece a colaboração do Lino e aproveita o ensejo para formular um desejo muito sincero, que é o seguinte:

– Que a associação cívica «Amigos de Salvador», que, de momento e em boa hora está emergindo, não deixe que o antigo «Clube Recreativo» permaneça no ostracismo em que tem existido, reabilitando-o ou integrando-o no seu seio, e recuperando, para a nossa terra, todo o seu património e todo o capital de sonho que, como vemos, marcou uma geração de salvadorenses.

domingo, março 29, 2009

Fotografia «a la minute»


A fotografia «a la minute» ainda era uma das grandes curiosidades no nosso tempo de criança.
As pessoas que queriam tirar o retrato encostavam-se muito direitas e quietinhas à parede, que estava protegida com um xaile ou com uma coberta, para o fundo ficar mais bonito. A câmara era uma vulgar caixa de madeira, montada em cima de um tripé. Tinha uma abertura atrás, coberta com um pano negro, e outra, pequenina, à frente. De lado tinha uns painéis para publicitar os retratos. O artista encostava a cabeça à abertura traseira, cobria-a com o pano escuro e, quando via que as pessoas estavam prontas, tirava a cabeça para fora e dizia para os fregueses: –
Olha o passarinho!
E premia uma bolinha de borracha que tinha na mão e estava ligada por um fio à câmara. Depois metia as mãos lá dentro, sempre fazendo escuro com o pano, e tirava de lá uma cartolina impressionada em negativo, que depois colocava em frente da lente, a uma distância de alguns centímetros.
Curiosamente – e isso fazia-nos imensa impressão –, ele punha a cartolina com as pessoas de pernas para o ar...
Após mais um clique na borrachinha, e breves minutos de espera, retirava uma tina com a foto mergulhada num líquido, primeiro branca e começando aos poucos, como por magia, a aparecem os contornos das imagens, até, finalmente, surgir uma bela fotografia que nos deixava de boca aberta.

Na foto acima, tirada em 2 de Novembro de 1936, José Calamote («Violas») tinha 43 anos; a mulher, Maria Lucinda, 39; o seu filho do meio, Aníbal, fazia 15 no dia quinze desse mês.

segunda-feira, março 23, 2009

O «Cimo da Serra»



O «cimo da serra» era/é, no Salvador, o ponto em que a estrada passa a portela do Cabeço do Ferro e começa a descida para a aldeia vizinha de Aranhas.
Dali se desfruta uma vista privilegiada. Para um lado o Salvador, o cabeço de Monsanto e a vasta campina que se desenvolve a perder de vista; para o outro, os cumes da Gardunha, os campos de Penamacor, a Arrochela, as casas das malhadas da fronteira e, mais lá, Espanha adentro, Valverde del Fresno, Heljas e outros «pueblos», até aos contrafortes da Sierra de Gata.
O «cimo da serra» era, noutro tempo, o destino obrigatório dos passeios de domingo dos jovens de ambos os sexos, que se divertiam alegremente, estrada acima e estrada abaixo.
E era no «cimo da serra» que os rapazes mais velhos passavam muitos dos serões de verão: tínhamos ali o nosso «penedo da saudade», no qual nos sentávamos, em amena cavaqueira ou contando anedotas, à luz do luar ou ao lusco-fusco das estrelas, até altas horas da noite.

«Cimo da serra», 1956. Os garotos quiseram ficar na imagem, com estes três rapazes do nosso tempo.

sexta-feira, março 13, 2009

Os queijos da «Ti Mília»


Somos um dos muitos salvadorenses que emigraram para a capital à procura de meio de vida, já que a família não possuía terras que, por um lado, ocupassem os nossos braços e, por outro, bastassem à nossa sobrevivência.
Vivemos mais de meio século afastados da terra natal, salvo as breves visitas anuais, para matar saudades das pessoas e das coisas que, na ausência, povoavam o nosso imaginário: as pessoas eram os familiares, os amigos e os conterrâneos em geral: as coisas eram várias, mas os aromas e os paladares das nossas comidas em primeiro lugar.
Assim, queremos aqui evocar os queridos amigos Emília Vinagre e José Mendonça (infelizmente já falecido), visita obrigatória de cada vez que íamos à terra, e desejamos salientar aquela mesa sempre farta e sempre posta que, nas Naves, no Salvador ou no Carvalhal, acolhia os amigos.
Finalmente, devemos confessar que mantemos intacto, no nosso íntimo, o cheirinho e o gosto da sopa de grão com massa, da morcela e da farinheira, das azeitonas e do queijo da «Ti Mília».
São as suas mãos de fada que, na imagem, apertam a coalhada nos acinchos, extraindo o soro (magnífico!), que escorre sobre a francela e é aparado no alguidar.

