quinta-feira, março 10, 2011

Aos Antigos Combatentes


Salvador barquinha d'oiro cumprimenta a Comissão, desejando um enorme sucesso na concretização da feliz iniciativa, e solicita, encarecidamente, o maior interesse e o maior carinho dos seus leitores para o importante e patriótico evento.
Não faltemos, pois, no dia 1 de Junho em Penamacor!

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Lagar do Seabra


Esta foto de 1973, regista uma procissão que vem da capela de Santa Sofia para a igreja matriz de Salvador. O cortejo passa no «Fundo da Estrada» e o grande edifício de alvenaria que se vê em fundo é o Lagar do Seabra.
A nossa terra era, naquele tempo, grande produtora de azeite, dispondo de nada menos do que quatro lagares. Os outros três eram o Lagar do Dr. Júlio, no complexo a que pertence o actual Centro de Dia; o Lagar do Meio, no edifício da nova padaria/confeitaria «O Lagar»; o terceiro era o Lagar Fundeiro, cujo edifício foi recentemente adaptado para alojar o moderno minimercado «Sabor Popular».
O Lagar do Seabra, seria, alguns anos depois, completamente demolido para dar lugar à construção de casas de habitação, não deixando qualquer vestígio para os nossos dias. Era, de todos, o mais antigo e o único que laborava apenas com recurso à força animal, além da humana, evidentemente. Tratava-se de um tradicional «lagar de varas», ainda à boa maneira romana, em que as forças se conseguiam à custa do emprego das leis físicas básicas e das chamadas máquinas simples.
A azeitona, triturada pelas galgas puxadas por juntas de bois, era, em seguida, colocada em sucessivos capachos circulares, depois empilhados e sujeitos ao peso de um enorme tronco de árvore – a vara –, que assim espremia o precioso líquido.
A azáfama que ali se verificava num dia de trabalho era coisa muito bonita de se ver e nós, jovens da altura, ficávamos ali horas a fio, embasbacados, perante a agitação de homens e animais, e perante a monumentalidade daquelas varas de tamanho e envergadura impressionantes.
Aos jovens de agora, recomendamos vivamente a visita a um Lagar de Varas, por exemplo à vizinha povoação de Idanha-a-Velha, que tão bem o soube preservar, num belo museu que lhe dedicou.

A fotografia é do conterrâneo José Morais, a quem peço me desculpe a usurpação.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Salvador em 1937


O documento que aqui se reproduz, e que se encontra no Arquivo da Comissão Fabriqueira da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, matriz de Salvador, é o balanço das contas da festa de Santa Sofia em 1937.
Pelos números envolvidos, podemos ver como eram modestos os festejos, comparados com os de agora. O mesmo não poderá dizer-se da religiosidade, que era, na altura, a componente fundamental da romaria, nomeadamente através do recurso a pregadores afamados, vindos, muitas vezes, de longe.
Elementos da maior importância eram, também, os foguetes e a música que animavam a festa. Certas despesas, como as refeições do fogueteiro e dos músicos eram asseguradas pelas casas mais fartas, que acolhiam um ou mais desses elementos às suas mesas (a inclusão da despesa de dez escudos nas contas deve-se, certamente, a qualquer caso extraordinário).
Uma menção especial para os festeiros e subscritores do balanço – Manuel José Gonçalves, Rui Lopes e José Cristóvão Júnior, homens que eu ainda bem conheci.
Trata-se de três grandes salvadorenses, três homens honrados e notáveis da nossa terra, que muito deram ao Salvador e aos seus conterrâneos, no desempenho de várias funções cívicas, nomeadamente as de Regedor da Freguesia, que era uma autoridade do tipo policial, autêntica, eficiente e gratuita, nas freguesias, figura essa que viria a desaparecer em 1976, na sequência da Constituição da República.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Ano Novo


