Meio século separa este instantâneo dos nossos dias. O jovem, na idade da esperança, estica firmemente os elásticos duma fisga, e fá-lo tendo por fundo uma densa e viçosa seara de centeio. Tudo ali era esperança, nesse preciso momento: a juventude evidente, a promissora seara e a fisgada confiante. Juventude, searas e fisgas já não são, para nós, infelizmente, mais do que saudosas e angustiadas recordações que a passagem dos anos vai tornando cada vez mais penosas. Com excepção, talvez, da fisga, que pouco ou nada mudou desde então, e que, julgo eu, continua na mão dos garotos lá da terra, quando fazem despiques para ver quem acerta melhor ou quem atira a pedra mais longe..., ou a assustar os passarinhos que pousam nas árvores ao seu alcance!
Que fazem estes três rapazes (quatro, com o fotógrafo?), que aqui ostentam farfalhudos bigodes de barbas de milho, num domingo (a avaliar pela fatiota), encostados à nora da «Quinta»? Os rapazes são o Mário e o Frederico «Farragas» e o Albertino «Violas». O fotógrafo terá sido a irmã deles, a Maria Manuela, ou algum outro amigo que agora não recordo. A quinta era a do Dr. Frederico Conde, na Ramalha, onde os pais deles eram caseiros, e que era completa e suficientemente identificada por «a Quinta». Tratava-se de uma propriedade extremamente bem aproveitada e mimosa. O olival e a vinha eram excelentes e asseguravam produções notáveis. Com fartura de água, os produtos hortícolas eram ali abundantes e de óptima qualidade. Tinha ainda imensa variedade de árvores de fruto, cobrindo, praticamente, todo o ano. Dispunha ainda a «Quinta» de um belo aglomerado de casas, ajardinado, com instalações agrícolas e pecuárias, com morada para os caseiros e onde pontuava um sóbrio palacete dos proprietários, que residiam em Castelo Branco e ali vinham passar os fins-de-semana para descansarem e para levarem abastecimentos para casa. Ora, o que fariam ali os rapazes? Divertiam-se, é claro! Não havia TV, nem computadores, nem jogos electrónicos... Mas, decerto, correram e saltaram pelo meio do milho; saborearam «galula» dos marmeleiros, amoras ou figos, ou outra fruta da época e beberam daquela água fresca e pura do poço da nora... E despreocupados como andavam, nem lhes passou pela cabeça que a sua garbosa figura iria parar à Internet, cinquenta e cinco anos depois!
Sobre a apresentação do livro «Salvador barquinha d' oiro», publicou o semanário «Reconquista», na sua edição de hoje, 10 de Setembro, um apontamento de entrevista do jornalista penamacorense José Furtado com o autor, que gostosamente levamos ao conhecimento dos leitores do nosso blogue.
Como anunciado neste blogue, o lançamento do livro «Salvador barquinha d' oiro: o tempo dos nossos avós» aconteceu no dia 4 do corrente mês (e primeiro da festa de Santa Sofia). Teve lugar ao fim da tarde, no salão de festas do moderno edifício da Junta de Freguesia de Salvador, com a presença de ilustres convidados e de muito público.
Compunham a mesa o presidente da Câmara Municipal de Penamacor, Domingos Torrão; o presidente da Assembleia Municipal de Penamacor, Lopes Marcelo; a vereadora da Cultura, Ilídia Cruchinho; o presidente da Junta de Freguesia de Salvador, Joaquim José Justino; o editor (Edições Colibri), Fernando Mão Ferro, e o autor, Albertino Calamote. Todos usaram da palavra, e foi a vereadora Ilídia Cruchinho quem fez a apresentação da obra. De uma forma magistral, sublinhe-se, atendendo ao curto espaço de tempo de que dispôs para o efeito.
Uma projecção de diapositivos, com imagens do livro, complementava as palavras dos oradores, para gáudio da assistência.
No final, a inevitável sessão de autógrafos, com a grata surpresa de a Junta de Freguesia de Salvador ter decidido brindar todos os presentes com um exemplar do livro, oferta esta que manteve nos dias seguintes da festa, contemplando, ao que julgamos saber, mais de 400 salvadorenses.
Não somos a pessoa indicada para o afirmar, mas este gesto tem um alto significado, tanto do ponto de vista do relacionamento da autarquia com os seus habitantes, como da reconhecida mais-valia que advém, para todos, da projecção do livro e da cultura.
Mais um ano, mais um primeiro fim-de-semana de Setembro, mais uma festa de Santa Sofia, mais uma concentração de salvadorenses para homenagearem a sua padroeira de eleição.