Foto (cerca de 1970) cedida pelo Zeferino Afonso

sexta-feira, março 06, 2009

A «Menina» Rita


Filha de boas famílias (o seu apelido encontra-se em documentos muito antigos); mulher pequenina, extremamente viva e activa; espírito jovem, aberto e actuante; grande facilidade de comunicação em todas as situações; tudo isto e o facto de ter casado já bem trintona, Maria Rita Martins Beringuilho (1914-1991) justificou plenamente o tratamento de «menina» que todo o povo de Salvador lhe dispensou, carinhosamente, durante toda a sua longa vida.
Ninguém ficava indiferente com esta personagem. Era exemplar o seu relacionamento com toda a gente, de qualquer posição social, sendo, porém, notável, a aceitação de que gozava entre as famílias mais prestigiadas, de quem era visita assídua e permanente. É, ainda, de salientar a sua religiosidade e a assistência que sempre deu aos assuntos da igreja e das capelas da terra, desde contribuições monetárias – documentos paroquiais que analisámos deram-nos conta disso – ao seu trabalho voluntário, nunca regateado quer à liturgia quer ao arranjo e preparação dos altares e dos próprios templos. Se havia problemas com o sacristão, o que por vezes acontecia, era comum ver-se aquela figura franzina, já de avançada idade, subir as estreitas escadas da torre da igreja e sacar dos sinos um trepidante repicar de casamento ou de baptizado, um advertente toque da primeira, da segunda ou da terceira à missa, ou, até, um pausado e plangente dobre de finados. 
A «Menina» Rita foi uma das figuras marcantes do Salvador dos tempos antigos, e inteiramente merecedora de, por este meio, ser por nós recordada, e dada a conhecer às novas gerações.

segunda-feira, março 02, 2009

Penamacor – 800 anos




Associando-nos às Comemorações dos 800 Anos do Foral de Penamacor, reproduzimos, com muito prazer, um pequeno artigo que publicámos, em 1991, no extinto Baluarte – Revista do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

AC – Salvador Barquinha d'Oiro

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Casamentos por procuração


Dantes, os namoros eram bastante prolongados, durando, por vezes, vários anos, não apenas para que os noivos se conhecessem o suficiente, mas, o que não era menos de considerar, para reunirem as condições económicas mínimas para darem esse importante passo. O compromisso aumentava também com a passagem do tempo, não apenas nos dois namorados, mas entre os familiares ou, até, no círculo social exterior.
Os anos sessenta trouxeram, aos Portugueses, as mobilizações militares em massa, para acudir à sublevação que se registara nas possessões ultramarinas, pelo que muitos casamentos aprazados para breve, foram brutalmente adiados, em virtude de os rapazes serem mandados para África, por um período de tempo nunca inferior a dois anos.
O casamento por procuração foi uma modalidade comum em épocas de conflito, que implicavam o afastamento prolongado dos nubentes e os impediam de contrair matrimónio nas datas que mais lhes aprouvessem. A solução seria arranjar um familiar ou um amigo, a quem dotar de capacidade jurídica para representar, na cerimónia, o nubente ausente, e por ele pronunciar o necessário «sim». Embora continuando um para cada lado, cumpria-se, assim, o compromisso de anos, e resolviam-se alguns dos problemas ocasionados pelo adiamento forçado.
A foto refere-se ao casamento, em 31 de Dezembro de 1961, da Maria Augusta e do Albertino, este representado, por procuração, pelo seu irmão Henrique.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Clube Recreativo e Beneficente de Salvador (CRBS)

