segunda-feira, setembro 27, 2010

Verão de 1950



Verão de 1950. Está de férias, no Salvador, Clemência Caiado, com seu marido e filhas. Trata-se, apenas, de uma pequena parte da numerosa família salvadorense dos Caiados que, em tempos, se repartia entre o Salvador e o Norte de Angola, onde, convocando sempre mais parentes, se foram concentrando até atingirem um número bastante elevado de membros, quando, em consequência da atribulada descolonização revolucionária, tiveram de largar tudo o que juntaram e possuíam na terra onde vertiam o seu laborioso e honrado suor, onde viviam e tiveram filhos; naquela terra que tinham como sendo também a sua terra.
A família Caiado era das mais conceituadas da nossa terra: modestos lavradores, mas gente da mais trabalhadora, da mais pacata e da mais séria que o Salvador tinha.
As fotografias são do mesmo tempo, apesar da curiosidade de mostrarem diferentes «meios de transporte». Há um núcleo de gente mais jovem que figura em ambas as imagens: a própria Clemência Caiado e as filhas, a Fernanda Silva, a Ilda Gonçalves, a Hermínia Borges. Na de cima vemos ainda: Manuel Caiado e mulher – os pais –; a Carolina Borges; a Emília, mulher do sargento Silva e mãe da Fernanda; um casal que não sei identificar; a Laura Robalo e, finalmente, Zeferino Miguel (cabo da Guarda Fiscal de Salvador, marido de Carolina, pai de Hermínia, vizinhos e amigos da família Caiado).
Fotos cedidas por Ilda Gonçalves e seu marido Leonel Salvado.

terça-feira, setembro 21, 2010

Zé Manel Robalo


Quando já se passaram os setenta, parece que rejuvenescem as nossas lembranças de juventude: da teia enorme de amigos, de primos, de tios e de outros familiares, e até de vizinhos, que compunham a nossa corte de então; do fantástico bulício dos quotidianos da nossa aldeia, com os trabalhos do campo, a escola, a catequese, a animação domingueira, as festas…
Nos papéis deixados pelo meu pai, estava esta imagem publicitária de um artista - Amaral Roballo -, com uma dedicatória simples: «Para os compadres»
Ora, o Amaral Roballo, que já andará perto dos setenta, era efectivamente o filho único de meus padrinhos Adozinda Amaral e José Robalo (daí tratar os meus pais de compadres). Foi meu companheiro de garoto, se bem que um pouco mais novo, e era meu vizinho de rua, para além da proximidade familiar já referida.
A vida, porém, tem os seus rumos para cada um, os quais, normalmente, vão divergindo à medida que vamos crescendo. O percurso do Zé Manel incluiu África, nomeadamente Angola, e foi parar no Algarve, onde casou e acabou por se radicar.
Malfadadamente, muito poucas vezes nos encontrámos depois de homens.
Não sei se o Zé ainda pratica vida artística, uma vez que ele foi sempre extraordinariamente dotado para as artes do espectáculo e para a comunicação em geral.
A imagem dá disso boa conta, mas funciona aqui, principalmente, como a oportunidade de Salvador Barquinha d’Oiro - Blogue do Salvador de Outros Tempos homenagear um destacado salvadorense e um muito prezado amigo de infância.

domingo, setembro 12, 2010

Gente do meu tempo




No longínquo ano de 1963, mais precisamente no dia 17 de Abril, contraíam matrimónio, na igreja de Salvador, dois jovens e particulares amigos do meu tempo: a Lurdes Arrojado e o Zeca Amaral (o Zé era meu companheiro das tropelias e folguedos de juventude; a Lurdes ficou minha «comadre», a partir duma das cerimónias pagãs da célebre Quinta-Feira de Comadres, que comemorávamos rigorosamente na Quaresma daquele tempo.
O celebrante foi o padre António Robalo Ramos, e nas fotos podemos também ver muitos familiares e amigos dos noivos: os mais velhos já desaparecidos, para darem lugar aos que, então, eram crianças e jovens cheios de vida.
(As fotos foram cedidas pela Ilda e pelo Leonel Salvado)

