segunda-feira, julho 25, 2011

O primos Calamotes

Toda a minha vida me lembro desta fotografia estar numa moldura pendurada na parede da sala da nossa casa. Ela retrata os primos Calamotes, uns primos muito considerados pelos meus pais, que eu ainda conheci e recordo com muita saudade. Não andarei  longe da verdade se afirmar que data, pelo menos, de 1940.
Não saberei dar muitos pormenores sobre o parentesco: sei apenas que não eram primos em primeiro grau, apesar de ele se chamar José Calamote – o mesmo nome de meu pai. A esposa era Maria de Andrade. Moravam na Rua da Salgadeira, no canto em frente da antiga escola feminina. Não tinham filhos, mas criaram consigo uma afilhada (Maria), que é também de família Calamote, e que veio a herdá-los.
José Calamote era reformado da Guarda Fiscal e era homem de um porte imponente: alto, forte e bem-posto, como, de resto, a imagem bem mostra.
Estão ligadas a este casal gratas recordações da minha infância, porventura até as mais remotas que conservo. Mantenho ainda indeléveis os agradáveis serões de inverno que frequentemente íamos passar à casa deles, os quais começavam sempre pelas conversas sérias, próprias das vidas e das preocupações dos adultos, mas que, passado algum tempo, e perante a minha impaciência, davam lugar às larachas, aos contos e às histórias que eu tanto gostava de ouvir. Acontecia, ainda, ser convidado a emparceirar  no jogo do burro com que invariavelmente acabavam o serão. Este era um jogo de cartas que consistia em livrarmo-nos das cartas que tínhamos na mão, porque acumularíamos um ano de burro por cada uma que não conseguíssemos descartar.
Eu era bem pequeno, mas eles davam-me grande atenção e eu mantenho-os vivos na minha memória passados todos estes anos.

terça-feira, julho 05, 2011

Anos sessenta em Salvador


Estas fotografias são de cerca de 1960 (mais ano menos ano). Mais de cinquenta anos passados, não me recordo com segurança do acontecimento que terá ditado estas poses, mas  julgo poder identificar todos os ali presentes (da esquerda para a direita).
1.ª foto
Padre António Robalo Ramos, pároco de Salvador,  António Clemente (representante das máquinas Oliva, que ministrava cursos de bordados às moças de Salvador), Cabo Zeferino, comandante do posto da Guarda Fiscal de Salvador, Hermínia Miguel (filha do Cabo Zeferino), António Araújo (agente da Oliva em Penamacor), José Vicente Lopes e sua mulher Maria Adelaide Gamelas Lopes, ambos professores em Salvador.
2.ª foto
À frente: Eu próprio, Zé Alberto Lopes, Zé Manel Robalo, Frederico Nuno Lopes e Tó Vicente Gameiro; ao meio: Henrique Leitão, António Clemente, Cabo Zeferino, José Robalo da Cunha Pereira e Padre António Robalo Ramos; atrás: Ismael Leitão e Helder Lopes.
O Salvador de hoje não se compara com o dos anos sessenta, nem, obviamente, se revê nas rústicas construções de alvenaria que servem de cenário de fundo às imagens.
O xisto e o granito das paredes eram, de facto, escuros e pardacentos, em contraste com os edifícios coloridos e vistosos de agora, mas o nosso horizonte, esse, era bem mais luminoso e radiante que o actual!
As fotos agradeço-as ao Zeferino Afonso.

sábado, junho 18, 2011

Guarda Fiscal de Salvador

Este verdadeiro tesouro fotográfico parece representar um momento de grande importância para a força constitutiva do Posto da Guarda Fiscal de Salvador, dado o ar festivo e a solenidade da pose.
O uniforme de gala, os instrumentos musicais e os «palhinhas» também não enganam ninguém: era dia de festa, por qualquer motivo! E não falaremos das respeitáveis e quase uniformes bigodaças!
Infelizmente a imagem não está datada, mas estimamos que será, muito provavelmente, dos anos quarenta (decorria a guerra civil espanhola), altura em que as localidades raianas, como o Salvador, suscitavam grande atenção do poder no controlo e na repressão do contrabando. O facto de apenas identificarmos - com segurança - um elemento, reforça a ideia de que a foto não será mais recente.
Com efeito, só conhecemos o 1.º Cabo Zeferino Miguel, o segundo da esquerda, na fila da frente, que era o comandante do posto. Poderão também estar, entre outros, José Afonso, António Vaz Leitão e Domingos Lopes, que, à época, já estariam a prestar serviço em Salvador.
O Cabo Zeferino deixou a fotografia ao seu afilhado Zeferino dos Santos Afonso, a quem agradecemos a sua cedência.

