domingo, março 14, 2010

Nos anos quarenta


Mais um regresso ao passado salvadorense e aos anos quarenta do século passado.
A senhora do centro é a Dona Margarida Robalo, filha do antigo comerciante José Robalo da Cunha, senhora muito considerada e, então, companheira do Padre Zé – feitor da rica Casa Seabra –, que, não sendo salvadorense, foi um grande e dedicado amigo da nossa terra.
À sua esquerda, vemos a «Menina» Mariazinha Monteiro, filha do comerciante João da Cruz Monteiro (e irmã do padre Henrique), que foi dedicada e extremosa catequista de imensas crianças, que a adoravam. Pessoa de reconhecida bondade, a sua morte, aos 40 anos, causou enorme consternação e deixou o Salvador de luto.
A outra personagem, menina prendada e estudante zelosa, é a Irene Lopes, filha do proprietário Rui Lopes, homem muito conceituado e esclarecido, que não hesitou em aplicar os seus rendimentos, e muitos sacrifícios, prioritariamente na educação superior dos seus três filhos (a seguir à Irene viriam o Helder e a Maria Adelaide), tendo-se em conta que, ao tempo, era extremamente difícil e dispendioso mandar filhos a estudar, para Castelo Branco ou mais longe ainda.

Foto cedida pelo padre Henrique.

terça-feira, março 09, 2010

No balcão à fresca


O Salvador teve sempre um clima muito rigoroso. Invernos muito frios metiam as pessoas dentro de casa, escarrapachadas sobre a braseira de carvão de esteva, ou arrastando os tropeços em direcção à lareira onde grossos rachões de lenha faziam a boa brasa acolhedora. Em tempos de canícula, era ver a família porta fora, a espalhar-se pela escadaria de pedra, à medida que a sombra refrescava os degraus escaldantes. Num e noutro caso, privilegiavam-se a conversação e a confraternização, militantes e saudáveis, que as exigências dos tempos modernos vieram retirar do seio das famílias de agora.
Não sabemos bem a data desta foto tirada no balcão do Américo e da Lena, mas sabe-nos bem rever aqui a própria Lena, o Ti Vítor (já desaparecido), a filha Idalina, o enteado Vítor (de raspão), e todos aqueles jovens que agora já o não serão tanto assim.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Padre Henrique


A foto supra não está nas melhores condições, mas regista um acontecimento único na história da nossa aldeia. Trata-se da primeira missa (ou Missa Nova) de um destacado salvadorense, o padre Henrique da Cruz Monteiro.
Era meio-dia de 12 de Abril de 1953. A igreja matriz de Nossa Senhora da Oliveira foi demasiado pequena para toda a gente que queria assistir à celebração, e muitos ficaram lá fora, povoando o adro.
Nesse dia o Salvador estava em festa e registava um movimento extraordinário, já pelo acontecimento em si, já porque a família do jovem padre gozava de grande consideração na nossa aldeia e nas povoações vizinhas.
Finda a missa, uma multidão de gente dirigiu-se para junto da casa da Família Monteiro, em atitude espontânea de carinho e de júbilo (ver post de 24 de Março de 2008).
Para além do almoço que a família ofereceu aos convidados, o novo sacerdote fez questão de que fosse servida, também, uma refeição aos pobres de Salvador, numa manifestação de grande religiosidade e de humanismo, que o caracterizariam pela vida fora.
O padre Henrique, já octogenário e felizmente ainda entre nós, foi o único sacerdote católico que a nossa terra viu nascer até hoje. Este facto materializa apenas uma das muitas razões para que Salvador Barquinha d’ Oiro: blogue do Salvador de outros tempos aqui lhe deixe esta modesta homenagem.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nas férias grandes