segunda-feira, setembro 06, 2010

Figuras de Salvador


Salvador Barquinha d'Oiro vai hoje lembrar o conterrâneo Tó Cataninho (1926-1983), uma figura das mais castiças da nossa terra. De seu nome António Ricardo, era filho de Ricardo Caetano e de Maria Serrano (vulgarmente conhecida como Roca).
Comunicativo, jovial e folgazão, o Tó era senhor de um chiste sempre pronto e de uma troça implacável de qualquer um que afinasse com as suas graças, nem sempre inocentes. O melhor era mesmo sorrir e deixar passar...
Contrabandista, trabalhando geralmente à noite, passava os dias pelas tabernas, jogando um truco ou uma raioula, sem praticamente ir a casa. Ela não lhe cairia em cima, costumava dizer.
O almoço era uma escapada breve, para uma rápida sopa, e voltar de fatoco de pão e tora de chouriça na mão esquerda e navalha na direita, comendo pela rua a fora, em direcção à partida interrompida, mas não se coibindo, pelo caminho, de gozar o coxo, de arremedar a muda ou de atentar algum velhote que passasse por ele na ocasião.
Costuma dizer-se que homens reinadios são homens bons, e isso era mesmo verdade com o Tó Cataninho.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A festa de Salvador


Aproxima-se mais um primeiro fim-de-semana de Setembro, a data que a aldeia de Salvador dedica à sua entidade religiosa de eleição, Santa Sofia.
Celebrada desde tempos imemoriais – documentadamente desde o início do século XVIII – em seu redor se juntam todos os salvadorenses, residentes ou não, ao ponto de identificarem a Santa Sofia com a sua própria terra, que amam de todo o coração.
Umas vezes mais religiosa, outras mais profana, a festa tem conhecido, no primeiro caso, fama de grande romaria regional, emparelhando com a Senhora da Azenha, com a Senhora da Póvoa, ou, mesmo, com a Senhora do Almurtão; do ponto de vista dos divertimentos populares que proporciona, a Santa Sofia primou sempre por grandes cartazes, tendo, em anos não muito longínquos, preenchido o seu programa com artistas e conjuntos de primeiro plano nacional, quer em projecção artística quer em custos de cachê.
Em tempos de crise as coisas são diferentes, mas nem por isso a festa de Santa Sofia deixa de continuar a ser o catalisador da comunhão anual de todos os salvadorenses.

terça-feira, agosto 10, 2010

A Farda


A farda foi sempre um sinónimo de autoridade e de respeito, pese embora poder também ser associada a regimes políticos autoritários e que se fazem respeitar pela força.
Quando eu era rapaz, andavam fardados os militares, os guardas e os polícias, os funcionários dos comboios, dos eléctricos e dos autocarros; os do correio e dos telefones, os padres, os taxistas, os moços-de-fretes, os cauteleiros e tantos outros profissionais de então. Tempos houvera, de resto, em que até os deputados usavam o seu próprio uniforme...
A farda era, assim, considerada factor de grande prestígio e de honra para a instituição que representava; era motivo de considerável apreço para os cidadãos que se reviam nas suas virtualidades nacionais e sociais; e era condição de inegável garbo, mas também de muita responsabilidade, para os agentes que as envergavam.
Depois do «25 de Abril», as fardas foram desaparecendo, porventura em nome de complexos de antigo regime, ou de modernos conceitos de igualdade e de liberdade, que, entre outros «benefícios», nos impediram de passear, à tardinha ou à noitinha, calmamente, pelos jardins e pelas ruas; de dormir de janela aberta ou com a chave na porta, sem que sejamos barbaramente assaltados, apesar de, é bom que se diga, podermos expressar-nos (quer dizer refilar) sem nos levarem presos.
A imagem é do dia do casamento do meu irmão Aníbal, há sessenta e tal anos, em Nisa, envergando, na mais importante cerimónia da sua vida, a farda de jovem guarda-fiscal.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Fundo da estrada e Cimo da serra