Cá temos mais um ano novo à nossa porta.
Tem sido costume festejar-se a transição do ano velho para o ano novo, «encorrendo» o ano velho à frente de grande algazarra de testos a cascar com toda a força nas panelas e nos tachos, invariavelmente jogando estes para o lixo no final da chinfrineira.
O que eu vos queria dizer é que, sendo certo que a vida dos Portugueses vai mal, muito por causa da proliferação de tachos – de bons, de grandes tachos –, o que vos queria dizer, de facto, é que vos não poupeis a arrear neles valentemente, assim que o relógio da torre acabe de dar as doze badaladas da meia-noite no dia 31.
E faço votos para que os 365 dias do calendário junto, sejam favoráveis ao Salvador e a todos os seus filhos e amigos, e, se possível, que aos tais tachos, tragam o destino que merecem: o lixo.

domingo, dezembro 19, 2010

Natal 2010 – Ano Novo 2011


Desejamos, profundamente, que todos os salvadorenses, todos os nossos leitores, e as respectivas famílias, passem o Natal felizes.
Desejamos, ainda, que o Ano Novo que aí vem, ao contrário das expectativas, seja uma agradável surpresa para todos.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Assentar praça






Assentar praça, eis algo que já passou à história, e de que é necessário ir falando, para que as gerações mais novas tomem conhecimento de realidades bem diferentes das deste seu tempo.
O serviço militar obrigatório terminou oficialmente em 19 de Novembro de 2004, mas já alguns meses antes deixara de ser feito o recrutamento de conscritos, ou seja, os rapazes com idade de servir à tropa deixaram de ser recrutados e obrigados a ir às sortes, a ir à inspecção, a assentar praça, deixando de ser, assim, retirados, às suas famílias e aos seus empregos, por um período variável, nunca inferior a dezoito meses, mas que poderia ir até três ou mais anos.
O futuro dirá se é bom ou se é mau, mas, no meu tempo, em Salvador, era este um período muito importante das nossas vidas, dado que, sobretudo para os naturais da província, fazer o serviço militar representava um apreciável salto qualitativo em termos das hipóteses possíveis de um futuro diferente, com outras expectativas de qualidade de vida, que a aldeia não podia, naturalmente, proporcionar.
São de 1958 as fotos, deste vosso amigo, que darão uma ideia (favorável) da primeira fase do serviço militar – a instrução – que nos aguardava logo que assentávamos praça.

terça-feira, novembro 30, 2010

«Sarra-se» a Velha


«Sarrar a velha» era um costume muito antigo de Salvador, que consistia numa espécie de serenata destinada a satirizar e a arreliar certas mulheres idosas, já pouco simpáticas de beleza e conhecidas por se irritarem facilmente.
Homens e rapazes folgazões, muniam-se de cortiços de abelhas vazios, que friccionavam com um sarrafo (pau rugoso), produzindo um ruído ensurdecedor e irritante. Aos gritos «sarra-se a velha!, sarra-se a velha!», juntavam grande algazarra de vozes, latas e chocalhos. A chinfrineira obrigava a visada a vir para a rua a gritar com eles e a expressar a sua ira com a «malandragem», que assim atingia os seus objectivos de obrigar a pobre velhota a saltar da cama e a apanhar tamanha «braveira» e irritação.
Pode parecer agora absurdo, mas as pessoas não se escandalizavam com estes actos de chacota e de aparente má-educação perante pessoas idosas, quase sempre escolhidas entre as mais desfavorecidas e sozinhas: era a tradição que, ao tempo, imperava, e fazia parte das diversões inocentes e costumeiras, sempre aguardadas, com ansiedade, na altura própria de cada ano.