Trazemos aqui, hoje, imagens duma festa de outros tempos, mais precisamente duma procissão.
Não sabemos datar o evento, mas estimamos que possa ser dos anos cinquenta, início de sessenta.
Alguns dos presentes nas fotos, e as duas frondosas sobreiras, ao cimo do «Chão do Seabra», despertarão, sem dúvida, lembranças adormecidas nas memórias dos menos jovens...
Mais uma imagem de alta qualidade e grande interesse afectivo que este blogue salvadorense dá a conhecer aos seus seguidores, uns, os menos jovens, sempre interessados em recuperar vivências de infância, e outros, os que não conheceram esses tempos, curiosos por, assim, serem transportados aos tempos que foram os da flor da idade dos seus progenitores. Trata-se dum registo do casamento do Libério Silva, realizado em Fátima, em 24 de Abril de 1962. Os noivos estão rodeados de familiares e de convidados que foram personalidades bem conhecidas e consideradas no Salvador, e de que destacamos o casal de professores Maria Adelaide e José Vicente Lopes, com a sua numerosa e simpática «turma» de filhos. A foto foi-nos cedida pelo Adelino Justino, que também ali posa.
Encontra-se já na posse da Câmara Municipal de Penamacor e da Junta de Freguesia de Salvador, como entidades patrocinadoras da edição do livro Salvador barquinha d' oiro – O tempo dos nossos avós, uma primeira entrega da tiragem da referida publicação, da chancela das Edições Colibri (www.edi-colibri.pt).
Em breve saberemos, daquelas autarquias, onde e em que condições poderá ser adquirida a obra em questão, até ao momento a única impressa sobre a nossa terra.
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Lançamento em Salvador, no dia 4 de Setembro (primeiro dia da festa de Santa Sofia)
A casa dos meus pais era muito pequenina. Aliás, ela já resultara da divisão, ao meio, da casa de meus avós paternos, também ela já pequena. Ficava situada na Rua da Cinza, uma das artérias mais movimentadas de Salvador, por ser o caminho privilegiado entre o centro do povoado e a zona dos palheiros e das hortas.
Numa parte do local antes consagrado ao logradouro, encostado à rua, o meu pai fez uma divisãozinha independente, destinada a oficina da sua arte de sapateiro. Era a casinha.
A casinha era, pode dizer-se sem medo de errar, o local mais visitado e frequentado da freguesia, logo a seguir à igreja.
A razão é simples e há duas explicações para o facto. A primeira é que ali se vendiam os selos, se registavam as cartas e era aberta a mala do correio: e à porta da casinha se distribuía a correspondência aos que ansiosamente aguardavam por notícias; a outra, é que o Ti Zé Violas não era apenas sapateiro, mas um salvadorense muito popular e considerado, que atraía, à sua oficina, imensas pessoas, sobretudo das que estavam a férias, para uma boa partida de damas, para umas divertidas anedotas ou, mesmo, para elevada tertúlia, onde se debatiam os problemas mais candentes da actividade política do país.
Este garboso militar de cavalaria é o salvadorense José Mendonça (1915-2005), que aqui deveria ter pouco mais de vinte anos, pelo que a foto será de cerca de 1936.
Os militares estiveram sempre presentes na História de Portugal desde os seus primórdios: nas lutas contra leoneses e muçulmanos; contra agressores e ocupantes castelhanos; contra invasores franceses; nas campanhas africanas do mapa cor-de-rosa; na primeira guerra mundial, em França e em África.
Depois, já nos anos sessenta/setenta, na guerra do ultramar, em várias frentes. A tropa era conscrita, por ordem dos governos da Nação e para defesa da mesma, isto é, o serviço militar era obrigatório e tinha por fim a defesa nacional. Entretanto, o serviço militar obrigatório foi abolido em Portugal em 2004, mas teatros de guerra como a Bósnia, Timor-Leste, Kosovo, Afeganistão, etc. etc., têm a nossa tropa a defender, voluntariamente, terra alheia. Os EUA também aboliram o serviço militar obrigatório em 1973, na sequência da Guerra do Vietname...
– «Malhas que o império tece», como disse Fernando Pessoa!
