segunda-feira, junho 21, 2010

A cantareira


A cantareira era uma peça de mobília fundamental nas humildes casas de aldeia do tempo dos nossos avós. Muito parecida com o que agora chamamos de estante para livros, era uma estrutura de madeira, formada por três ou quatro prateleiras, em que a mais baixa ficava geralmente à altura da cintura de uma pessoa e servia de poial para colocar os cântaros de barro (um ou dois) com água para beber. A boca dos cântaros era tapada com uma tijela, e sobre esta repousava um pucarinho, com o qual se retirava a água para bebermos. Esta vinha fresca da fonte; os cântaros eram transportados pelas nossas mães, à cabeça, com a ajuda da imprescindível molídia ou rodilha. Para a fonte iam vazios, deitados; de regresso vinham cheios e em pé, num milagre de equilíbrio que muito nos admirava como crianças. Lembramos aqui a famosa adivinha :– Que é, que é, que vai deitado e vem em pé?
Nas prateleiras cimeiras eram alinhadas as mais vistosas louças da família, que, na maior parte dos casos, consistiam em alguns pratos e tijejas, púcaros, travessas e pelanganas, de feira, pintados com motivos campestres e saborosas quadras populares, como esta: Os pratos da cantareira / Estão sempre tlim-tlim / Assim é o meu amor / Quando está ao pé de mim.
Toda a cantareira era como uma espécie de montra, bem cuidada e ornamentada, onde a dona de casa se revia: alvos panos de linho ou de renda a cobrir os cântaros; artísticas e coloridas tiras de papel recortado (às vezes de jornal) pendiam das prateleiras, enfeitando-as. Pela cantareira se avaliava também a solidez do lar e a função incomparável da mulher e da mãe na família daquele tempo: Vai beber à cantareira / A silva que nasce na escada / Sempre parece solteira / A mulher que é bem casada.

Imagem: gentileza do Núcleo Museológico da Liga de Amigos de Aranhas.

sexta-feira, junho 11, 2010

Hoje como ontem


Atravessamos, presentemente, uma grave crise económica, que pune essencialmente os estratos mais baixos da gente portuguesa, sacrificando, de forma injusta e brutal, os mais humildes e desfavorecidos.
Vozes se levantam a toda a hora, clamando contra a má distribuição da riqueza (que deveria ser de todos), que o mesmo é dizer contra a má repartição dos sacrifícios impostos pela citada crise (que deveriam caber, também, a todos).
Vivemos nós tempos modernos, onde se fala em democracia, em igualdade de oportunidades, de direitos e de deveres, bem como noutras maravilhas antes desconhecidas.
Nos nossos tempos de juventude, no nosso Salvador, vivia-se a agora chamada ditadura obscurantista dos meados do século passado, e a localidade era uma apagada aldeola raiana da Beira Baixa, apesar de rodeada de searas, de floresta, de vinhedos e olivais, entretanto quase erradicados.
Mas já havia as tais vozes que clamam no deserto, inacessíveis à surdez dos políticos. Repare-se no verso seguinte, do livrinho da imagem, escrito em 1949 pelo guarda-fiscal e poeta popular António Vaz Leitão (1898-1977), um monsantino que passou grande parte da sua vida em Salvador:

Eu gostaria de saber,
Tanto parasita a comer
Sem pensarem noutra lida,
Se quem trabalha honradamente
Tem obrigação permanente
De os governar à boa vida?...

sábado, maio 29, 2010

Entre Monsanto e Penamacor


A imagem que hoje aqui trazemos é o diploma legal pelo qual a rainha D. Maria II, fez suprimir o concelho de Monsanto, a que então pertencia a Aldeia do Salvador, que assim transitou para a dependência do concelho de Penamacor.
Os salvadorenses mais idosos, porque viveram um tempo de horizontes menos vastos e flexíveis, ainda se lembrarão bem de que existia uma relação muito forte e próxima entre Salvador e Monsanto, muito maior do que entre Salvador e Penamacor.
De facto, verificava-se naquele tempo uma grande fusão familiar salvadorense-monsantina, sobretudo nos lugares do Pomar e da Serra, como era, também, bastante comum os de Salvador terem propriedades agrícolas no limite de Monsanto, e vice-versa.
Monsanto ficava a metade da distância de Penamacor, o que também pesava no sentimento das pessoas. Ia-se a Monsanto, ao mercado, para comprar uma simples peça de louça ou uma ferramenta; a Penamacor já só se ia às feiras mais importantes, já porque os seus mercados eram menos fartos, já porque a distância era bem maior e menos prática para ir a pé.
Era ainda de Monsanto que se mandava vir o médico ou a parteira, e era aqui, também, que se encontrava o terminal de camionagem habitualmente usado nas deslocações para Castelo Branco, para Lisboa ou para outros destinos.
Hoje em dia tudo é diferente, e os mais novos só saberão destas coisas se os mais velhas lhas contarem.