Foto: Prof. José Vicente Lopes (1897-1969)

sábado, novembro 20, 2010

Gente bonita de Salvador


O nosso Salvador foi sempre uma terra de gente bonita, e temos hoje mais uma prova disso.
O menino da imagem é o nosso amigo e companheiro de infância Alcino Lopes, que ali faz companhia a sua irmã Alice; as restantes meninas são a Ilda Gonçalves, a Augusta e a Alice Afonso, a Patrocínia Ferreira, a Lurdes Leitão, a Ilda e a Fernanda Silva, a Milúcia, a Alda e a Dulce Frederico. Na fila detrás figuram, «cortadas», mais três pessoas que não conseguimos identificar.
A fotografia é de cerca de 1950 e foi-nos facultada pela Ilda Gonçalves.

sábado, novembro 06, 2010

1890 – Escola em Salvador


1890 foi o ano do ultimato britânico, contra o qual reagiram os Portugueses em geral, e, particularmente, Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, que, nesse ano, compuseram a famosa peça musical que incitava os patriotas «contra os bretões, marchar, marchar», a qual, duas décadas depois, os republicanos adoptariam como o Hino Nacional, sendo, posteriormente, substituídos os «bretões» pelos «canhões»...
Não imaginamos, hoje, como viveria, o Salvador de 1890, tal afronta por parte dos nossos mais antigos aliados, mas podemos ver, através dos mapas da imagem, que, na nossa terra, os meninos e as meninas já iam à escola e em número bastante razoável, tendo em conta o «obscurantismo» que os republicanos apregoavam, referindo-se à fraca alfabetização do país.
Como se vê, a freguesia já tinha um professor, Manuel Vicente Moreira (1868-1941), natural de Salvador, e uma professora, com quem veio a casar, Júlia Maria Rodrigues da Silva, que aqui exercia o magistério.
Manuel Vicente Moreira viria a revelar-se um salvadorense muito ilustre, pelo que uma das ruas de Salvador ostenta o seu nome.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Oito dias antes dos Santos


Antigamente a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. O facto pouco ou nada tinha a ver com o ser da cidade ou da aldeia, com o ter muitas ou poucas posses.
Havia a consciência de que o trabalho é que sustentava a barriga, que não as letras.
As crianças, à idade escolar, já tinham as suas tarefas definidas no seio da família, ajudando na medida das suas forças, já que mais não fosse tomando conta dos irmãos mais novos. As famílias eram numerosas, e a razão principal estava em que a terra sempre foi parca em alimentar as pessoas e todos eram poucos para a amanhar.
Quanto à literacia, arranjava-se sempre quem escrevesse uma carta ou lesse o que dizia o ofício da Fazenda; o resto resolvia-se com o saber da experiência transmitido de pais para filhos.
Adélia dos Santos (1899-1996), a anciã da imagem, era «mulher de guarda», e este, o guarda, era um dos poucos salários certos lá da terra, o que lhe conferia, só por si, um estilo de vida acima da média naquele tempo em Salvador. Porém, e não obstante fosse extraordinária como mulher, como dona de casa, como mãe, etc., inseria-se na grande maioria dos analfabetos daquele tempo.
Não lhe faltava expediente, nem vivência nem cultura: esteve na Alemanha, em Angola e em Moçambique, de visita a filhos que ali residiam à época, mas Adélia dos Santos nunca soube o ano em que nasceu, e, quanto ao dia, dizia, simplesmente, que nascera oito dias antes dos Santos.
É hoje, 25 de Outubro, e dai esta homenagem.
A foto foi tirada em Luanda, no início dos anos setenta. Adélia dos Santos está com a filha Augusta, o genro Albertino, os netos Fátima e Zé Carlos. O aviador é o meu sobrinho Tó Zé, em visita de passagem.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Tempo do Serviço Militar


Os salvadorenses mais novos já não conheceram o serviço militar obrigatório, e dificilmente saberão como ele foi importante para as gerações passadas, que ali tinham a praticamente única forma de libertação do ambiente pesadamente rural e atrasado que marcava as aldeias do interior, mas, também, a oportunidade de aculturação e de contacto com as realidades mais evoluídas da sociedade.
Nos tempos que correm, a civilização, através dos modernos meios de comunicação, vai de encontro às gentes onde quer que se encontrem; naquele tempo era necessário que as pessoas deixassem as suas terras e fossem procurá-la noutras paragens.
Castelo Branco, com as suas unidades militares – Regimento de Cavalaria 8 e Batalhão de Caçadores 6 – era o centro mais próximo, que reunia as centenas de jovens da região, e lhes ministrava, além da formação militar, uma parte muito substancial e importante da formação cívica, moral e cultural para a vida, a ponto de, para a maior parte dos jovens, ser relevante e muito nítida a diferença, para melhor, entre o «antes» e o «depois» do serviço militar.
A foto é de 1959 e mostra, em acção, a fanfarra do Batalhão de Caçadores 6 que, naquele tempo, nos domingos de manhã, tinha por hábito evoluir pelas ruas circundantes do quartel, espelhando o aprumo, o garbo e a disciplina que eram apanágio da formação militar, e tão úteis e necessários eram para a juventude.