Patrocinado pela Câmara Municipal de Penamacor e pela Junta de Freguesia de Salvador, está prestes a sair a público, pelas Edições Colibri, o livro Salvador barquinha d’oiro: o tempo dos nossos avós, que será o primeiro esboço monográfico da nossa terra, em letra de forma. Na suas cerca de 300 páginas, são abordados aspectos históricos, económicos e culturais, desde as origens conhecidas até meados da segunda metade de Novecentos, época considerada, pelo autor, a mais próxima do «tempo dos nossos avós». A publicação inclui dois extratextos: um com a divulgação de diversos documentos antigos; outro com várias imagens a cores – estas, evidentemente, bastante menos antigas. Trata-se de um trabalho assaz incipiente, mas em boa parte realizado com uma segunda intenção: que foi a de tentar contagiar os salvadorenses mais jovens e procurar despertar, neles, iniciativas novas que vão no sentido de um estudo mais aprofundado da nossa terra e das nossas gentes.
Vai para cinquenta anos que, entre os dia 1 de Setembro de 1959 e 30 de Janeiro de 1960, este vosso amigo conheceu, ao pormenor, a bela cidade de Tavira. A terra algarvia que mais igrejas tinha, diziam. E era verdade: acho que nem cheguei a visitá-las todas, apesar do inegável atractivo monumental, da pluralidade de estilos arquitectónicos e da diversidade de influências religiosas de cada uma delas.
Naquele tempo Tavira fervilhava de militares, que animavam o comércio e as pensões, e alvoroçavam o sentido do elemento feminino, perante o renovar constante de vagas de imberbes mancebos e, como tal, de potenciais hipóteses de namorico... ou talvez mais.
De facto, funcionava ali o Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria (CISMI), por onde passavam anualmente algumas centenas de instruendos de todo o país. Muitos ali tiveram namoradas, ou madrinhas de guerra, e alguns por lá casaram.
Alguns dos camaradas de turma vim a encontrá-los, cerca de dois anos após, na odisseia portuguesa do Ultramar; outros não os vi mais. Que vivam e que sejam felizes todos!
Neste mundo, tanta coisa mudou, entretanto!
Mas da juventude que detínhamos, da camaradagem que sentíamos, da solidariedade que retribuíamos, das ilusões que eram só nossas, durante aqueles excitantes cinco meses em conjunto, subsiste, ao fim deste meio século, este elo de amizade que, ao recuperar as imagens, o faz com o coração cheio e o olhar húmido.
Em todas as famílias há sempre um ou dois membros cuja preocupação constante é aproveitar todas as ocasiões para reunir o clã, proporcionando momentos ímpares de convívio e de confraternização, a remeter para a vivência original dos primeiros tempos de vida debaixo do mesmo tecto e à mesa comum. Na família Afonso era o Armando e a Maria Augusta quem fomentava essa união familiar, e eram de sua iniciativa a maior parte dos agradáveis serões, dos frequentes piqueniques ou das «obrigatórias» férias de verão no Salvador. Era, para eles, uma imensa felicidade terem a família à sua volta – família numerosa em crescendo, mas, por isso mesmo, crescentes eram o amor, a alegria e a dedicação deles. Malfadadamente, o Armando e a Augusta foram os primeiros a desaparecer. A família continua amiga como dantes, mas a garra, o dinamismo e o espírito de iniciativa foi com eles. Nas férias de 1977, a família juntou-se mais uma vez no Salvador para a Santa Sofia, e a foto seguiu-se à merenda saboreada à sombra das árvores da piscina da Termas de Monfortinho.
Este ranchinho que aqui está, encostado à varanda do balcão do Sr. Frederico Costa e da Sr.ª Maria Clara, composto de deliciosas meninas casadoiras e de alguns eventuais pretendentes que espreitam atrás delas, representa a «fina-flor» da juventude da nossa terra, à data da fotografia, que deve ser de 1950, aproximadamente. As meninas da foto não precisavam de trabalhar no campo. Eram as meninas «bem» do seu tempo e este estatuto advinha-lhes de serem filhas de guardas ou de proprietários. Dizêmo-lo com franqueza e sinceridade. Era assim mesmo. Naquele tempo raro era o jovem que seguia estudos. O liceu era em Castelo Branco e as posses das pessoas – mesmo das «remediadas» – não comportavam a despesa. O caso feminino era ainda mais excepcional: ainda se acreditava ser suficiente a preparação, mais ou menos cuidada, para o casamento e para a família. Já são cada vez menos as meninas deste grupo, cuja singela beleza enchia de luz e de jovialidade os luminosos e alegres passeios de domingo do nosso Salvador, naqueles felizes anos cinquenta. Foto cedida pela Lena Prata Afonso.