quinta-feira, maio 13, 2010

Quinta-Feira da Ascensão

Foi hoje Quinta-Feira da Ascensão, festa religiosa ligada à Páscoa, que, no nosso Salvador, era um dos dias santos de guarda mais importantes, considerado, até, como «o dia mais santo do ano».
A única actividade permitida, manhã cedo, era a conhecida apanha da espiga, que consistia num ramo de folhas e flores campestres simbolizando o pão, o azeite e o vinho, bem como o milagre da vida, sempre renovado em cada primavera.
A missa evocava a ascensão de Jesus Cristo aos céus, e um silêncio de paz invadia os salvadorenses do tempo dos nossos avós. O meio-dia era «a hora». Dizia-se, então, que, a essa hora, os ribeiros paravam de correr, que o leite parava de coalhar, que o pão não levedava e… que nem os passarinhos iam ao ninho. «Nada bulia», era o termo utilizado.
A «espiga» era pendurada na cantareira até ao ano seguinte. Entretanto funcionava de tamismã para que não faltasse o pão e o azeite, e de amuleto contra as intempéries e os azares. Em caso de trovoadas, uns pedacinhos da espiga lançados no lume, apaziguavam os elementos enfurecidos.
Uma tradição deste dia, que o Salvador doutros tempos acarinhava, e que não era muito comum noutros lugares, era a largada de passarinhos, normalmente andorinhas, na igreja, à hora da missa. As avezinhas cruzavam, assustadas, o interior do templo, em todas as direcções, até que conseguiam dar com uma saída para o exterior.
Estas tradições, hoje praticamente perdidas, explicam a inocente e pura consciência dos nossos antepassados rurais, no seu apego à divindade e à terra-mãe, que, ciclicamente, lhes revovavam a paz, a esperança, e lhes propiciavam o «pão nosso de cada dia».

sexta-feira, maio 07, 2010

Dois salvadorenses ilustres


A propósito do tão antigo como popular meio de comunicação que se publica, evocamos hoje aqui dois salvadorenses ilustres, e dois homens extraordinariamente importantes no Salvador de outros tempos.
Através do referido bilhete-postal, de 14 de Setembro de 1916, correspondem-se sobrinho e tio (o assunto da correspondência é irrelevante), um em Salvador e outro em Coimbra. São, respectivamente, José Vicente Lopes (1897-1969) e José Candeias da Silva (1887-1959).
José Vicente Lopes, aqui com 19 anos, viria a ser professor de instrução primária, de grande saber e competência, formador de várias gerações de salvadorenses, que beneficiaram das sua forma insinuante de ensinar e do seu impecável exemplo moral e cívico. Foi ainda um devotado servidor do povo da sua terra, durante longos anos, através da prestação de diferentes serviços públicos – cargos gratuitos naqueles recuados tempos! –, nomeadamente a Junta de Freguesia, conseguindo o salto qualitativo da água e da electricidade ao domicílio, do telefone, do transporte público colectivo, dos arruamentos, da estrada e dos caminhos, colocando o Salvador a par das outras aldeias mais progressivas da região. Distinguir-se-ia, ainda, nos sectores agrícola e industrial. No primeiro, são de assinalar a modernidade dos seus métodos, com os quais obtinha boas produções e excelentes vinho e azeite; no segundo, foi inovador na mecanização da moagem de farinhas, estabelecendo, em Salvador, uma unidade fabril que moía os cereais da terra e de muitas outras terras das redondezas. Temos a promessa da autarquia de eternizar a memória do professor José Vicente Lopes, como figura de referência de Salvador. Aguardamos ansiosamente.
José Candeias da Silva tinha nesta data 29 anos incompletos e finalizava o curso de Direito na Universidade de Coimbra, cidade onde já obtivera o curso do magistério primário (1912), iniciado em Viseu… depois de ter deixado o Seminário da Guarda, onde chegara a receber ordens menores e de subdiácono! O bilhete-postal trata-o por doutor, o que, aliás, confirma idêntica forma de tratamento que tivemos oportunidade de constatar noutros documentos. Teve, em Coimbra, condiscípulos que seriam mais tarde célebres, como Oliveira Salazar e Gonçalves Cerejeira. Era homem de vasto saber, como atestam duas sebentas que publicou, intituladas Economia Social e Sucessões. Inesperadamente, e sem que nada o fizesse prever, Candeias da Silva abandonou Coimbra e os estudos, regressando a Salvador, em 1918, onde passou o resto da sua vida. Estava demente. Era, apesar disso, uma figura popular, respeitadora e muito respeitada por todos. Nos momentos de alguma sanidade mental, recolhia-se em casa, vagueando de noite pelas propriedades da família. Há provas de que escrevia muito. Fazia-o diariamente, em agendas e papéis dispersos. Coisas sem nexo misturadas com nacos de escrita erudita. A maioria dos seus escritos foram destruídos por familiares, por ignorância. O neto Libério, que viveu na Alemanha, é que conseguiu alguns, poucos, escritos desgarrados, nomeadamente notas tipo diário e versos sobre a Santa Sofia e a Senhora da Azenha.
Não fora a triste reviravolta que a vida deu em 1918, José Candeias da Silva poderia ser hoje o marco cultural e o património maior da nossa terra, que bem precisa de referências que lhe dêem a visibilidade e a projecção que merece.