sexta-feira, junho 10, 2011

José Manuel Marques

O Zé Manel nasceu em África, mas andou em Salvador na escola do professor José Vicente Lopes, nos anos quarenta-cinquenta, tal como nós. Tinha uma doença grave, de insuficiência cardíaca, que actualmente teria cura, mas que, naquele tempo, preconizava vida breve, como veio a verificar-se.
O Zé Manel  era um rapaz franzino, macilento, de grandes olheiras e lábios roxos, mas muito educado e que facilmente fazia amigos. Chegava às aulas sempre extremamente cansado, motivado pela cruel doença, mas também devido à localização da nossa escola, quase no cimo da serra.
O Zé Manel, que deixou muitas lembranças nos seus companheiros de escola, era da família dos Caiadinhos (neto de Manuel Martins Caiado – o «caiadinho»), uma família exemplar de gente honrada e boa e com muitos membros emigrados em Angola.
Os documentos que se publicam foram-nos cedidos pelo Zeferino dos Santos Afonso e encontravam-se no espólio documental de Hermínia Miguel Borges, filha de Zeferino Miguel, que exerceu em Salvador, durante muitos anos, as funções de comandante do posto da Guarda Fiscal, e ambos já falecidos.  O cabo Zeferino, vizinho e amigo pessoal dos Caiados, era uma pessoa extremamente arrumada e meticulosa, como se pode aferir pela anotação supra.

terça-feira, junho 07, 2011

Homenagem aos antigos combatentes do concelho


A imagem representa o imponente monumento de homenagem aos antigos combatentes do concelho de Penamacor, cuja inauguração teve lugar no passado dia 1 de Junho de 2011. O evento, já esperado há vários anos, foi, enfim, concretizado, muito pelas insistentes diligências da comissão instaladora encabeçada pelo nosso conterrâneo e amigo de infância, prof. Libério Candeias Lopes, as quais mereceram o apoio de diferentes entidades e o alto patrocínio da Câmara Municipal de Penamacor e do seu presidente, dr. Domingos Torrão.
A escultura, em granito e ferro policromado, é da autoria de Mestre Eugénio Macedo, que lhe atribuiu o título de «Três Faces».  Assente sobre um plinto de base triangular, que simboliza os três ramos das forças armadas, o alçado compõe-se de três lajes graníticas onde se recortam os contornos de cada uma das três ex-colónias perdidas: Guiné, Angola e Moçambique, representando, os respectivos vazios, as mortes e outros sofrimentos físicos e psíquicos causados à geração que sofreu a guerra.
Encimam o conjunto três chamas – verde, vermelha e amarela –, aludindo ao fogo das armas e às cores nacionais.
Porque a vocação deste blogue se situa no «Salvador de outros tempos», entendemos que este acontecimento, referindo-se aos conturbados anos sessenta e setenta, tem aqui perfeito cabimento.

segunda-feira, maio 30, 2011

Rancho melhorado


Ao aproximar-se o dia 1 de Junho, data da inauguração do monumento aos antigos combatentes do concelho de Penamacor, nada melhor do que a preparação de um belo rancho melhorado, preparado com todo o requinte, na sumptuosa e moderna cozinha da Companhia, a qual, como se vê, está equipada com o mais avançado material hoteleiro, desde enormes travessas, grandes tachos, panelas e panelões, bancadas e bancos, até ao sofisticado «barbecue grill».
A cena passa-se por volta de 1970 e o prato do dia é leitão assado com batatinhas alouradas. Esperamos que o apetitoso petisco tenha sido acompanhado com uns copinhos de tinto «do puto»... para desenjoar da cerveja.
O «chefe» é o Adelino Gonçalves Calamote, filho dos meus estimados e saudosos primos Henrique Calamote e Arminda Gonçalves. A fotografia mandou-a ele aos «queridos tios», meus pais, que a tiveram religiosamente exposta num quadro da parede, até que a casa entrou em obras. Herdei-a eu.