Quando eu nasci, o meu pai já tinha 44 anos feitos. Não tenho ideia de ele ter grandes miminhos ou brincadeiras comigo, o que acho natural, dado que já era um bocado «entradote» quando eu deixei de gatinhar e comecei a correr pela casa. Lembro-me mais das suas histórias, bem como das de meu tio António, que morava na casa ao lado. E, também, dos agradáveis serões à luz do candeeiro a petróleo, quer em nossa casa, quer quando íamos de visita aos primos Maria de Andrade e José Calamote, que moravam na Rua da Salgadeira. Aqui, jogava-se ao «burro», e eles deixavam-me jogar desde que comecei a conhecer as cartas, mas aborrecia-me muito a conversa deles, pois nunca mais jogavam: a falar, a falar, a falar! Só gostava de os ouvir quando falavam dos carnavais do Salvador, e dos entrudos e das partidas que o meu pai pregava mais os seus compadres e colegas da folia. Esses compadres eram o João Pereira, o Zé Robalo e o Filipe Catarro. Pelos vistos, eram danados para a brincadeira... Ora, este homem que está na imagem, todo pipi da tabela, é o compadre Catarro, e a fotografia é de quando esteve na Argentina, nos longínquos anos vinte, se a memória não me atraiçoa. Esta foto, com outras da época, integrou uma moldura pendurada na sala de meus pais, desde que me conheço até que a casa foi remodelada, depois de falecerem. A sua publicação no Salvador barquinha d’oiro é um tributo à lembrança do compadre Catarro e, também, dos compadres dele!
Foi há vinte, há trinta? Nem eu sei já quando... Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!
Apetece invocar estes belos versos de Guerra Junqueiro quando vemos fotos deliciosas, como esta do casamento da Celeste e do Rui, aqui rodeados do padre António Robalo Ramos, do Henrique Bicho, do Ti José Mendonça (pai do noivo), do Ti Canilho, e de tantos outros amigos, de ar grave e circunspecto como é próprio da importância do momento.
A felicidade não é alegre nem é triste: a felicidade é, simplesmente. E nós somos felizes, por conseguirmos aqui trazer tempos que o foram, realmente, nas nossas vidas.
A maior festa de Salvador, e também umas das mais afamadas da região, é a que se realiza no primeiro domingo de Setembro de cada ano, em honra de Santa Sofia. Até aqui tudo bem, mas existe um pormenor que intriga muita gente, incluindo nós próprios, que não temos uma resposta para lhe dar. Trata-se da existência de duas imagens da Santa, uma de estilo reconhecidamente mais antigo – diríamos que de traça medieval – e a outra bastante mais moderna. O curioso é que ambas tomam parte nos actos religiosos, nomeadamente nos percursos processionais das festas, cada uma com o seu andor engalanado e, pelo menos até há alguns anos, coberto de notas e de outras oferendas. Talvez que algum dos nossos leitores conheça as razões desta coexistência das duas imagens da nossa veneranda Santa Sofia, e não se importe de as compartilhar.
A foto e as palavras que se seguem foram enviadas pelo nosso conterrâneo Lino Pinto, de 40 anos, que se considerou transportado aos anos oitenta quando leu o nosso «post» de 16 de Fevereiro, sobre o Clube Recreativo e Beneficiente de Salvador:
«Que saudades dos tempos do nosso clube, dos jogos de futebol; jogávamos por um sumol e uma sandes (quando havia), éramos transportados em carrinhas de caixa aberta, mas sempre todos felizes, porque estávamos a representar a nossa terra. Lembro-me, também, dos saudosos bailes, das noites passadas em convívio, onde se juntava toda a juventude de Salvador e dos arredores. Nessa altura toda a gente visitava o Salvador. Que saudades...
Remeto-lhe uma foto da equipa da época de 1985/86. Na fila de trás, em pé, da esquerda para a direita: O treinador Albano, Tó Churro, Morais, Zé Bicho, Fredy, Tó Leandro, Calita Banana, Quim do Álvaro e Zé Landeiro. Em baixo, da esquerda para a direita: Lino, Zé Moleiro, Jorge Fareira, Jaime (guarda-redes), Vítor Leandro, Paulo Alemão (guarda-redes), Zé Pássaro e Zé Carapito (infelizmente já falecido)».
Salvador Barquinha d’Oiro agradece a colaboração do Lino e aproveita o ensejo para formular um desejo muito sincero, que é o seguinte:
– Que a associação cívica «Amigos de Salvador», que, de momento e em boa hora está emergindo, não deixe que o antigo «Clube Recreativo» permaneça no ostracismo em que tem existido, reabilitando-o ou integrando-o no seu seio, e recuperando, para a nossa terra, todo o seu património e todo o capital de sonho que, como vemos, marcou uma geração de salvadorenses.