quarta-feira, abril 21, 2010

Mês de Abril


Belo dia em que o Nelson exibe aqui os seus felizes nove aninhos, de visita ao tio Albertino, na sua casa da Rua da Cinza, em Salvador.
Ligava-os uma amizade e um carinho inexcedíveis, que perdurarão muito para além da sua partida deste mundo, na flor da idade.
É de 1987 esta foto do Nelson José Mendonça Afonso (16 de Agosto de 1978-24 de Abril de 2003).

23 de Abril


quinta-feira, abril 15, 2010

Notáveis de Salvador


Esta foto de 12-4-1953 já aqui esteve quando nos referimos à ordenação e missa nova do padre Henrique da Cruz Monteiro (ao centro do portal). Volta aqui de novo para aludirmos a algumas das personalidades ali presentes, que foram figuras de grande notabilidade da nossa terra.
À esquerda do jovem sacerdote está o professor José Vicente Lopes, educador exímio de gerações de alunos, que dele receberam uma 4.ª classe de elevado nível, e autarca competente e dedicado, responsável pelo nosso salto qualitativo duma aldeia significativamente atrasada, para uma povoação dotada das condições básicas de água, luz, telefone, etc. No lado direito vemos o doutor Júlio da Gama Moutinho, sobrinho e herdeiro de D. Júlia Gama, antiga grande proprietária de terras em Salvador e que ficou recordada como sua benemérita. O sobrinho herdar-lhe-ia também esta qualidade, devendo-se-lhe várias doações aos salvadorenses: de terrenos para fruição pública (extensão do cemitério, instalações desportivas...), e da sua própria residência senhorial, para instalação do Centro de Dia de Salvador.
O ancião que vemos à esquerda da foto é João da Cruz Monteiro, que teve em Salvador um grande estabelecimento comercial, onde se podia comprar de tudo, e, por isso, atraía imensa clientela das redondezas, incluindo do lado de lá da raia, facto que contribuiu para que a nossa terra fosse bastante concorrida e positivamente conhecida. Seu filho Francisco da Cruz Monteiro (atrás de si na foto) daria seguimento à referida actividade comercial.
À frente, à nossa esquerda, vê-se o padre António Robalo Ramos, que foi pároco de Salvador durante cerca de vinte e cinco anos e pessoa muito considerada por toda a população.
Participantes na missa nova, vêem-se ainda outros sacerdotes, todos com alguma ligação a Salvador ou ao novo padre. São eles: padre Baltasar da Ressurreição, padre César Fatela, padre Jaime Soares Ribeiro, padre Artur Ribeiro e padre António Crespo.