terça-feira, outubro 05, 2010

O fascínio da fotografia


Em 1956, no Salvador, ainda as máquinas fotográficas eram artigos raros. Assim que aparecia uma, logo um grupo se reunia para eternizar o momento, e a garotada corria a tomar lugar na cena e a olhar o passarinho. Não adiantava mandá-los arredar.
Nesta ocasião, o local foi a entrada da «nossa escola», na estrada, próximo do Alto da Serra. Eu fiquei do lado de cá, a disparar para o Leonel Salvado, para o Zeca Amaral e para o João Bicho.
Quando disse a «nossa escola», quis mesmo dizer que ela era também a dos pequenos mirones, visto que somente em 1960 deixou de ser a única escola masculina lá da terra.
Foto cedida pelo Leonel Salvado.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Verão de 1950



Verão de 1950. Está de férias, no Salvador, Clemência Caiado, com seu marido e filhas. Trata-se, apenas, de uma pequena parte da numerosa família salvadorense dos Caiados que, em tempos, se repartia entre o Salvador e o Norte de Angola, onde, convocando sempre mais parentes, se foram concentrando até atingirem um número bastante elevado de membros, quando, em consequência da atribulada descolonização revolucionária, tiveram de largar tudo o que juntaram e possuíam na terra onde vertiam o seu laborioso e honrado suor, onde viviam e tiveram filhos; naquela terra que tinham como sendo também a sua terra.
A família Caiado era das mais conceituadas da nossa terra: modestos lavradores, mas gente da mais trabalhadora, da mais pacata e da mais séria que o Salvador tinha.
As fotografias são do mesmo tempo, apesar da curiosidade de mostrarem diferentes «meios de transporte». Há um núcleo de gente mais jovem que figura em ambas as imagens: a própria Clemência Caiado e as filhas, a Fernanda Silva, a Ilda Gonçalves, a Hermínia Borges. Na de cima vemos ainda: Manuel Caiado e mulher – os pais –; a Carolina Borges; a Emília, mulher do sargento Silva e mãe da Fernanda; um casal que não sei identificar; a Laura Robalo e, finalmente, Zeferino Miguel (cabo da Guarda Fiscal de Salvador, marido de Carolina, pai de Hermínia, vizinhos e amigos da família Caiado).
Fotos cedidas por Ilda Gonçalves e seu marido Leonel Salvado.

terça-feira, setembro 21, 2010

Zé Manel Robalo


Quando já se passaram os setenta, parece que rejuvenescem as nossas lembranças de juventude: da teia enorme de amigos, de primos, de tios e de outros familiares, e até de vizinhos, que compunham a nossa corte de então; do fantástico bulício dos quotidianos da nossa aldeia, com os trabalhos do campo, a escola, a catequese, a animação domingueira, as festas…
Nos papéis deixados pelo meu pai, estava esta imagem publicitária de um artista - Amaral Roballo -, com uma dedicatória simples: «Para os compadres»
Ora, o Amaral Roballo, que já andará perto dos setenta, era efectivamente o filho único de meus padrinhos Adozinda Amaral e José Robalo (daí tratar os meus pais de compadres). Foi meu companheiro de garoto, se bem que um pouco mais novo, e era meu vizinho de rua, para além da proximidade familiar já referida.
A vida, porém, tem os seus rumos para cada um, os quais, normalmente, vão divergindo à medida que vamos crescendo. O percurso do Zé Manel incluiu África, nomeadamente Angola, e foi parar no Algarve, onde casou e acabou por se radicar.
Malfadadamente, muito poucas vezes nos encontrámos depois de homens.
Não sei se o Zé ainda pratica vida artística, uma vez que ele foi sempre extraordinariamente dotado para as artes do espectáculo e para a comunicação em geral.
A imagem dá disso boa conta, mas funciona aqui, principalmente, como a oportunidade de Salvador Barquinha d’Oiro - Blogue do Salvador de Outros Tempos homenagear um destacado salvadorense e um muito prezado amigo de infância.