Nos longínquos anos quarenta, a visita anual dos salvadorenses ausentes da terra, e o fim do ano escolar, com o inerente regresso dos estudantes, faziam a diferença nos verões do Salvador. Naquele tempo, as férias grandes preenchiam por completo a estação estival, e boa parte dos estudantes de fora aproveitava-as plenamente, ficando todo este tempo em casa de familiares residentes na aldeia.
A foto foi-nos enviada pelo ilustre conterrâneo e amigo, Padre Henrique da Cruz Monteiro, de cuja carta transcrevemos algumas linhas:
«Envio-lhe uma foto dos anos 40, de um grupo de jovens estudantes, que nas férias se encontravam no Salvador, para conviverem e fazerem passeios pelos campos, para gozarem da beleza da natureza e do ar puro que não encontravam nos meios citadinos.
Os rapazes: Amadeu Afonso, Henrique da Cruz Monteiro, Zeca Silva, Alexandre Cancelas, Aires Robalo e outro que não identifico.
As meninas: Hermínia Borges, Maria de Lurdes (Milucha), Ilda Silva, Fernanda Silva e mais duas que não identifico».

Obrigado ao Padre Henrique, que assim vem enriquecer este blogue com mais um saboroso momento dos bons velhos tempos do nosso Salvador.
Se, porventura, alguém reconhecer as restantes personagens aqui não identificadas, teremos o maior gosto em divulgar os seus nomes.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

O fato de «guardar»


Era, com certeza, domingo: dia em que o Salvador vestia o seu fato «de guardar» e enchia os locais de lazer com a sua gente alegre e sadia, para o divertimento ou para o mero descanso da afanosa semanada.
Estes rapazes, todos eles já a contas com a tropa, passeavam a sua dispensa de fim-de-semana estrada acima, em busca de sítio asado para tirar o retrato.
Passavam à Senhora de Fátima quando repararam neste belo Morris Minor, que preenchia, à maneira, um belo fundo para a imagem. E ninguém diz, cinquenta anos passados, que o automóvel não era seu e que não tinham chegado de um agradável passeio por entre as covas e os caramouços de brita da macadamizada e sinuosa estrada do Salvador para as Aranhas.
Só não me lembro é se o baile era lá ou se era cá.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Eram meninas


Eram meninas há sessenta anos.
Foram passear até à capela de Santa Sofia, como era hábito «sagrado» nos domingos à tarde. Atrás está a Lurdes Leitão, a Milúcia, a Alda Peres e a Maria Alice Afonso; à frente vemos a Patrocínia Ferreira e a Maria Augusta Afonso.
Alardeiam beleza e juventude, e sorriem-nos as promessas de futuro que ficaram registadas nesta bela imagem.
Algumas já nos deixaram, mas poderemos ver aqui como elas eram, todas, graças a esse extraordinário invento que foi a fotografia.
A foto foi cedida pela Maria Alice.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Prof. José Vicente Lopes – a homenagem que falta


Entre 1939 e 1965 contou a nossa terra e os seus rapazes com um mestre-escola de grande nível. Com o seu extraordinário saber, a sua elevada competência profissional e o seu natural humanismo, o professor José Vicente Lopes (1897-1969) preparou para a vida várias centenas de alunos, ensinando-lhes uma instrução primária altamente exigente e disciplinarmente muito variada e completa.
Numa altura em que raros alunos tinham oportunidade de prosseguir estudos, a preocupação do Professor era dotá-los com diferentes conhecimentos, que não se ficavam pelos programas oficiais, mas, antes, abrangiam uma gama imensa de teorias e práticas essencialmente dirigidas aos problemas que a vida real poderia colocar às crianças de 11 ou 12 anos que deixavam a escola e, subitamente, se encontravam perante a vida activa, num tempo e numa terra em que, para almejar um emprego, havia que emigrar, no mínimo, para Lisboa.
O professor José Vicente Lopes, quando saia da escola, ocupava, ainda, a maior parte do seu tempo em tarefas e serviços prestados aos seus conterrâneos, como sejam funções na Junta de Freguesia, no Posto do Registo Civil, no juizo de
conciliação e solução de conflitos entre vizinhos, ou em muitos outros casos de ajuda e de conselho às pessoas que recorriam aos seus conhecimentos, prestígio e experiência. Todos estes encargos eram gratuitos, bem como as atrás referidas funções oficiais, ao tempo não remuneradas.
Em vida, José Vicente Lopes foi condecorado, pelo Presidência da República, com a Ordem da Instrução Pública, e também muito justamente homenageado pelos seus alunos.
Porém, ele foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores figuras de Salvador, tendo marcado a sua época de forma indelével.
Mal vai a terra-mãe que não honra os filhos que a dignificam e engrandecem.
O professor José Vicente Lopes merece que o seu nome seja devidamente gravado na sua terra, para que o seu exemplo, tão presente na memória daqueles que tiveram a dita de o conhecer, fique também na história de Salvador e perdure pelas suas futuras gerações.