Foto e dados informativos do padre Henrique C. Monteiro.

domingo, março 28, 2010

A visita pascal ou «as boas-festas»


No final da década de trinta, quando esta fotografia foi feita, ainda a visita pascal (que as pessoas conheciam por «dar as boas-festas») era um acontecimento da máxima importância para as gentes laboriosas e humildes na nossa aldeia, e a marca indelével do Domingo de Páscoa. Após a missa, o pároco calcorreava toda a povoação, para abençoar as casas e as famílias. Fazia-se acompanhar do sacristão e de um séquito de ajudantes ou acólitos, entre os quais dois meninos da catequese, que levavam a campainha e a caldeirinha da água benta, e alguns homens para carregarem as ofertas dos casais. À chegada, o chefe da família recebia o pároco e conduzia-o junto dos seus. O padre lançava a bênção e aspergia as pessoas e a casa com água benta. O sacristão dava a cruz a beijar e a visita passava à família seguinte, enquanto os referidos ajudantes recolhiam a oferenda, que raras vezes era dinheiro, mas quase sempre queijos, ovos, galinhas, ou outros produtos de casa. A visita pascal terminava já noite dentro, e, quando o pároco regressava, aguardava-o um grupo de cantadeiras, com adufes, que lhe cantavam as «Alvíssaras», e às quais o padre retribuía com a oferta de amêndoas.
Na imagem, o sacerdote é o padre Jaime Soares Ribeiro (substituído em 1945 pelo padre António Robalo Ramos) e o menino da campainha é o futuro padre Henrique da Cruz Monteiro, já várias vezes referido neste blogue, e único padre nascido em Salvador, até ao momento.

Foto cedida pelo padre Henrique da Cruz Monteiro

domingo, março 21, 2010

Casamento na Páscoa



Vai brevemente fazer 41 anos que a Benvinda Caiado e o Manuel Gonçalves posaram nestas belas fotografias, à porta da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, matriz da nossa terra. Foi num belo dia de primavera, logo a seguir à Páscoa.
Acabavam de ligar as suas vidas pelo casamento, num acto feliz em que foram acompanhados por grande número de convidados, familiares e amigos. Infelizmente, o Manuel partiria precocemente, numa altura em que ainda era grande a esperança de vida.
Não o suspeitariam os noivos nem os convidados, mas uma efeméride curiosa, deste dia 7 de Abril de 1969, foi a criação da ARPANet, no Pentágono (EUA), para ligar bases de dados militares. O extraordinário desenvolvimento que se seguiu, culminaria, em cerca de uma década, com o surgimento da Internet, que em cada momento interliga muitos milhões de pessoas e que nos permite, a nós, a partilha destas interessantes imagens.
Fotos cedidas pela Benvinda Caiado.

domingo, março 14, 2010

Nos anos quarenta


Mais um regresso ao passado salvadorense e aos anos quarenta do século passado.
A senhora do centro é a Dona Margarida Robalo, filha do antigo comerciante José Robalo da Cunha, senhora muito considerada e, então, companheira do Padre Zé – feitor da rica Casa Seabra –, que, não sendo salvadorense, foi um grande e dedicado amigo da nossa terra.
À sua esquerda, vemos a «Menina» Mariazinha Monteiro, filha do comerciante João da Cruz Monteiro (e irmã do padre Henrique), que foi dedicada e extremosa catequista de imensas crianças, que a adoravam. Pessoa de reconhecida bondade, a sua morte, aos 40 anos, causou enorme consternação e deixou o Salvador de luto.
A outra personagem, menina prendada e estudante zelosa, é a Irene Lopes, filha do proprietário Rui Lopes, homem muito conceituado e esclarecido, que não hesitou em aplicar os seus rendimentos, e muitos sacrifícios, prioritariamente na educação superior dos seus três filhos (a seguir à Irene viriam o Helder e a Maria Adelaide), tendo-se em conta que, ao tempo, era extremamente difícil e dispendioso mandar filhos a estudar, para Castelo Branco ou mais longe ainda.