Um grande abraço, caro primo!

quinta-feira, maio 26, 2011

Guerra do Ultramar



Inaugurar-se-á no próximo dia 1 de Junho, em Penamacor, o monumento em homenagem aos combatentes da Guerra do Ultramar. Fará nesse dia 36 anos que desembarquei em Lisboa, vindo de Angola, de regresso da minha última comissão militar.
Nesse dia de 1975, a escassos meses de o Alm. Leonel Cardoso, Alto Comissário e Governador-Geral de Angola, proclamar a independência daquele território de administração portuguesa, o meu estado de espírito era de muita confusão e de bastantes incertezas.
Como profissional, cada vez que regressava começava a contar os dias que faltavam para a comissão seguinte. Desta vez não seria bem assim. Mas como seria, então?
Foram 500 anos de uma realidade a que nos habituáramos. Como evoluiria agora?
Fosse como fosse, uma forte esperança envolvia, com o seu enorme manto verde esmeralda, as imensas dúvidas e interrogações que se punham à nossa frente.
E vem o recurso à poesia… mesmo que pretensiosamente invocada.

segunda-feira, maio 23, 2011

Programa da inauguração do Monumento aos Combatentes



Salvador Barquinha d'Oiro, tem a honra e o orgulho de mostrar, acima, o programa da inauguração do monumento de homenagem aos antigos combatentes do Concelho, que terá lugar em Penamacor no próximo dia 1 de Junho, com as honras adequadas.

Velha aspiração de todos quantos deram o seu contributo ao chamamento da Pátria, e que já desesperavam de ver, no nosso concelho, a respectiva concretização.

Ela chegou, agradeçamos aos que a tornaram possível, e mostremos o nosso agrado, «tirando» o dia 1 de Junho aos nossos afazeres e ócios, e dedicando-o a confraternizar, à volta do monumento, com os antigos camaradas, e/ou seus familiares, e a evocar e honrar os mortos.

Avancemos, todos, ...mais esta vez!

sexta-feira, maio 20, 2011

Antigos Combatentes



Falta pouco mais de uma semana para que os antigos combatentes do concelho vejam inaugurado o memorial que assinala, e de certo modo premeia, um esforço hoje considerado sobrehumano, levado a efeito pelos rapazes da terra, nos anos mais doces e pujantes das suas vidas: um esforço que foi também das famílias, em especial das mães, das esposas e das namoradas, que foram abruptamente amputadas dos seus membros mais queridos e indispensáveis.

As guerras são ordenadas pelos políticos eminentes, mas feitas pelo povo humilde e anónimo.

Quando se trata de avançar para a batalha, é «rapidamente e em força»; porém, quando se deve reconhecer o sacrifício feito – que de muitos foi penoso e marcante, e de alguns foi da própria vida – já os políticos tergiversam, regateiam, adiam...

E, para termos direito ao monumento que vamos inaugurar, foi preciso passar meio século desde que o «Niassa», o «Vera Cruz», o «Ana Mafalda», o «Pátria», o «Angola» o «Índia», o «Carvalho Araújo» e tantos outros navios da nossa (saudosa) marinha mercante, começaram a levar e a trazer mancebos de então e anciãos de hoje, para as quatro partidas do mundo, onde, segundo os mesmos políticos, se continuava Portugal.

Mas, ainda assim, este «finalmente» só aconteceu agora porque alguns de nós, antigos combatentes, como o Libério Candeias Lopes, meteram mãos à obra – e os pés à parede, como se costuma dizer.