domingo, setembro 12, 2010

Gente do meu tempo




No longínquo ano de 1963, mais precisamente no dia 17 de Abril, contraíam matrimónio, na igreja de Salvador, dois jovens e particulares amigos do meu tempo: a Lurdes Arrojado e o Zeca Amaral (o Zé era meu companheiro das tropelias e folguedos de juventude; a Lurdes ficou minha «comadre», a partir duma das cerimónias pagãs da célebre Quinta-Feira de Comadres, que comemorávamos rigorosamente na Quaresma daquele tempo.
O celebrante foi o padre António Robalo Ramos, e nas fotos podemos também ver muitos familiares e amigos dos noivos: os mais velhos já desaparecidos, para darem lugar aos que, então, eram crianças e jovens cheios de vida.
(As fotos foram cedidas pela Ilda e pelo Leonel Salvado)

segunda-feira, setembro 06, 2010

Figuras de Salvador


Salvador Barquinha d'Oiro vai hoje lembrar o conterrâneo Tó Cataninho (1926-1983), uma figura das mais castiças da nossa terra. De seu nome António Ricardo, era filho de Ricardo Caetano e de Maria Serrano (vulgarmente conhecida como Roca).
Comunicativo, jovial e folgazão, o Tó era senhor de um chiste sempre pronto e de uma troça implacável de qualquer um que afinasse com as suas graças, nem sempre inocentes. O melhor era mesmo sorrir e deixar passar...
Contrabandista, trabalhando geralmente à noite, passava os dias pelas tabernas, jogando um truco ou uma raioula, sem praticamente ir a casa. Ela não lhe cairia em cima, costumava dizer.
O almoço era uma escapada breve, para uma rápida sopa, e voltar de fatoco de pão e tora de chouriça na mão esquerda e navalha na direita, comendo pela rua a fora, em direcção à partida interrompida, mas não se coibindo, pelo caminho, de gozar o coxo, de arremedar a muda ou de atentar algum velhote que passasse por ele na ocasião.
Costuma dizer-se que homens reinadios são homens bons, e isso era mesmo verdade com o Tó Cataninho.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A festa de Salvador


Aproxima-se mais um primeiro fim-de-semana de Setembro, a data que a aldeia de Salvador dedica à sua entidade religiosa de eleição, Santa Sofia.
Celebrada desde tempos imemoriais – documentadamente desde o início do século XVIII – em seu redor se juntam todos os salvadorenses, residentes ou não, ao ponto de identificarem a Santa Sofia com a sua própria terra, que amam de todo o coração.
Umas vezes mais religiosa, outras mais profana, a festa tem conhecido, no primeiro caso, fama de grande romaria regional, emparelhando com a Senhora da Azenha, com a Senhora da Póvoa, ou, mesmo, com a Senhora do Almurtão; do ponto de vista dos divertimentos populares que proporciona, a Santa Sofia primou sempre por grandes cartazes, tendo, em anos não muito longínquos, preenchido o seu programa com artistas e conjuntos de primeiro plano nacional, quer em projecção artística quer em custos de cachê.
Em tempos de crise as coisas são diferentes, mas nem por isso a festa de Santa Sofia deixa de continuar a ser o catalisador da comunhão anual de todos os salvadorenses.