Foto cedida pelo padre Henrique.

terça-feira, março 09, 2010

No balcão à fresca


O Salvador teve sempre um clima muito rigoroso. Invernos muito frios metiam as pessoas dentro de casa, escarrapachadas sobre a braseira de carvão de esteva, ou arrastando os tropeços em direcção à lareira onde grossos rachões de lenha faziam a boa brasa acolhedora. Em tempos de canícula, era ver a família porta fora, a espalhar-se pela escadaria de pedra, à medida que a sombra refrescava os degraus escaldantes. Num e noutro caso, privilegiavam-se a conversação e a confraternização, militantes e saudáveis, que as exigências dos tempos modernos vieram retirar do seio das famílias de agora.
Não sabemos bem a data desta foto tirada no balcão do Américo e da Lena, mas sabe-nos bem rever aqui a própria Lena, o Ti Vítor (já desaparecido), a filha Idalina, o enteado Vítor (de raspão), e todos aqueles jovens que agora já o não serão tanto assim.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Padre Henrique


A foto supra não está nas melhores condições, mas regista um acontecimento único na história da nossa aldeia. Trata-se da primeira missa (ou Missa Nova) de um destacado salvadorense, o padre Henrique da Cruz Monteiro.
Era meio-dia de 12 de Abril de 1953. A igreja matriz de Nossa Senhora da Oliveira foi demasiado pequena para toda a gente que queria assistir à celebração, e muitos ficaram lá fora, povoando o adro.
Nesse dia o Salvador estava em festa e registava um movimento extraordinário, já pelo acontecimento em si, já porque a família do jovem padre gozava de grande consideração na nossa aldeia e nas povoações vizinhas.
Finda a missa, uma multidão de gente dirigiu-se para junto da casa da Família Monteiro, em atitude espontânea de carinho e de júbilo (ver post de 24 de Março de 2008).
Para além do almoço que a família ofereceu aos convidados, o novo sacerdote fez questão de que fosse servida, também, uma refeição aos pobres de Salvador, numa manifestação de grande religiosidade e de humanismo, que o caracterizariam pela vida fora.
O padre Henrique, já octogenário e felizmente ainda entre nós, foi o único sacerdote católico que a nossa terra viu nascer até hoje. Este facto materializa apenas uma das muitas razões para que Salvador Barquinha d’ Oiro: blogue do Salvador de outros tempos aqui lhe deixe esta modesta homenagem.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nas férias grandes


Nos longínquos anos quarenta, a visita anual dos salvadorenses ausentes da terra, e o fim do ano escolar, com o inerente regresso dos estudantes, faziam a diferença nos verões do Salvador. Naquele tempo, as férias grandes preenchiam por completo a estação estival, e boa parte dos estudantes de fora aproveitava-as plenamente, ficando todo este tempo em casa de familiares residentes na aldeia.
A foto foi-nos enviada pelo ilustre conterrâneo e amigo, Padre Henrique da Cruz Monteiro, de cuja carta transcrevemos algumas linhas:
«Envio-lhe uma foto dos anos 40, de um grupo de jovens estudantes, que nas férias se encontravam no Salvador, para conviverem e fazerem passeios pelos campos, para gozarem da beleza da natureza e do ar puro que não encontravam nos meios citadinos.
Os rapazes: Amadeu Afonso, Henrique da Cruz Monteiro, Zeca Silva, Alexandre Cancelas, Aires Robalo e outro que não identifico.
As meninas: Hermínia Borges, Maria de Lurdes (Milucha), Ilda Silva, Fernanda Silva e mais duas que não identifico».

Obrigado ao Padre Henrique, que assim vem enriquecer este blogue com mais um saboroso momento dos bons velhos tempos do nosso Salvador.
Se, porventura, alguém reconhecer as restantes personagens aqui não identificadas, teremos o maior gosto em divulgar os seus nomes.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

O fato de «guardar»


Era, com certeza, domingo: dia em que o Salvador vestia o seu fato «de guardar» e enchia os locais de lazer com a sua gente alegre e sadia, para o divertimento ou para o mero descanso da afanosa semanada.
Estes rapazes, todos eles já a contas com a tropa, passeavam a sua dispensa de fim-de-semana estrada acima, em busca de sítio asado para tirar o retrato.
Passavam à Senhora de Fátima quando repararam neste belo Morris Minor, que preenchia, à maneira, um belo fundo para a imagem. E ninguém diz, cinquenta anos passados, que o automóvel não era seu e que não tinham chegado de um agradável passeio por entre as covas e os caramouços de brita da macadamizada e sinuosa estrada do Salvador para as Aranhas.
Só não me lembro é se o baile era lá ou se era cá.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Eram meninas