Quando era miúdo, adorava ir brincar para o «fundo da estrada», porque era ali onde a garotada se juntava ao fim da tarde, para as correrias diárias, que duravam até à chamada para a ceia.
Passados alguns anos, as brincadeiras infantis já não ficavam bem e o divertimento passou para o «cimo da serra»: os grupinhos sentavam-se pelos barrocos que ladeiam a estrada, a dar vistas para o Campo Frio, contando anedotas e cavaqueando, durante o cair das tardes, por vezes até noite dentro.
A maioria dos salvadorenses sabe que o «fundo da estrada» é o troço que vai desde a igreja até onde agora é a Junta de Freguesia, e que o «cimo da serra» é a zona da portela da estrada de Salvador quando acaba a subida e começa a descer para Aranhas.
Sempre me fez muito confusão dizerem que o «fundo» era da estrada, e que o «cimo» era da serra. Ninguém me deu uma razão, mas há razões aparentemente sem razão nenhuma!
Ah! A foto é no «cimo da serra», em 1957. Vêem-se três jovens, o Henrique Leitão, o Zé Manel Robalo e eu (o Zeferino Afonso não se vê porque foi o fotógrafo), e dois aspirantes a jovens, os meus primos Zé Manel e Manel António, filhos do meu tio/primo José Arraquel, aos quais, só por isso, consentíamos que ouvissem as nossas conversas de gente crescida.

domingo, julho 25, 2010

Lembrando amigos


Passa o tempo, ficam as recordações do tempo que passou. E muitas são estas quando aquele também já é bastante.
Começara a década de setenta, andávamos pelos trinta e poucos anos de idade e estávamos em Luanda. Era uma altura em que os militares de carreira andavam para lá e para lá, em sucessivas comissões.
Três camaradas, depois três grandes amigos, tiveram a sorte de, à terceira, poderem, finalmente, mandar ir a família para junto de si. E foram alguns meses de franca convivência entre eles e as respectivas famílias, que, assim, cimentaram uma enorme amizade que, apesar dos que já partiram, se continua pelos mais novos, que, de resto, já têm filhos maiores do que eles aqui eram na imagem.
A foto, de 1971, foi tomada no, então, Bairro Salazar, na zona dos quartéis e para os lados do aeroporto. Nela participaram o Abel Figueiredo (que foi o fotógrafo) e, da esquerda para a direita, José Carlos Calamote, Adélia dos Santos, Fátima Calamote, Maria Augusta Calamote, Fernando Monteirinho, Fernando Manuel Monteirinho, Albertino Calamote, Vítor Figueiredo, Pedro Monteirinho, Maria de Lurdes Monteirinho e Maria de Lurdes Figueiredo.

segunda-feira, julho 12, 2010

Água velha / Água nova


Nesta época da água engarrafada (ou engarrafonada) toda a gente bebe água velha. Alguma, até, porventura, já fora do prazo de validade...

O Salvador de outros tempos era conhecido pela abundância e qualidade das suas águas, que jorravam, frescas e gratuitas, das suas nascentes, particularmente da Fonte do Povo e do Chafariz do Cerrado, mais conhecido por Chafariz da Capela. Era também bebida pela população a água doutras fontes rurais, bem como de grande parte dos poços das hortas, sobretudo durante os trabalhos de campo e das regas estivais, em que tinha maior tiragem.

Em nossas casas, a água de beber estava nos cântaros de barro, logo à entrada, sobre a cantareira. No Verão usavam-se ainda as cântaras, ou cantarinhas, também de barro, que, assim que a sombra dava no balcão, se traziam cá para fora, para receberem a brisa da tarde ou da noite.

Só Deus sabe como certas vasilhas de barro faziam a água fresquinha e gostosa de se beber! Não tinha marca nem custava dinheiro. Era água puríssima e rigorosamente nova, substituída todos os dias nos cântaros, porque, diziam as nossas queridas mães: «Logo de manhã arruma-se o asado à telha, porque água de ontem é água velha[1]!».