terça-feira, agosto 10, 2010

A Farda


A farda foi sempre um sinónimo de autoridade e de respeito, pese embora poder também ser associada a regimes políticos autoritários e que se fazem respeitar pela força.
Quando eu era rapaz, andavam fardados os militares, os guardas e os polícias, os funcionários dos comboios, dos eléctricos e dos autocarros; os do correio e dos telefones, os padres, os taxistas, os moços-de-fretes, os cauteleiros e tantos outros profissionais de então. Tempos houvera, de resto, em que até os deputados usavam o seu próprio uniforme...
A farda era, assim, considerada factor de grande prestígio e de honra para a instituição que representava; era motivo de considerável apreço para os cidadãos que se reviam nas suas virtualidades nacionais e sociais; e era condição de inegável garbo, mas também de muita responsabilidade, para os agentes que as envergavam.
Depois do «25 de Abril», as fardas foram desaparecendo, porventura em nome de complexos de antigo regime, ou de modernos conceitos de igualdade e de liberdade, que, entre outros «benefícios», nos impediram de passear, à tardinha ou à noitinha, calmamente, pelos jardins e pelas ruas; de dormir de janela aberta ou com a chave na porta, sem que sejamos barbaramente assaltados, apesar de, é bom que se diga, podermos expressar-nos (quer dizer refilar) sem nos levarem presos.
A imagem é do dia do casamento do meu irmão Aníbal, há sessenta e tal anos, em Nisa, envergando, na mais importante cerimónia da sua vida, a farda de jovem guarda-fiscal.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Fundo da estrada e Cimo da serra


Quando era miúdo, adorava ir brincar para o «fundo da estrada», porque era ali onde a garotada se juntava ao fim da tarde, para as correrias diárias, que duravam até à chamada para a ceia.
Passados alguns anos, as brincadeiras infantis já não ficavam bem e o divertimento passou para o «cimo da serra»: os grupinhos sentavam-se pelos barrocos que ladeiam a estrada, a dar vistas para o Campo Frio, contando anedotas e cavaqueando, durante o cair das tardes, por vezes até noite dentro.
A maioria dos salvadorenses sabe que o «fundo da estrada» é o troço que vai desde a igreja até onde agora é a Junta de Freguesia, e que o «cimo da serra» é a zona da portela da estrada de Salvador quando acaba a subida e começa a descer para Aranhas.
Sempre me fez muito confusão dizerem que o «fundo» era da estrada, e que o «cimo» era da serra. Ninguém me deu uma razão, mas há razões aparentemente sem razão nenhuma!
Ah! A foto é no «cimo da serra», em 1957. Vêem-se três jovens, o Henrique Leitão, o Zé Manel Robalo e eu (o Zeferino Afonso não se vê porque foi o fotógrafo), e dois aspirantes a jovens, os meus primos Zé Manel e Manel António, filhos do meu tio/primo José Arraquel, aos quais, só por isso, consentíamos que ouvissem as nossas conversas de gente crescida.

domingo, julho 25, 2010

Lembrando amigos


Passa o tempo, ficam as recordações do tempo que passou. E muitas são estas quando aquele também já é bastante.
Começara a década de setenta, andávamos pelos trinta e poucos anos de idade e estávamos em Luanda. Era uma altura em que os militares de carreira andavam para lá e para lá, em sucessivas comissões.
Três camaradas, depois três grandes amigos, tiveram a sorte de, à terceira, poderem, finalmente, mandar ir a família para junto de si. E foram alguns meses de franca convivência entre eles e as respectivas famílias, que, assim, cimentaram uma enorme amizade que, apesar dos que já partiram, se continua pelos mais novos, que, de resto, já têm filhos maiores do que eles aqui eram na imagem.
A foto, de 1971, foi tomada no, então, Bairro Salazar, na zona dos quartéis e para os lados do aeroporto. Nela participaram o Abel Figueiredo (que foi o fotógrafo) e, da esquerda para a direita, José Carlos Calamote, Adélia dos Santos, Fátima Calamote, Maria Augusta Calamote, Fernando Monteirinho, Fernando Manuel Monteirinho, Albertino Calamote, Vítor Figueiredo, Pedro Monteirinho, Maria de Lurdes Monteirinho e Maria de Lurdes Figueiredo.