A eles dedico o pôr-de-sol que trouxe do caminho maritimo descoberto 463 anos antes pelo antigo combatente português Vasco da Gama.

domingo, maio 01, 2011

Geração de Combatentes



A chamada Guerra do Ultramar, iniciada há meio século e terminada em 1974, fez da minha uma geração de combatentes. A última vez que Portugal tivera uma geração de combatentes fora entre 1917 e 1918, na 1.ª Grande Guerra: a geração do meu pai, que esteve lá, no Corpo Expedicionário Português a Moçambique.
Julgo que o Poder Político da época não terá tratado brilhantemente a geração combatente do meu progenitor, mas nunca me constou que tivesse achincalhado o voluntarismo patriótico dispendido por soldados, sargentos e praças, ou depreciado o esforço militar desenvolvido por todos, como fez com a minha própria geração; como, também nunca me pareceu que, frequentemente manifestasse públicas simpatias pelo inimigo de então e exaltasse as deserções e o incumprimento de missões de que, muitas vezes, resultaram mortos e feridos do nosso lado, como sucedeu desta feita.
Também do ponto de vista de honrar os antigos combatentes, com um simples memorial comemorativo que fosse, é de todos sabido que complicações, que entraves e que morosidades isso comporta nos nossos controversos tempos, – aliás bem injustamente, porque as consciências contrárias ao envio de tropas para o antigo Ultramar Português, são as mesmíssimas que mandam tropas para missões de guerra em países estrangeiros, sem quaisquer laços patrióticos, linguísticos, ou outros, connosco…
Já escrevi sobre isto em «A Bósnia e a lição da Guerra do Ultramar», publicado no Jornal do Exército, n.º 432, Dezembro 1995, p. 4).
O concelho de Penamacor terá, enfim, em 1 de Junho próximo, o seu monumento aos Combatentes do Ultramar!

sábado, abril 23, 2011

23.º 23 de Abril





Partiste há 23 anos, num dia 23 de Abril.

Era um dia de calendário como o de hoje; era um dia de luz e de flores como o de hoje; era um dia que só a partir de então eu me apercebi de que o mês de Abril me não largaria nunca mais.

sábado, abril 09, 2011

Manuel Sebastião (1930-1978)


Salvador Barquinha d’Oiro vem hoje recordar o Manuel Sebastião, um saudoso amigo e dedicado salvadorense que a morte ceifou na flor da idade. Era filho de Ascenção Filomena e de Sebastião Lourenço, agente da PSP em Lisboa, e tinha um irmão mais novo, o Alfredo, que também viria a falecer muito cedo. Manuel Sebastião seguiu a carreira militar, foi sargento e oficial, fez comissões nas antigas possessões ultramarinas da Índia, de S. Tomé e Príncipe e de Moçambique, e tinha a patente de tenente quando a morte o surpreendeu, em 9 de Dezembro de 1978, vítima de doença grave. Era casado com Maria de Lurdes da Cunha Leitão, filha do guarda-fiscal António Vaz Leitão e de Celeste Cunha, um casal de monsantinos que passou boa parte da sua vida na nossa terra. Com um casamento perfeito, a Lurdes e o seu Manel tiveram quatro filhos: a Fatinha, a Meninha, a Fernandinha e o Nelson, os quais ainda eram bastante jovens quando o pai morreu: 19, 17, 16 e 15 anos, respectivamente. O Manuel Sebastião era um homem extremamente optimista e bem disposto, que colocava acima de tudo a sua família, os seus amigos e a sua terra. A sua despedida, tão dramática e extemporânea, foi uma perda irreparável que deixaria profunda saudade à família e aos amigos. E a Lurdes, a acrescentar à penosa viuvez, ver-se-ia a braços com quatro filhos na fase mais importante e dispendiosa da sua formação, a exigir esforço permanente e entrega total. E como se não fora ainda sofrimento bastante, teria que confrontar-se, alguns anos depois, com a morte do Nelson, o tão aguardado «rapaz após três meninas», que também nos deixou tão precocemente: aos 33 anos. Há gente para quem os desgostos são visita frequente, e para quem a memória é um sagrado relicário das afeições e das saudades. Recordar é viver – diz o ditado – e recordamos hoje o Manuel e o Nelson Sebastião, que assim vivem em nós e nos acompanham. E deixamos, também, o nosso abraço solidário aos que eles cá deixaram, principalmente à Lurdes, pela esposa, pela mãe e pela amiga extraordinária que sempre soube ser.

quinta-feira, março 10, 2011

Aos Antigos Combatentes


Salvador barquinha d'oiro cumprimenta a Comissão, desejando um enorme sucesso na concretização da feliz iniciativa, e solicita, encarecidamente, o maior interesse e o maior carinho dos seus leitores para o importante e patriótico evento.
Não faltemos, pois, no dia 1 de Junho em Penamacor!