Eram meninas há sessenta anos.
Foram passear até à capela de Santa Sofia, como era hábito «sagrado» nos domingos à tarde. Atrás está a Lurdes Leitão, a Milúcia, a Alda Peres e a Maria Alice Afonso; à frente vemos a Patrocínia Ferreira e a Maria Augusta Afonso.
Alardeiam beleza e juventude, e sorriem-nos as promessas de futuro que ficaram registadas nesta bela imagem.
Algumas já nos deixaram, mas poderemos ver aqui como elas eram, todas, graças a esse extraordinário invento que foi a fotografia.
A foto foi cedida pela Maria Alice.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Prof. José Vicente Lopes – a homenagem que falta


Entre 1939 e 1965 contou a nossa terra e os seus rapazes com um mestre-escola de grande nível. Com o seu extraordinário saber, a sua elevada competência profissional e o seu natural humanismo, o professor José Vicente Lopes (1897-1969) preparou para a vida várias centenas de alunos, ensinando-lhes uma instrução primária altamente exigente e disciplinarmente muito variada e completa.
Numa altura em que raros alunos tinham oportunidade de prosseguir estudos, a preocupação do Professor era dotá-los com diferentes conhecimentos, que não se ficavam pelos programas oficiais, mas, antes, abrangiam uma gama imensa de teorias e práticas essencialmente dirigidas aos problemas que a vida real poderia colocar às crianças de 11 ou 12 anos que deixavam a escola e, subitamente, se encontravam perante a vida activa, num tempo e numa terra em que, para almejar um emprego, havia que emigrar, no mínimo, para Lisboa.
O professor José Vicente Lopes, quando saia da escola, ocupava, ainda, a maior parte do seu tempo em tarefas e serviços prestados aos seus conterrâneos, como sejam funções na Junta de Freguesia, no Posto do Registo Civil, no juizo de
conciliação e solução de conflitos entre vizinhos, ou em muitos outros casos de ajuda e de conselho às pessoas que recorriam aos seus conhecimentos, prestígio e experiência. Todos estes encargos eram gratuitos, bem como as atrás referidas funções oficiais, ao tempo não remuneradas.
Em vida, José Vicente Lopes foi condecorado, pelo Presidência da República, com a Ordem da Instrução Pública, e também muito justamente homenageado pelos seus alunos.
Porém, ele foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores figuras de Salvador, tendo marcado a sua época de forma indelével.
Mal vai a terra-mãe que não honra os filhos que a dignificam e engrandecem.
O professor José Vicente Lopes merece que o seu nome seja devidamente gravado na sua terra, para que o seu exemplo, tão presente na memória daqueles que tiveram a dita de o conhecer, fique também na história de Salvador e perdure pelas suas futuras gerações.

domingo, janeiro 10, 2010

1.ª Comunhão


Passados que são os dias das chamadas Festas de Natal e Ano Novo, voltamos à actividade normal do Salvador barquinha d‘ oiro: blogue do Salvador de outros tempos, que é a de recordar, em textos ou em imagens, o passado da nossa terra e da suas gentes.
A imagem de hoje mostra um lindo grupo de jovens, infantes e adolescentes, num ambiente de primeira comunhão, que era, então, um acontecimento de grande importância na pacatez social das nossas aldeias, ansiosamente aguardado pelas crianças, carinhosamente preparado por párocos e catequistas, atentamente acompanhado pelos pais e pelos professores e um espectáculo dominical a não perder por toda a população.
A felicidade e a alegria estão estampadas nos rostos dos retratados, sem dúvida abençoados por um daqueles claros e luminosos dias primaveris, que o nosso próprio imaginário mantém, ainda bem vivos, do Salvador de outros tempos.

Foto (1960?), cedida pelo Frederico Nuno Vicente Lopes

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Ano Novo?!


Acaba um ano e logo outro começa.
Continua esta eterna contradança
De iludir as gentes com a «mudança»
Do que nunca muda, embora pareça.

É, cada novo ano, nova promessa
Que impele a retomar a confiança.
É mais um desengano para a esperança,
E, de novo, a desilusão regressa.

Ó mortal, deixa-te de calendários!
Crê apenas no momento de agora!
Se também sonhaste, p’la vida fora,

E tiveste crenças e anseios vários,
Não queiras viver estes meus calvários...
Recusa o ano: manda-o embora!

Lisboa, 1987.
Albertino Calamote, Dor e Poesia: sonetos, Lisboa, Edições Colibri, 1999.

sábado, dezembro 19, 2009

Boas Festas

Salvador barquinha d'oiro deseja, a todos os seus leitores e amigos, boas festas de Natal e um Ano Novo sem sobressaltos e muito feliz.