domingo, janeiro 10, 2010

1.ª Comunhão


Passados que são os dias das chamadas Festas de Natal e Ano Novo, voltamos à actividade normal do Salvador barquinha d‘ oiro: blogue do Salvador de outros tempos, que é a de recordar, em textos ou em imagens, o passado da nossa terra e da suas gentes.
A imagem de hoje mostra um lindo grupo de jovens, infantes e adolescentes, num ambiente de primeira comunhão, que era, então, um acontecimento de grande importância na pacatez social das nossas aldeias, ansiosamente aguardado pelas crianças, carinhosamente preparado por párocos e catequistas, atentamente acompanhado pelos pais e pelos professores e um espectáculo dominical a não perder por toda a população.
A felicidade e a alegria estão estampadas nos rostos dos retratados, sem dúvida abençoados por um daqueles claros e luminosos dias primaveris, que o nosso próprio imaginário mantém, ainda bem vivos, do Salvador de outros tempos.

Foto (1960?), cedida pelo Frederico Nuno Vicente Lopes

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Ano Novo?!


Acaba um ano e logo outro começa.
Continua esta eterna contradança
De iludir as gentes com a «mudança»
Do que nunca muda, embora pareça.

É, cada novo ano, nova promessa
Que impele a retomar a confiança.
É mais um desengano para a esperança,
E, de novo, a desilusão regressa.

Ó mortal, deixa-te de calendários!
Crê apenas no momento de agora!
Se também sonhaste, p’la vida fora,

E tiveste crenças e anseios vários,
Não queiras viver estes meus calvários...
Recusa o ano: manda-o embora!

Lisboa, 1987.
Albertino Calamote, Dor e Poesia: sonetos, Lisboa, Edições Colibri, 1999.

sábado, dezembro 19, 2009

Boas Festas

Salvador barquinha d'oiro deseja, a todos os seus leitores e amigos, boas festas de Natal e um Ano Novo sem sobressaltos e muito feliz.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

«Toninho» Raposo


Esta fotografia, de cerca dos anos trinta, mostra um grupo de familiares do antigo comerciante e proprietário José Manteigas Raposo, aquele mesmo que, em 1923, oferecera o primeiro relógio da torre da igreja de Salvador.
António – ou Toninho–, um dos filhos do velho comerciante, é o que está, elegantemente, de fato branco. E a sua curiosa posição, de joelho em terra, sugere ter sido ele a tirar a fotografia, com recurso a disparo por retardador e à correspondente corridinha...
António Manteigas Raposo desempenhou, por mais de uma vez, entre 1933 e 1945, funções de presidente da Junta de Freguesia de Salvador. Tratava-se de um homem culto e de vincada postura política, aliás muito acima do normal para o meio.
Toninho Raposo é também recordado por ter sido, em 1945, o primeiro salvadorense com automóvel próprio: um vistoso Ford V8, preto, de matrícula AC-82-56.
(Foto cedida por D. Deolinda Raposo)