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Lagar do Seabra


Esta foto de 1973, regista uma procissão que vem da capela de Santa Sofia para a igreja matriz de Salvador. O cortejo passa no «Fundo da Estrada» e o grande edifício de alvenaria que se vê em fundo é o Lagar do Seabra.
A nossa terra era, naquele tempo, grande produtora de azeite, dispondo de nada menos do que quatro lagares. Os outros três eram o Lagar do Dr. Júlio, no complexo a que pertence o actual Centro de Dia; o Lagar do Meio, no edifício da nova padaria/confeitaria «O Lagar»; o terceiro era o Lagar Fundeiro, cujo edifício foi recentemente adaptado para alojar o moderno minimercado «Sabor Popular».
O Lagar do Seabra, seria, alguns anos depois, completamente demolido para dar lugar à construção de casas de habitação, não deixando qualquer vestígio para os nossos dias. Era, de todos, o mais antigo e o único que laborava apenas com recurso à força animal, além da humana, evidentemente. Tratava-se de um tradicional «lagar de varas», ainda à boa maneira romana, em que as forças se conseguiam à custa do emprego das leis físicas básicas e das chamadas máquinas simples.
A azeitona, triturada pelas galgas puxadas por juntas de bois, era, em seguida, colocada em sucessivos capachos circulares, depois empilhados e sujeitos ao peso de um enorme tronco de árvore – a vara –, que assim espremia o precioso líquido.
A azáfama que ali se verificava num dia de trabalho era coisa muito bonita de se ver e nós, jovens da altura, ficávamos ali horas a fio, embasbacados, perante a agitação de homens e animais, e perante a monumentalidade daquelas varas de tamanho e envergadura impressionantes.
Aos jovens de agora, recomendamos vivamente a visita a um Lagar de Varas, por exemplo à vizinha povoação de Idanha-a-Velha, que tão bem o soube preservar, num belo museu que lhe dedicou.

A fotografia é do conterrâneo José Morais, a quem peço me desculpe a usurpação.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Salvador em 1937


O documento que aqui se reproduz, e que se encontra no Arquivo da Comissão Fabriqueira da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, matriz de Salvador, é o balanço das contas da festa de Santa Sofia em 1937.
Pelos números envolvidos, podemos ver como eram modestos os festejos, comparados com os de agora. O mesmo não poderá dizer-se da religiosidade, que era, na altura, a componente fundamental da romaria, nomeadamente através do recurso a pregadores afamados, vindos, muitas vezes, de longe.
Elementos da maior importância eram, também, os foguetes e a música que animavam a festa. Certas despesas, como as refeições do fogueteiro e dos músicos eram asseguradas pelas casas mais fartas, que acolhiam um ou mais desses elementos às suas mesas (a inclusão da despesa de dez escudos nas contas deve-se, certamente, a qualquer caso extraordinário).
Uma menção especial para os festeiros e subscritores do balanço – Manuel José Gonçalves, Rui Lopes e José Cristóvão Júnior, homens que eu ainda bem conheci.
Trata-se de três grandes salvadorenses, três homens honrados e notáveis da nossa terra, que muito deram ao Salvador e aos seus conterrâneos, no desempenho de várias funções cívicas, nomeadamente as de Regedor da Freguesia, que era uma autoridade do tipo policial, autêntica, eficiente e gratuita, nas freguesias, figura essa que viria a desaparecer em 1976, na sequência da Constituição da República.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Ano Novo