[1] Na embocadura das nascentes ajustava-se uma telha, que servia de calha para a água correr para dentro dos cântaros, ou asados.

domingo, julho 04, 2010

Lembrando o Ultramar


Ora, o militar sou eu, aqui entre os meus dois irmãos e seus familiares, no cais de Alcântara, em 30 de Junho de 1961, junto ao navio Niassa, à espera de embarcar para o Ultramar.
Não se pode inferir que haja tristeza nos olhares, apesar de se adivinhar também existir aqui um esforço de vontade à recomendação do fotógrafo: – Então... É para a posteridade!
Começavam novos tempos em Portugal e também em Salvador. Apesar de um ou outro salvadorense ir trabalhar para a cidade, até aí a mobilidade dos nossos rapazes resumia-se à vida militar. Era a tropa que vinha tirar os homens da terra, devolvendo-os após lhes ministrar determinada instrução que, para a maioria, era também cívica e cultural para o resto da vida.
Com o problema do Ultramar, a vida militar ficou mais exigente: o tempo de serviço aumentou, a distância e os riscos também, e o recrutamento passou a ser quase generalizado. No Salvador, e nas outras terras, podem contar-se pelos dedos os rapazes que se escaparam ao serviço militar, nos longos treze anos do conflito ultramarino.
Não quero enumerar as consequências nefastas para tanta gente desta geração, que passou e passa dificuldades várias; que perdeu vidas (Salvador deu duas: o Júlio Antunes Sapo e o José Maria da Silva); que esteve e continua a estar esquecida pela Nação.
Pior só o ostracismo e o desprezo que as consciências emergentes do 25 de Abril de 1974 votaram ao enorme esforço desses tantos rapazes do meu tempo, que, aliás, foi altruísta, abnegado e patriótico, como seria impossível agora!
– E se nós, salvadorenses de hoje, tratássemos de honrar e homenagear essa gente, com um singelo monumento na nossa terra?

segunda-feira, junho 21, 2010

A cantareira


A cantareira era uma peça de mobília fundamental nas humildes casas de aldeia do tempo dos nossos avós. Muito parecida com o que agora chamamos de estante para livros, era uma estrutura de madeira, formada por três ou quatro prateleiras, em que a mais baixa ficava geralmente à altura da cintura de uma pessoa e servia de poial para colocar os cântaros de barro (um ou dois) com água para beber. A boca dos cântaros era tapada com uma tijela, e sobre esta repousava um pucarinho, com o qual se retirava a água para bebermos. Esta vinha fresca da fonte; os cântaros eram transportados pelas nossas mães, à cabeça, com a ajuda da imprescindível molídia ou rodilha. Para a fonte iam vazios, deitados; de regresso vinham cheios e em pé, num milagre de equilíbrio que muito nos admirava como crianças. Lembramos aqui a famosa adivinha :– Que é, que é, que vai deitado e vem em pé?
Nas prateleiras cimeiras eram alinhadas as mais vistosas louças da família, que, na maior parte dos casos, consistiam em alguns pratos e tijejas, púcaros, travessas e pelanganas, de feira, pintados com motivos campestres e saborosas quadras populares, como esta: Os pratos da cantareira / Estão sempre tlim-tlim / Assim é o meu amor / Quando está ao pé de mim.
Toda a cantareira era como uma espécie de montra, bem cuidada e ornamentada, onde a dona de casa se revia: alvos panos de linho ou de renda a cobrir os cântaros; artísticas e coloridas tiras de papel recortado (às vezes de jornal) pendiam das prateleiras, enfeitando-as. Pela cantareira se avaliava também a solidez do lar e a função incomparável da mulher e da mãe na família daquele tempo: Vai beber à cantareira / A silva que nasce na escada / Sempre parece solteira / A mulher que é bem casada.

Imagem: gentileza do Núcleo Museológico da Liga de Amigos de Aranhas.

sexta-feira, junho 11, 2010

Hoje como ontem


Atravessamos, presentemente, uma grave crise económica, que pune essencialmente os estratos mais baixos da gente portuguesa, sacrificando, de forma injusta e brutal, os mais humildes e desfavorecidos.
Vozes se levantam a toda a hora, clamando contra a má distribuição da riqueza (que deveria ser de todos), que o mesmo é dizer contra a má repartição dos sacrifícios impostos pela citada crise (que deveriam caber, também, a todos).
Vivemos nós tempos modernos, onde se fala em democracia, em igualdade de oportunidades, de direitos e de deveres, bem como noutras maravilhas antes desconhecidas.
Nos nossos tempos de juventude, no nosso Salvador, vivia-se a agora chamada ditadura obscurantista dos meados do século passado, e a localidade era uma apagada aldeola raiana da Beira Baixa, apesar de rodeada de searas, de floresta, de vinhedos e olivais, entretanto quase erradicados.
Mas já havia as tais vozes que clamam no deserto, inacessíveis à surdez dos políticos. Repare-se no verso seguinte, do livrinho da imagem, escrito em 1949 pelo guarda-fiscal e poeta popular António Vaz Leitão (1898-1977), um monsantino que passou grande parte da sua vida em Salvador:

Eu gostaria de saber,
Tanto parasita a comer
Sem pensarem noutra lida,
Se quem trabalha honradamente
Tem obrigação permanente
De os governar à boa vida?...

sábado, maio 29, 2010

Entre Monsanto e Penamacor


A imagem que hoje aqui trazemos é o diploma legal pelo qual a rainha D. Maria II, fez suprimir o concelho de Monsanto, a que então pertencia a Aldeia do Salvador, que assim transitou para a dependência do concelho de Penamacor.
Os salvadorenses mais idosos, porque viveram um tempo de horizontes menos vastos e flexíveis, ainda se lembrarão bem de que existia uma relação muito forte e próxima entre Salvador e Monsanto, muito maior do que entre Salvador e Penamacor.
De facto, verificava-se naquele tempo uma grande fusão familiar salvadorense-monsantina, sobretudo nos lugares do Pomar e da Serra, como era, também, bastante comum os de Salvador terem propriedades agrícolas no limite de Monsanto, e vice-versa.
Monsanto ficava a metade da distância de Penamacor, o que também pesava no sentimento das pessoas. Ia-se a Monsanto, ao mercado, para comprar uma simples peça de louça ou uma ferramenta; a Penamacor já só se ia às feiras mais importantes, já porque os seus mercados eram menos fartos, já porque a distância era bem maior e menos prática para ir a pé.
Era ainda de Monsanto que se mandava vir o médico ou a parteira, e era aqui, também, que se encontrava o terminal de camionagem habitualmente usado nas deslocações para Castelo Branco, para Lisboa ou para outros destinos.
Hoje em dia tudo é diferente, e os mais novos só saberão destas coisas se os mais velhas lhas contarem.

quinta-feira, maio 13, 2010

Quinta-Feira da Ascensão

Foi hoje Quinta-Feira da Ascensão, festa religiosa ligada à Páscoa, que, no nosso Salvador, era um dos dias santos de guarda mais importantes, considerado, até, como «o dia mais santo do ano».
A única actividade permitida, manhã cedo, era a conhecida apanha da espiga, que consistia num ramo de folhas e flores campestres simbolizando o pão, o azeite e o vinho, bem como o milagre da vida, sempre renovado em cada primavera.
A missa evocava a ascensão de Jesus Cristo aos céus, e um silêncio de paz invadia os salvadorenses do tempo dos nossos avós. O meio-dia era «a hora». Dizia-se, então, que, a essa hora, os ribeiros paravam de correr, que o leite parava de coalhar, que o pão não levedava e… que nem os passarinhos iam ao ninho. «Nada bulia», era o termo utilizado.
A «espiga» era pendurada na cantareira até ao ano seguinte. Entretanto funcionava de tamismã para que não faltasse o pão e o azeite, e de amuleto contra as intempéries e os azares. Em caso de trovoadas, uns pedacinhos da espiga lançados no lume, apaziguavam os elementos enfurecidos.
Uma tradição deste dia, que o Salvador doutros tempos acarinhava, e que não era muito comum noutros lugares, era a largada de passarinhos, normalmente andorinhas, na igreja, à hora da missa. As avezinhas cruzavam, assustadas, o interior do templo, em todas as direcções, até que conseguiam dar com uma saída para o exterior.
Estas tradições, hoje praticamente perdidas, explicam a inocente e pura consciência dos nossos antepassados rurais, no seu apego à divindade e à terra-mãe, que, ciclicamente, lhes revovavam a paz, a esperança, e lhes propiciavam o «pão nosso de cada dia».