Fundado em Junho de 1979, deu início às suas actividades a 20 de Junho desse mesmo ano, em edifício alugado para o efeito. Começando no âmbito recreativo e cultural, continuou, posteriormente, no desporto, nomeadamente, com o futebol e com o atletismo.
Embora os seus atletas não chegassem a estar federados, eles obtiveram bastantes sucessos, quer no futebol, quer no atletismo, tanto em torneios concelhios como inter-concelhos, tornando-se uma das equipas mais respeitadas.
Dos seus órgãos directivos destacam-se dois nomes: José Joaquim Landeiro, Presidente da Direcção e Manuel Justino Martins Caiado, sócio-fundador n.º 1 e Presidente da Mesa da Assembleia-Geral, que tudo fizeram no sentido de engrandecer este clube, para orgulho dos cerca de 500 sócios e dos salvadorenses em geral.
Infelizmente, o sucesso do CRBS foi efémero, porque os órgãos directivos que se seguiram pouco ou nada fizeram para o manter e desenvolver.
O Clube foi criado através de escritura pública na Conservatória de Penamacor, e o respectivo Estatuto foi publicado no Diário da República, III Série, n.º 180, de 6-8-1979.
Segundo os últimos dirigentes em funções, o CRBS já não existe. O que não querem, certamente, é honrar as suas responsabilidades, visto que o Clube, como associação legalmente criada, continua a existir, apesar da sua inactividade e do seu estado comatoso.
Atente-se, por exemplo, no teor do art.º 37.º do Estatuto, que diz: «O Clube poderá dissolver-se quando, em assembleia geral, convocada expressamente para esse fim, com a comparência de pelo menos três quartos dos seus sócios efectivos e votada favorável por quatro quintos dos presentes, se reconheça que, por falta de fundos, é impossível manter-se».
Por sua vez, o art.º 38.º preceitua: «Se for deliberada a dissolução, a assembleia geral nomeará uma comissão liquidatária, composta por três sócios e com a fiscalização directa de autoridade designada pelo Governo se encarregará da venda de móveis e imóveis, procedendo à liquidação do activo e passivo. O saldo entre activo e passivo será doado à Junta de Freguesia local, a fim de ser doado e distribuído pelas pessoas mais necessitadas desta localidade, podendo também ser doado a instituições de beneficência, se a assembleia geral optar por esse fim».
Da última acta registada - a Acta n.º 58, de 16-1-1986 -, nada consta sobre a matéria, pelo que é evidente o não cumprimento dos dois artigos do Estatuto, atrás transcritos.
Sendo assim, parece legítimo admitir que os últimos dirigentes em funções, que reuniram, pela última vez, naquela data, lavrando a acta correspondente, serão os responsáveis por todo o património que o Clube possuía, por ele respondendo perante todos os sócios, ou, eventualmente, também perante as entidades oficiais.


Texto e imagem cedidos pelo sócio n.º 1 do CRBS, Manuel Justino Martins Caiado

sábado, fevereiro 07, 2009

A escola nos anos setenta


Eram bem diferentes de agora as coisas na escola, nos idos anos setenta! Começava por os professores serem, para nós, como uns segundos pais. Tínhamos para com eles um respeito e uma obediência idênticos, se não superiores aos que devíamos aos nossos progenitores. Não era nada imposto: era assim mesmo, natural e assumido sem qualquer esforço, tanto por nós próprios como pelos nossos ascendentes.
O ensino, também ele era melhor: preparava para a vida. E era preciso estudar bastante: a tabuada e as contas, os rios e os reis, a fauna e a flora, as estradas de ferro e as outras, os descobridores e as descobertas... E por aí fora.
Não havia a panóplia enorme de livros e outros auxiliares, audiovisuais e electrónicos, que hoje enchem a mochila dos pobres alunos. A nossa sacola, de pano de riscado ou de ganga, era levíssima, e não impedia que corrêssemos e saltássemos, alegremente, com ela a tiracolo, no caminho da escola – caminho esse que percorríamos a pé, à chuva e ao sol, na brincadeira e sem que fosse preciso os nossos papás irem buscar-nos ou levar-nos.
Bons tempos aqueles. Cada dia que passa, mais sinto isso.

A foto, de 1971, foi cedida pelo Libério Candeias Lopes.

terça-feira, janeiro 27, 2009

A «Mestra» e as «Aprendizas»


Os nossos avós pouca mais roupa possuíam do que a que andava no corpo e a de ir à missa. Até nas pessoas consideradas remediadas o vestuário era praticamente reduzido a duas mudas: a das festas, dos casamentos e dos enterros – incluindo o do próprio, porque para a mortalha era sempre guardada a roupa melhor que se tinha; e «a de trazer», ou «de cote», frequentemente consertada e remendada, acontecendo muitas vezes uma peça ter tantos remendos, e de tecidos tão diferentes, que se tornava difícil distinguir o pano primitivo.
Os consertos eram feitos em casa, pelas mães; o novo era confeccionado pelo alfaiate e pela costureira: esta só fazia roupa de mulher, aquele, apenas a de homem. Ainda não havia pronto-a-vestir!
Numa altura em que o estudo só estava ao alcance de muito poucos e, ainda por cima, se considerava mal empregado em mulheres, para as quais se tinha por suficiente saberem das lides do lar, da criação dos filhos e do bem-estar da família. Certas competências, exclusivamente femininas, complementavam a formação da mulher, tornando-a mais capaz e «mais prendada».
O ofício de costureira gozava de certo estatuto em terras como a nossa, visto ser um trabalho digno, limpo e debaixo de telha, bastante melhor do que o do campo, e que estava na via correcta dos padrões vigentes para uma boa educação feminina.
A foto que incluímos é de 1961. Reúne uma mestra com as suas aprendizas. Creio que nenhuma delas veio a fazer uso da costura como ofício ou profissão, mas garanto que o tempo que passaram juntas foi muitas vezes ternamente recordado ao longo destas quase cinco décadas.