Cá temos mais um ano novo à nossa porta.
Tem sido costume festejar-se a transição do ano velho para o ano novo, «encorrendo» o ano velho à frente de grande algazarra de testos a cascar com toda a força nas panelas e nos tachos, invariavelmente jogando estes para o lixo no final da chinfrineira.
O que eu vos queria dizer é que, sendo certo que a vida dos Portugueses vai mal, muito por causa da proliferação de tachos – de bons, de grandes tachos –, o que vos queria dizer, de facto, é que vos não poupeis a arrear neles valentemente, assim que o relógio da torre acabe de dar as doze badaladas da meia-noite no dia 31.
E faço votos para que os 365 dias do calendário junto, sejam favoráveis ao Salvador e a todos os seus filhos e amigos, e, se possível, que aos tais tachos, tragam o destino que merecem: o lixo.

domingo, dezembro 19, 2010

Natal 2010 – Ano Novo 2011


Desejamos, profundamente, que todos os salvadorenses, todos os nossos leitores, e as respectivas famílias, passem o Natal felizes.
Desejamos, ainda, que o Ano Novo que aí vem, ao contrário das expectativas, seja uma agradável surpresa para todos.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Assentar praça






Assentar praça, eis algo que já passou à história, e de que é necessário ir falando, para que as gerações mais novas tomem conhecimento de realidades bem diferentes das deste seu tempo.
O serviço militar obrigatório terminou oficialmente em 19 de Novembro de 2004, mas já alguns meses antes deixara de ser feito o recrutamento de conscritos, ou seja, os rapazes com idade de servir à tropa deixaram de ser recrutados e obrigados a ir às sortes, a ir à inspecção, a assentar praça, deixando de ser, assim, retirados, às suas famílias e aos seus empregos, por um período variável, nunca inferior a dezoito meses, mas que poderia ir até três ou mais anos.
O futuro dirá se é bom ou se é mau, mas, no meu tempo, em Salvador, era este um período muito importante das nossas vidas, dado que, sobretudo para os naturais da província, fazer o serviço militar representava um apreciável salto qualitativo em termos das hipóteses possíveis de um futuro diferente, com outras expectativas de qualidade de vida, que a aldeia não podia, naturalmente, proporcionar.
São de 1958 as fotos, deste vosso amigo, que darão uma ideia (favorável) da primeira fase do serviço militar – a instrução – que nos aguardava logo que assentávamos praça.

terça-feira, novembro 30, 2010

«Sarra-se» a Velha


«Sarrar a velha» era um costume muito antigo de Salvador, que consistia numa espécie de serenata destinada a satirizar e a arreliar certas mulheres idosas, já pouco simpáticas de beleza e conhecidas por se irritarem facilmente.
Homens e rapazes folgazões, muniam-se de cortiços de abelhas vazios, que friccionavam com um sarrafo (pau rugoso), produzindo um ruído ensurdecedor e irritante. Aos gritos «sarra-se a velha!, sarra-se a velha!», juntavam grande algazarra de vozes, latas e chocalhos. A chinfrineira obrigava a visada a vir para a rua a gritar com eles e a expressar a sua ira com a «malandragem», que assim atingia os seus objectivos de obrigar a pobre velhota a saltar da cama e a apanhar tamanha «braveira» e irritação.
Pode parecer agora absurdo, mas as pessoas não se escandalizavam com estes actos de chacota e de aparente má-educação perante pessoas idosas, quase sempre escolhidas entre as mais desfavorecidas e sozinhas: era a tradição que, ao tempo, imperava, e fazia parte das diversões inocentes e costumeiras, sempre aguardadas, com ansiedade, na altura própria de cada ano.

Foto: Prof. José Vicente Lopes (1897-1969)

sábado, novembro 20, 2010

Gente bonita de Salvador


O nosso Salvador foi sempre uma terra de gente bonita, e temos hoje mais uma prova disso.
O menino da imagem é o nosso amigo e companheiro de infância Alcino Lopes, que ali faz companhia a sua irmã Alice; as restantes meninas são a Ilda Gonçalves, a Augusta e a Alice Afonso, a Patrocínia Ferreira, a Lurdes Leitão, a Ilda e a Fernanda Silva, a Milúcia, a Alda e a Dulce Frederico. Na fila detrás figuram, «cortadas», mais três pessoas que não conseguimos identificar.
A fotografia é de cerca de 1950 e foi-nos facultada pela Ilda Gonçalves.