sábado, dezembro 05, 2009

Pausa para o Retrato


A fotografia é do final dos anos 50, e foi seu autor o nosso ilustre conterrâneo, professor José Vicente Lopes (1897-1969)*
Em meados do século, ainda a actividade agrícola tinha importância fundamental entre a população da nossa terra, apesar de já se registarem crescentes casos de abandono dos campos, em busca de novas e mais promissoras hipóteses noutras paragens.
Como se suspeitassem que aquele momento chegaria ao nosso conhecimento aqui e agora, vemos, na imagem, alguns trabalhadores rurais salvadorenses, que posam atentamente, empunhando os respectivos instrumentos de trabalho (enxada, sacho, ancinho, regador), enquanto que outras alfaias, ou utensílios de trabalho mais pesado, como o arado, a grade e o próprio carro de fueiros, se arrumam junto do portão da quinta, à espera dos respectivos animais, companheiros inseparáveis dos camponeses na labuta da terra.
_______
* In José Vicente Lopes, Salvador [manuscrito inédito], Salvador, 1960, p. 33.

domingo, novembro 29, 2009

Rua da Cinza


Nesta foto (anos 60?), cedida pela Lena do Américo Morais, que, como eu, foram gente na Rua da Cinza, podemos ainda ver as «casinhas» que avançavam das moradias, à guisa de logradouro de arrumos. A «casinha» branca era do Ti Zé Violas e servia, simultaneamente, de oficina de sapateiro e de posto de correio, sendo, também, mormente de verão, uma espécie de clube onde se juntavam certas pessoas para um bom jogo de damas ou para uma animada converseta, sempre com o contributo bem homorado do anfitrião, enquanto batia a sola ou ponteava os sapatos.
Aqui vão uns versinhos à minha rua:

A Rua da Cinza é minha,
Herdei-a por nascimento.
Guardo-a, bem guardadinha,
Junto do meu pensamento.

Saindo do Fundo da Estrada,
Finda na Rua Direita.
Mesmo antes de ter calçada
Já ela era a mais perfeita.

Tinha casas, muitas casas,
Alegria e foliões;
Tinha rondas, tinha arruadas,
E flores nas procissões!

Tinha vida, muita vida,
Trabalho e divertimento;
Povo de cabeça erguida,
Salvador em movimento!

A Rua da Cinza é minha,
Herdei-a por nascimento.
Deixá-la-ei, inteirinha,
Quando fizer testamento.

sexta-feira, novembro 20, 2009

A água do Salvador


Mais uma jóia de imagem, de fim dos anos cinquenta / princípio dos sessenta, que mostra um naipe de belas moças de que o nosso Salvador sempre foi fértil.
Encostadas ao chafariz fundeiro, de costas para a Rua Direita e para a imponente casa do Dr. Júlio Moutinho (actual Centro de Dia), temos: a Arlete, a Alda Frederico, a Lurdes Leitão, a Maria Alice, a Nazaré, a professora Maria Natália, a Maria Augusta e, ainda, de mais tenra idade, julgo ver a Severiana Candeias Lopes, a Maria Manuela (Manecas) Vicente Lopes, a Zezinha Silva Raposo (com a mão sobre a vista) e, finalmente, um triciclista, que creio ser o Manuel Tavares (Manelito).
Tinha o Salvador de outros tempos coisas muito boas, algumas delas só conhecidas dos mais velhos! E não falo já da juventude, aqui tão presente e tão distante: refiro-me, agora, e com acentuada nostalgia, à água leve e puríssima, brotada das nascentes da serra da Santa Sofia, que aqui vemos correr abundantemente.
Naquele tempo, é claro!