domingo, janeiro 18, 2009

O Amadeu e a Fatinha


Não chega a duas léguas de serra e pinhal a separar as povoações de Salvador e de Penha Garcia. Aliás, nos anos sessenta – data presumível desta foto –, o caminho era feito pelo sopé da Serra do Ramiro ou Ramilo (vulgarmente chamada de Serra do Salvador ou Serra de Penha Garcia). Entrava-se ali pelo caminho da Seixeira, seguia-se pelo Ribeiro do Souto, a passar junto do Pomar, Fonte de Carvalho, e era sempre em frente. Creio que nesse tempo ainda lá existia o barbeiro/dentista que iniciou a «limpeza» da minha dentição, extraindo-me os primeiros molares... a sangue frio!
O Amadeu e a Fatinha, que aqui acabaram de unir duas das famílias mais honradas destas localidades, já não pertencem ao número dos vivos. Foram retirados, inesperadamente, ainda bastante jovens, ao convívio dos seus familiares e amigos.
Ficou o desgosto e a saudade... mais o fugaz lenitivo que imagens maravilhosas, como esta, nos podem proporcionar.

Foto cedida por José Manuel Borrego Ribeiro

domingo, dezembro 28, 2008

Tropas expedicionárias a Cabo Verde


Este militar, todo vaidoso na sua farda de 1.º cabo radiotelegrafista, é o Henrique Calamote da Silva, filho mais velho do Ti Zé Violas, de que já falámos algumas vezes. A foto foi tirada na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, no dia 15 de Março de 1942. Decorria, então, a segunda guerra mundial e, apesar de estar de fora do conflito, Portugal entendeu guarnecer, preventivamente, aqueles territórios ultramarinos com algumas forças militares.
Dos nossos cinco anos, recordamos bem as Mensagens de Natal que estes militares mandavam através da rádio, «nova tecnologia» que então despontava nos pequenos centros. Em Salvador havia (creio não errar) apenas uma telefonia em 1942. Tratava-se de um belo exemplar de aparelho, a válvulas, que pertencia ao Sr. João da Cruz Monteiro, que, nas alturas próprias, facultava a sua sala para que se ouvissem as mensagens dos soldados, que os familiares recebiam de olhos simultaneamente arregalados e chorosos:
Beijos e abraços até ao meu regresso...

Ao meu querido mano Henrique, o meu abraço e os meus votos de mais um bom ano novo. Albertino Calamote.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

O Madeiro de Natal


Os adros das aldeias e vilas da Beira-Baixa preparam-se, nesta altura do ano, para acolher o tradicional Madeiro de Natal.
O Salvador de outros tempos fez sempre questão de cumprir este ancestral costume, e, quando os rapazes entrados à tropa se atrasavam, logo os homens casados se punham em campo, arregaçavam as mangas, e o madeiro aparecia.
Lembramos aqui um Natal passado em África, no serviço militar, em que jovens salvadorenses, beirões, e não só, procuraram recriar a tradição das suas terras, pondo-se a caminho da mata africana, à cata de troncos secos, que carregaram num camião e depositaram na parada do quartel, num monte enorme, que deu fogueira acesa durante a quadra festiva.
A imagem mostra os pormenores, descritos e publicados, primeiro no Sentinela das Beiras, o jornaleco da Unidade, carinhosamente dactilografado e reproduzido a stencil, e, trinta e tal anos mais tarde, no Jornal do Exército (n.º 432, de Dez95, pp. 34-35).
Poderemos avaliar o «sabor» daquela fogueira, se pensarmos na comunicação que era possível nos anos sessenta: sem telemóvel, sem internet, o veloz correio aéreo levava-nos as notícias da família reportadas à semana (ou à quinzena) anterior.
Tínhamos, enfim, dois anos (pelo menos), para aprender a viver com as saudades em diferido!
– Aos que, apesar de apoiarem as actuais missões de militares portugueses no estrangeiro, olham os antigos combatentes de soslaio – que muitos há ainda – desejamos um quente Madeiro de Natal, o mesmo que a todos os nossos amigos!