sexta-feira, maio 07, 2010

Dois salvadorenses ilustres


A propósito do tão antigo como popular meio de comunicação que se publica, evocamos hoje aqui dois salvadorenses ilustres, e dois homens extraordinariamente importantes no Salvador de outros tempos.
Através do referido bilhete-postal, de 14 de Setembro de 1916, correspondem-se sobrinho e tio (o assunto da correspondência é irrelevante), um em Salvador e outro em Coimbra. São, respectivamente, José Vicente Lopes (1897-1969) e José Candeias da Silva (1887-1959).
José Vicente Lopes, aqui com 19 anos, viria a ser professor de instrução primária, de grande saber e competência, formador de várias gerações de salvadorenses, que beneficiaram das sua forma insinuante de ensinar e do seu impecável exemplo moral e cívico. Foi ainda um devotado servidor do povo da sua terra, durante longos anos, através da prestação de diferentes serviços públicos – cargos gratuitos naqueles recuados tempos! –, nomeadamente a Junta de Freguesia, conseguindo o salto qualitativo da água e da electricidade ao domicílio, do telefone, do transporte público colectivo, dos arruamentos, da estrada e dos caminhos, colocando o Salvador a par das outras aldeias mais progressivas da região. Distinguir-se-ia, ainda, nos sectores agrícola e industrial. No primeiro, são de assinalar a modernidade dos seus métodos, com os quais obtinha boas produções e excelentes vinho e azeite; no segundo, foi inovador na mecanização da moagem de farinhas, estabelecendo, em Salvador, uma unidade fabril que moía os cereais da terra e de muitas outras terras das redondezas. Temos a promessa da autarquia de eternizar a memória do professor José Vicente Lopes, como figura de referência de Salvador. Aguardamos ansiosamente.
José Candeias da Silva tinha nesta data 29 anos incompletos e finalizava o curso de Direito na Universidade de Coimbra, cidade onde já obtivera o curso do magistério primário (1912), iniciado em Viseu… depois de ter deixado o Seminário da Guarda, onde chegara a receber ordens menores e de subdiácono! O bilhete-postal trata-o por doutor, o que, aliás, confirma idêntica forma de tratamento que tivemos oportunidade de constatar noutros documentos. Teve, em Coimbra, condiscípulos que seriam mais tarde célebres, como Oliveira Salazar e Gonçalves Cerejeira. Era homem de vasto saber, como atestam duas sebentas que publicou, intituladas Economia Social e Sucessões. Inesperadamente, e sem que nada o fizesse prever, Candeias da Silva abandonou Coimbra e os estudos, regressando a Salvador, em 1918, onde passou o resto da sua vida. Estava demente. Era, apesar disso, uma figura popular, respeitadora e muito respeitada por todos. Nos momentos de alguma sanidade mental, recolhia-se em casa, vagueando de noite pelas propriedades da família. Há provas de que escrevia muito. Fazia-o diariamente, em agendas e papéis dispersos. Coisas sem nexo misturadas com nacos de escrita erudita. A maioria dos seus escritos foram destruídos por familiares, por ignorância. O neto Libério, que viveu na Alemanha, é que conseguiu alguns, poucos, escritos desgarrados, nomeadamente notas tipo diário e versos sobre a Santa Sofia e a Senhora da Azenha.
Não fora a triste reviravolta que a vida deu em 1918, José Candeias da Silva poderia ser hoje o marco cultural e o património maior da nossa terra, que bem precisa de referências que lhe dêem a visibilidade e a projecção que merece.

quarta-feira, abril 21, 2010

Mês de Abril


Belo dia em que o Nelson exibe aqui os seus felizes nove aninhos, de visita ao tio Albertino, na sua casa da Rua da Cinza, em Salvador.
Ligava-os uma amizade e um carinho inexcedíveis, que perdurarão muito para além da sua partida deste mundo, na flor da idade.
É de 1987 esta foto do Nelson José Mendonça Afonso (16 de Agosto de 1978-24 de Abril de 2003).