quinta-feira, novembro 12, 2009

Outros balcões altos


Antes do aparecimento dos novos materiais de construção, o Salvador de outras décadas tinha bonitos balcões feitos de grandes e trabalhados blocos de granito, que, na maioria dos casos, definiam a dignidade, e, mais propriamente, as posses dos seus proprietários: eram as clássicas mansões de «balcão alto» dos mais ricos e abastados da terra.
Não é o caso desta imagem de 1961, que mostra um balcão com uma certa altura, mas em que, nem as pedras nem o trabalho de pedreiro, nos sugerem tal situação, mas uma casa de gente simples, embora vestida a propósito e pondo o seu melhor semblante para o retrato que há-de ser expedido para o familiar distante, a fim de servir para mitigar saudades e para abreviar o regresso.
É família de José Afonso e Adélia dos Santos, naturais de Proença-a-Velha, que, no final dos anos vinte, vieram para o Salvador, onde viveram toda uma vida e onde estão sepultados.

domingo, novembro 08, 2009

Família Leitão


A foto é da segunda metade dos anos setenta. Nela vemos um casal idoso, o senhor Leitão e a senhora Celeste, entre filhos e netos. Foi tirada em Monsanto, mas com um pé no Salvador (falamos assim, porque o referido casal passou a maior parte da sua vida na nossa terra, onde ele exercia a profissão de guarda-fiscal, e onde a família cresceu).
O jovem par que se vê atrás é o Henrique Leitão e a Lena. Quanto aos restantes, são o Manuel Sebastião, a Lurdes e os filhos de ambos: a Fátima, de cócoras; a Filomena, de mão na cintura, a Fernanda e o Nelson.
O «Manel» deixar-nos-ia pouco tempo depois de feita esta imagem; o Nelson partiria também enquanto jovem e a Fernanda conheceu uma viuvez precoce há bem poucos dias.
A Lurdes, que tem agora perto de oitenta anos, acumulou já uma vasta experiência de sofrimento: os pais, os sogros, um irmão, o único cunhado, o marido, o filho, o genro, todos lhe foram arrebatados, sem dó nem piedade.
Dizem que o sofrimento redime porque Deus o ligou ao amor. Mas lá que é injusto, isso é!

quarta-feira, novembro 04, 2009

Belo ramalhete de flores


Olhem só que belo ramalhete de flores que vos trago hoje, nesta magnífica foto de meados da década de cinquenta! Era assim, belo e florido, o Salvador do meu tempo: terra de caras lindas, como as que aqui vemos.
O «ramo», disposto em pirâmide sobre o «Penedo da Saudade», transborda boa disposição e irradia felicidade. Privilégios da juventude!
Este barroco, situado no cimo da serra, era passeio obrigatório para os jovens, que ali se reuniam, para conversarem, nos domingos à tarde e, por vezes, também nas noites enluaradas e cálidas de verão os rapazes ali permaneciam, divertidos, a contar anedotas, até altas horas da noite.
Identificamos, na imagem, de cima para baixo e da esquerda para a direita, a Nazaré, a Manecas, a Lurdes Raposo, a Maria Silva, a Maria Augusta, a Alice França, a Maria Alice, a Arlete, a Helda, a Lurdes Leitão, a professora Maria Natália, a Alda Frederico, a Stelinha e a Zezinha. Se me enganei, corrijam-me.
Homenageamo-las a todas, mas com saudade as que já partiram.

domingo, novembro 01, 2009

Um casal salvadorense


O ti José Cigano e sua mulher, a ti Antónia Rosalina, moravam na íngreme Rua da Salgadeira, à mão direita de quem sobe, logo a seguir ao canto dos Francisquinhos.
Era um simpático casal que vivia do seu trabalho: ele, guarda do Vieiro nos tempos em que das minas se extraíam toneladas e toneladas de minério de ferro, que grandes camionetas transportavam até às siderurgias; ela levava a vida atrás de um tear, que accionava com agilidade e destreza, e do qual se faziam ouvir, ao redor, os sons sincronizados, primeiro da lançadeira a correr entre a urdidura e a trama, para um lado e para o outro, e, depois, a batida vigorosa do pente contra o encosto. Era um afã que se repetia vezes sem conta, até que se acabasse a toalha, o panal ou a manta que a freguesa encomendara...
A fotografia, tirada em 1946, destinava-se ao filho António, que vivia em Moçambique, e foi por isso que ambos se aperaltaram como se vê.
As vistas foram as possíveis daquele tempo: o tosco muro de alvenaria de um quintal, e, ao longe, um pedaço da bonita serra do Salvador.