23 de Abril


quinta-feira, abril 15, 2010

Notáveis de Salvador


Esta foto de 12-4-1953 já aqui esteve quando nos referimos à ordenação e missa nova do padre Henrique da Cruz Monteiro (ao centro do portal). Volta aqui de novo para aludirmos a algumas das personalidades ali presentes, que foram figuras de grande notabilidade da nossa terra.
À esquerda do jovem sacerdote está o professor José Vicente Lopes, educador exímio de gerações de alunos, que dele receberam uma 4.ª classe de elevado nível, e autarca competente e dedicado, responsável pelo nosso salto qualitativo duma aldeia significativamente atrasada, para uma povoação dotada das condições básicas de água, luz, telefone, etc. No lado direito vemos o doutor Júlio da Gama Moutinho, sobrinho e herdeiro de D. Júlia Gama, antiga grande proprietária de terras em Salvador e que ficou recordada como sua benemérita. O sobrinho herdar-lhe-ia também esta qualidade, devendo-se-lhe várias doações aos salvadorenses: de terrenos para fruição pública (extensão do cemitério, instalações desportivas...), e da sua própria residência senhorial, para instalação do Centro de Dia de Salvador.
O ancião que vemos à esquerda da foto é João da Cruz Monteiro, que teve em Salvador um grande estabelecimento comercial, onde se podia comprar de tudo, e, por isso, atraía imensa clientela das redondezas, incluindo do lado de lá da raia, facto que contribuiu para que a nossa terra fosse bastante concorrida e positivamente conhecida. Seu filho Francisco da Cruz Monteiro (atrás de si na foto) daria seguimento à referida actividade comercial.
À frente, à nossa esquerda, vê-se o padre António Robalo Ramos, que foi pároco de Salvador durante cerca de vinte e cinco anos e pessoa muito considerada por toda a população.
Participantes na missa nova, vêem-se ainda outros sacerdotes, todos com alguma ligação a Salvador ou ao novo padre. São eles: padre Baltasar da Ressurreição, padre César Fatela, padre Jaime Soares Ribeiro, padre Artur Ribeiro e padre António Crespo.

Foto e dados informativos do padre Henrique C. Monteiro.

domingo, março 28, 2010

A visita pascal ou «as boas-festas»


No final da década de trinta, quando esta fotografia foi feita, ainda a visita pascal (que as pessoas conheciam por «dar as boas-festas») era um acontecimento da máxima importância para as gentes laboriosas e humildes na nossa aldeia, e a marca indelével do Domingo de Páscoa. Após a missa, o pároco calcorreava toda a povoação, para abençoar as casas e as famílias. Fazia-se acompanhar do sacristão e de um séquito de ajudantes ou acólitos, entre os quais dois meninos da catequese, que levavam a campainha e a caldeirinha da água benta, e alguns homens para carregarem as ofertas dos casais. À chegada, o chefe da família recebia o pároco e conduzia-o junto dos seus. O padre lançava a bênção e aspergia as pessoas e a casa com água benta. O sacristão dava a cruz a beijar e a visita passava à família seguinte, enquanto os referidos ajudantes recolhiam a oferenda, que raras vezes era dinheiro, mas quase sempre queijos, ovos, galinhas, ou outros produtos de casa. A visita pascal terminava já noite dentro, e, quando o pároco regressava, aguardava-o um grupo de cantadeiras, com adufes, que lhe cantavam as «Alvíssaras», e às quais o padre retribuía com a oferta de amêndoas.
Na imagem, o sacerdote é o padre Jaime Soares Ribeiro (substituído em 1945 pelo padre António Robalo Ramos) e o menino da campainha é o futuro padre Henrique da Cruz Monteiro, já várias vezes referido neste blogue, e único padre nascido em Salvador, até ao momento.

Foto cedida pelo padre Henrique da Cruz Monteiro

domingo, março 21, 2010

Casamento na Páscoa



Vai brevemente fazer 41 anos que a Benvinda Caiado e o Manuel Gonçalves posaram nestas belas fotografias, à porta da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, matriz da nossa terra. Foi num belo dia de primavera, logo a seguir à Páscoa.
Acabavam de ligar as suas vidas pelo casamento, num acto feliz em que foram acompanhados por grande número de convidados, familiares e amigos. Infelizmente, o Manuel partiria precocemente, numa altura em que ainda era grande a esperança de vida.
Não o suspeitariam os noivos nem os convidados, mas uma efeméride curiosa, deste dia 7 de Abril de 1969, foi a criação da ARPANet, no Pentágono (EUA), para ligar bases de dados militares. O extraordinário desenvolvimento que se seguiu, culminaria, em cerca de uma década, com o surgimento da Internet, que em cada momento interliga muitos milhões de pessoas e que nos permite, a nós, a partilha destas interessantes imagens.
Fotos cedidas pela Benvinda Caiado.