terça-feira, outubro 27, 2009

As calças de «pana»


Esta foto é de 1946 e foi tirada em Nisa, por ocasião do casamento do meu irmão do meio, o Aníbal, e terá como alguma curiosidade o facto de juntar um Albertino e uma Albertina.
O Albertino sou eu; a Albertina é a única irmã da minha nova cunhada. Acho que se nota, pelas posturas e pelas roupas de ambos, que se trata de uma menina da vila e de um garoto da aldeia.
Mas não foi por isso que a fotografia para aqui veio. Outra coisa me motivou a mostrar-vos a referida imagem: nem mais nem menos do que as minhas calças de pana preta!
Pana era o nome que nas aldeias da raia, como o Salvador, se dava à bombazina – um tecido rústico, grosso, mais barato e resistente do que o surrobeco ou do que o próprio burel.
Estávamos nos tempos fortes do contrabando, e a pana era um dos principais artigos que vinham de Espanha, na conhecida permuta clandestina de géneros e produtos que escasseavam num e noutro lado da fronteira, mercê do atraso económico que, nesses anos, vitimava ambos os povos dos dois países ibéricos.
Nessa espécie de economia paralela, nós mandávamos para lá o café e o açúcar e de lá recebíamos a bombazina e os chocolates.
É evidente que eram muitas mais, e mais variadas, as trocas comerciais que se faziam então. Eu, aqui, acentuo nesses anos, porque, afinal, agora as coisas mudaram: já estão livres as fronteiras e já passa tudo, sem necessidade de contrabandistas, ou de guardas, ou de alfândegas.
Mas, para nossa vergonha, os produtos só circulam num sentido: até as frutas mais vulgares, e os nabos, os agriões ou as cenouras que comemos, nos vêm do lado de lá!!!

sábado, outubro 17, 2009

A malhada


Não sei se sabem, mormente os mais novos, qual o significado que aqui se atribui à expressão em título – A Malhada –, e que eu creio ser específico do Salvador e das vizinhas terras da raia, de ambos os lados da fronteira.
Pois bem: malhadas, nesta acepção, eram propriedades rústicas, mais ou menos extensas, exploradas por um lavrador, as mais das vezes rendeiro, que nelas se fixava com a família, em habitações pouco mais que provisórias e com condições mínimas. O trabalho familiar assegurava as tarefas fundamentais da pecuária e da agricultura, salvo na época das colheitas (ceifa, malha, vindima, azeitona, etc.) em que havia reforço da parte de familiares e amigos e, raramente, de assalariados.
As malhadas tomavam o nome dos seus titulares: era a «Malhada do João Bicho», a «Malhada do Javier Morales», etc.
A foto foi tirada na Malhada do Zé Mendonça, lá p’ra trás, pr’ás Naves. Foi no Verão de 1965, e documenta um agradável piquenique à sombra duma azinheira: manta de trapos estendida no chão; ensopado de borrego fumegando nos pratos e pão-trigo cozido em casa; «palhinhas» funcionando; melancia e cântaro de barro com água para refrescar; lenço ao pescoço e chapéu de palha por mor do calor de Agosto...
... até o Alberto, um pastor-como-membro-da-família-Mendonça, largou o rebanho e veio até à sombra da azinheira, mais o seu fiel rafeiro, preencher a foto e tomar lugar à «mesa».